Cinquenta anos depois da afirmação do poder local democrático, Trás-os-Montes e o Alto Douro continuam à procura de escala para transformar potencial em investimento, emprego e população. No II Fórum Empresarial do Douro, que decorreu ontem na Casa de Mateus, em Vila Real, organizado pela NER- VIR sob o chapéu do projeto "50 Anos do Poder Local", da Notícias Ilimitadas, autarcas, empresários e responsáveis públicos convergiram numa ideia: o Interior só terá futuro se municípios, empresas, Estado, Ensino Superior e diáspora trabalharem em rede.
Entre a crítica ao centralismo, a urgência da ferrovia, a valorização dos recursos humanos e o apelo a uma administração mais amiga do investimento, ficou o aviso de que, sem pessoas e atividade económica, o território perde força.
Alexandre Favaios, presidente da Câmara de Vila Real, sublinhou que o território tem conseguido manter-se atrativo, mas precisa de "outra forma de se organizar". Para o autarca, "os municípios não podem continuar a competir uns com os outros" e devem construir uma resposta mais agregadora, capaz de mostrar que juntos "são mais fortes".
A presidente da Câmara de Bragança, Isabel Ferreira, deixou a mesma preocupação. Avisou que houve "algum retrocesso" quando se abandonaram políticas de diferenciação para o Interior. Sem esses instrumentos, o investimento tende a acontecer onde há mais infraestruturas e massa crítica. E foi clara: "Só existe território enquanto houver pessoas e atividades económicas". Por isso, considera essencial "criar emprego, atrair investimento e valorizar o Ensino Superior, a investigação e a tecnologia".
Por seu lado, Nuno Vaz, presidente da Câmara de Chaves, apontou a burocracia como um dos maiores entraves. "Não podemos ter em Portugal processos que demoram dois, três e cinco anos a ser aprovados", afirmou, dando como exemplo uma autorização da Direção-Geral de Energia e Geologia para uma exploração de energia solar que aguarda "há dois anos". Para o autarca, a administração pública tem de ser "mais amigável para o investimento" e o setor público deve funcionar como "facilitador". Acrescentou que, no caso dos territórios de fronteira, é também preciso "estabelecer mais ligações a Espanha" e apostar numa "competição colaborativa" entre municípios, empresas e agentes económicos.
Do lado empresarial, Sónia Silva, da Aumovio, em Vila Real, disse ser "importante saber que está a ser criado na região um cluster industrial". Mas avisou que isso não chega. É preciso atrair "empresas de outras áreas" para "reter talento e criar mais conhecimento", até porque, "quanto mais conhecimento houver na região, maior será o potencial para que outras empresas e mais talento venham para o Interior".
VALOR ACRESCENTADO
Miguel Checa, diretor executivo da Goldenergy, acredita que é possível "comprar talento", mas também "criar talento", desde que haja pessoas motivadas e territórios capazes de acolher as famílias dos trabalhadores. Para Miguel Checa, a região precisa de investimento para gerar riqueza e fixar população.
Para Ana Carvalho, diretora de fábrica da Konig Modulo Portugal, em Bragança, o Interior "não pode crescer por volume". Tem de crescer "por valor acrescentado", com "parcerias público-privadas, marca, comunicação e internacionalização". Também deixou uma crítica à forma como o país distribui incentivos, considerando que o Estado deve "proteger os mais frágeis", mas também "premiar o mérito" e quem gera rendimento.
Autarcas e empresários discutiram entraves ao crescimento económico. Cooperação entre municípios irá atrair investidores
RICARDO RIO
"Os concelhos vizinhos não são concorrentes"
Ricardo Rio, ex-presidente da Câmara de Braga, lembrou, em Vila Real, que os 50 anos do Poder Local foram "um período de grande construção", mas avisou que as autarquias não podem ficar à espera do Poder Central. Para o economista, "não há desenvolvimento em qualquer região se não houver dinâmica e atratividade empresarial com criação de emprego". A sua estratégia passou pela criação da InvestBraga a partir de uma empresa municipal, pela diplomacia económica, pelo contacto com embaixadores e por uma rede com os maiores empresários do concelho. "Conseguimos atrair muitas empresas e criar cerca de três mil empregos", sublinhou. Destacou ainda a importância de uma "via verde para projetos relevantes" e deixou um recado à região: "Os concelhos vizinhos não são os nossos concorrentes". Para ganhar escala, "os territórios têm de trabalhar em rede e ter resultados".
Diáspora pode levar talento e novas oportunidades ao Interior
Ligação dos emigrantes ao território traz oportunidades de desenvolvimento
potencial A diáspora pode ser decisiva para atrair talento, investimento e novas oportunidades para o Interior, mas só se houver menos burocracia, mais proximidade e mais proatividade do poder local. A ideia marcou o painel "A Diáspora e o Poder Local", no II Fórum Empresarial do Douro.
Sílvia Silva, presidente da Câmara de Santa Marta de Penaguião, acredita que há emigrantes disponíveis para regressar, investir ou criar projetos nos territórios de origem. Mas avisa que "as pessoas nunca vão regressar por discursos". É preciso "passar à ação" e "descomplicar". "Os nossos emigrantes chegam e dizem que aqui é tudo complicado", enfatiza. Muitos "querem voltar" e só precisam de "um empurrãozinho", mas encontram obstáculos.
Patrick Martins, diretor executivo da MT Green, mostrou como a diáspora pode transformar-se em investimento concreto. Estudou na Suíça, trabalhou na Finlândia e viu potencial em instalar um "data center" em Vila Pouca de Aguiar. Assume que para isso foi importante o "apoio da câmara". João Teixeira, da Quinta da Janeca, também naquele concelho, resumiu uma das dificuldades: "Tenho pressa, porque o fator tempo tem muito custo em tudo o que queremos implementar".
Álvaro Beleza, presidente da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES), alargou o debate à organização política do país. Disse que Portugal tem de aproveitar melhor "os 10 milhões que estão cá" e "os cinco milhões da diáspora". Para o dirigente, "olhar de fora ajuda a olhar melhor" e "para haver simplificação, é preciso descentralizar".
Beleza considera que "o sistema político não favorece o Interior". Está convicto de que, se a regionalização avançasse, "muitas decisões deixariam de depender de Lisboa". Referiu a ligação rodoviária entre Bragança e Puebla de Sanabria, em Espanha, que a autarquia reclama há décadas e que, no seu entender, "já estaria feita" se houvesse regiões. Pediu "uma reforma fiscal, menos burocracia e impostos mais baixos".
O presidente da SEDES entende ainda que é indispensável ligar o Porto por alta velocidade à Corunha, a Valladolid, a Madrid e a Paris. Tem a certeza que "assim seria fácil a diáspora instalar-se" no país. O ideal seria que os autarcas "se metessem todos num autocarro, fossem a Lisboa reivindicá-la e não saíssem de lá enquanto a não tivesseem".
Papel da diáspora foi amplamente debatido no painel da tarde
Região do Douro mudou, mas continua presa à periferia
Centralismo "dá jeito aos políticos", afirma ex-ministro Braga da Cruz
inovar Luís Braga da Cruz, ex-ministro da Economia e antigo presidente da CCDR-Norte, lembrou ontem que o Douro "mudou muito em 50 anos", graças a projetos de reconversão da agricultura e ao conhecimento gerado, nomeadamente, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Ainda assim, avisou que o problema continua "complexo" e passa por "reduzir a sua situação periférica, inovar e capacitar pessoas". Criticou o centralismo, que "dá jeito aos políticos", e voltou à ferrovia: um TGV Porto -Vila Real - Bragança custaria "muito menos" do que novas travessias do Tejo.
Carlos Tavares, também antigo
ministro da Economia, resumiu o desequilíbrio: "75% da atividade económica está em 25% do território". Frisou que é "um desperdício não aproveitar o resto do país".
Paulo Figueiredo, vice-presidente da Comunidade Intermunicipal do Douro, recordou que "o desenvolvimento é sempre um projeto inacabado" e pediu um benefício fiscal "a sério" para o Interior, com impacto por "duas décadas". Lembrou que a situação é "dramática", porque "a Economia não foi cuidada na região" e existem "imensas assimetrias".
Oradores convidados
Mário Rodrigues
Presidente da NERVIR
"A NERVIR tem a obrigação de ser um elo en tre instituições da região para fazer acontecer numa região com indicadores abaixo da média nacional. Não temos margem de erro'
Álvaro Santos
Presidente da CCDR-N
"Os fundos europeus não resolvem, por si só, os problemas. É preciso estratégia. Precisamos de aprofundar a descentralização e aproximar as políticas dos problemas das pessoas"
Ana Carvalho
Diretora de fábrica da Konig Modulo Portugal
"Porque é que as empresas não se instalam no Interior? Porque é uma decisão de risco. Enquanto não for compensado esse risco com políticas apropriadas elas não se instalam"
Carlos Tavares
Ex-ministro da Economia epresidente da ACEC
"Defendemos uma redução muito forte do IRS para quem queira viver e trabalhar no Interior, bem como um regime contratual para as empresas que seja exclusivo destas regiões"
Luís Braga da Cruz
Antigo presidente da CCDR-N
"A Região de Trás-os-Montes e Alto Douro evoluiu muito nos últimos 50 anos, mas continua a ter um grande problema que são os recursos humanos, a capacitação das pessoas"
Silvério Regalado
Secretário de Estado da Administração Local
"Estamos a rever a lei das finanças locais para acabar com uma série de burocracias. Temos de dar recursos às autarquias e trabalhar em parceria com o setor privado"
Sílvia Silva
Presidente da Câmara de Santa Marta de Penaguião
"Há que diminuir a burocracia, ter menos labirintos e mais portas abertas. Os municípios têm de ser proativos. Os emigrantes de hoje saem para crescer e têm muito para trazer"
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Internacionalização
Fórum Empresarial do Douro
Interior quer ganhar escala para atrair investimento.
Jornal de Notícias
21/05/2026
Imprensa Nacional