Análise da Reserva Federal de Nova Iorque revela que Pequim tem conseguido evitar as elevadas taxas e mantido a exportação de bens para os EUA. Apenas mudou a etiqueta e a rota de transporte. As tarifas vão ser tema da cimeira entre Trump e Xi esta quinta-feira.
À primeira vista parece um paradoxo, mas uma análise recente da Reserva Federal de Nova Iorque mostra como ao mesmo tempo que o défice comercial dos EUA com a China diminuiu no último ano, o saldo global da balança norte-americana se manteve quase inalterado em 2025. Já o excedente comercial de Pequim aumentou de 1 para 1,2 biliões de dólares. As tarifas serão um dos temas centrais da cimeira desta quinta-feira entre Donald Trump e Xi Jinping. E como se explica? É certo que as "trocas comerciais entre os EUA e a China diminuíram significativamente", começam por admitir os autores do estudo "In What Ways Has U.S. Trade with China Changed?". Mas tudo aponta para um re-direcionamento das rotas que estarão a permitir que os produtos chineses continuem a entrar nos EUA e os dólares a seguirem para a China. "As importações norte-americanas provenientes da China caíram, enquanto vários países do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa) - incluindo Vietname, Tailândia e Malásia - aumentaram as suas exportações para os EUA".
Este comportamento, indicam os autores, sugere uma reorganização das cadeias de abastecimento, em que muitas empresas transferiram parte da produção para outros países asiáticos, numa estratégia designada por "China+1". "Entre os países da ASEAN, o Vietname foi o principal responsável pelo aumento do défice" dos EUA com os países desta geografia.
Os autores da Fed de Nova lorque concluem que "no ano passado, o comércio da China com os EUA passou, de uma forma ou de outra, cada vez mais a ser encaminhado através da ASEAN". A estratégia que foi desenhada por Donald Trump para castigar a China, acabou por dar à segunda maior economia mundial um ano recorde no que toca aos resultados positivos do comércio internacional.
0 caso dos portáteis
Esta triangulação feita pela China para evitar as tarifas norte-americanas tem exemplos concretos que atestam a tese dos economistas. É o caso dos portáteis e dos tablets.
Utilizando o código do sistema harmonizado (SH), os autores concluem que há uma clara alteração nos padrões de trocas comerciais em determinados bens ou categorias. A análise às cinco maiores variações (acima de dois dígitos) nas balanças comerciais dos EUA com a China e destes com os países da ASEAN, mostra que "as variações de longe mais significativas ocorrem nos códigos SH 84e 85, que correspondem às categorias de produtos de alta tecnologia relacionados com informática e redes", referem. Por exemplo, o "défice dos EUA com a China nos códigos SH 84 e 85 diminuiu cerca de 70 mil milhões de dólares e aumentou num montante bastante semelhante, 80 mil milhões de dólares, no caso dos países da ASEAN", referem. Mais, acrescentam, "a própria balança da China com a ASEAN revela um aumento de quase 70 mil milhões no seu excedente no código SH 85".
Uma análise detalhada à categoria que inclui os computadores portáteis e os tablets mostra de "forma mais evidente a reorientação dos fluxos comerciais". De acordo com o estudo, "estes dispositivos registaram alterações muito significativas nos fluxos comerciais no ano passado. O défice comercial dos EUA com os países da ASEAN em portáteis e tablets aumentou 21 mil milhões de dólares, representando metade do aumento total de 43 mil milhões no défice da posição SH 84", afirmam. Por outro lado, o "défice dos EUA com a China nesta subcategoria diminuiu 24 mil milhões de dólares, de um total de 29 mil milhões de dólares de redução na posição SH84".
Recorde-se que ao longo do último ano, depois do chamado "Dia da Libertação" de Trump, os EUA aplicaram tarifas aos produtos chineses que atingiram o pico em maio de 2025, quando a tarifa média efetiva ultrapassou os 50%. Depois de negociações, a taxa média tem rondado os 33%.
Trump procura vitória comercial em Pequim. Apoio a Taiwan na agenda
Prioridade será reclamar mais acesso das empresas norte-americanas ao mercado chinês.
China e Estados Unidos dão nesta quinta-feira, na capital chinesa, início a uma série de rondas bilaterais nas quais a Administração norte-americana procurará obter ganhos comerciais, mas onde há também, à partida, indicação de uma possível aproximação na questão mais sensível das relações entre as duas potências - o statuquo sobre Taiwan - e para o equilíbrio regional do Pacífico.
A caminho de Pequim, onde foi recebido ao final do dia de quarta-feira, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, valorizou a dimensão da comitiva empresarial que o acompanha, na qual se encontram desde responsáveis da Boeing - que na capital chinesa deverão selar um acordo para a venda de aeronaves -, passando por Blackrock, Blackstone, Citi e Goldman Sachs, e incluindo ainda Elon Musk da Tesla, Tim Cook da Apple, mas também Jensen Huang, da Nvidia, que no início deste ano obteve aprovação das autoridades de Taiwan para uma nova sede da empresa de microprocessadores e inteligência artificial na ilha.
A abrir a agenda de reuniões, na qual está prevista um banquete de Estado e um almoço de trabalho com o Presidente chinês, Xi Jinping o "primeiro pedido" será de maior acesso para as empresas norte-americanas ao mercado chinês, sobre cujas barreiras regulatórias as câmaras de comércio dos EUA (mas também europeias) se queixam há décadas.
"Perguntarei ao Presidente Xi, um líder de distinção extraordinária, que "abra" a China para que estas pessoas brilhantes possam fazer a sua magia, e levar a República Popular da China mais longe!", publicou Trump, ainda abordo do Air Force 1, na rede social Truth, prometendo "numa questão de horas" fazer desse "o primeiro pedido" a Xi Jinping.
Enquanto isso, o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng e o vice-ministro do Comércio chinês, Li Chenggang, conduziam negociações de última hora na Coreia do Sul, em preparação da cimeira.
Mas, para além dos ganhos comerciais que Trump espera poder anunciar, o principal destaque na agendadas reuniões de Pequim deverá ser a Defesa, sendo esta a primeira vez que um secretário norte-americano da Defesa (Peter Hegseth) acompanha o Presidente à China. Acresce o anúncio prévio de que os EUA estarão disponíveis para discutir com Pequim o apoio que mantêm a Taiwan, nomeadamente, os acordos de vendas de armas.
O equilíbrio das relações sino-americanas sobre a ilha tem assentado no princípio de não reconhecimento por Washington da autonomia de Taiwan, ao mesmo tempo que mantém o compromisso de defesa da ilha, ao qual estão legalmente obrigados. A concessão quanto à discussão com Pequim dos termos em que é assegurado o apoio a Taiwan fez soar campainhas na região e também no Senado dos EUA,
A pompa de uma receção sem Xi Jinping
As autoridades chineses sabem fazer uma boa receção com coreografias estudadas, em rotinas treinadas com muita antecedência. E isso aconteceu ontem à chegada de Donald Trump a Pequim para a muito esperada cimeira com o Presidente Xi Jinping, apesar de o líder chinês não ter estado na placa do aeroporto. No seu lugar esteve o vice-presidente Han Zheng. No fundo da escada de saída do Air Force One, foi estendido o tradicional tapete vermelho e 300 jovens com as bandeiras dos dois países receberam o Presidente dos EUA. Só hoje se dará o primeiro encontro entre Trump e Xi.
PC DA CHINA QUE CHEGAM POR OUTRAS ROTAS
Défice dos EUA nos portáteis e tablets, em mil milhões de dólares
Depois de vários anos em que os Estados Unidos apresentaram um défice maior na categoria de portáteis e tablets com a China, essa situação inverteu-se ao longo do ano passado. O défice subiu face aos países do Sudeste Asiático e diminuiu para a China.
MAQUINARIA E ELETRÓNICA MOSTRAM A MUDANÇA
Défices e excedentes dos EUA com a China e países da ASEAN, em mil milhões de dólares
Os dados mostram que há uma "deslocação" dos défices e excedentes entre a China e os Estados Unidos e os países do Sudeste Asiático. Os valores para os EUA mostram as alterações no défice comercial. Já no caso da China, refletem as variações no excedente face aos parceiros comerciais.
À primeira vista parece um paradoxo, mas uma análise recente da Reserva Federal de Nova Iorque mostra como ao mesmo tempo que o défice comercial dos EUA com a China diminuiu no último ano, o saldo global da balança norte-americana se manteve quase inalterado em 2025. Já o excedente comercial de Pequim aumentou de 1 para 1,2 biliões de dólares. As tarifas serão um dos temas centrais da cimeira desta quinta-feira entre Donald Trump e Xi Jinping. E como se explica? É certo que as "trocas comerciais entre os EUA e a China diminuíram significativamente", começam por admitir os autores do estudo "In What Ways Has U.S. Trade with China Changed?". Mas tudo aponta para um re-direcionamento das rotas que estarão a permitir que os produtos chineses continuem a entrar nos EUA e os dólares a seguirem para a China. "As importações norte-americanas provenientes da China caíram, enquanto vários países do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa) - incluindo Vietname, Tailândia e Malásia - aumentaram as suas exportações para os EUA".
Este comportamento, indicam os autores, sugere uma reorganização das cadeias de abastecimento, em que muitas empresas transferiram parte da produção para outros países asiáticos, numa estratégia designada por "China+1". "Entre os países da ASEAN, o Vietname foi o principal responsável pelo aumento do défice" dos EUA com os países desta geografia.
Os autores da Fed de Nova lorque concluem que "no ano passado, o comércio da China com os EUA passou, de uma forma ou de outra, cada vez mais a ser encaminhado através da ASEAN". A estratégia que foi desenhada por Donald Trump para castigar a China, acabou por dar à segunda maior economia mundial um ano recorde no que toca aos resultados positivos do comércio internacional.
0 caso dos portáteis
Esta triangulação feita pela China para evitar as tarifas norte-americanas tem exemplos concretos que atestam a tese dos economistas. É o caso dos portáteis e dos tablets.
Utilizando o código do sistema harmonizado (SH), os autores concluem que há uma clara alteração nos padrões de trocas comerciais em determinados bens ou categorias. A análise às cinco maiores variações (acima de dois dígitos) nas balanças comerciais dos EUA com a China e destes com os países da ASEAN, mostra que "as variações de longe mais significativas ocorrem nos códigos SH 84e 85, que correspondem às categorias de produtos de alta tecnologia relacionados com informática e redes", referem. Por exemplo, o "défice dos EUA com a China nos códigos SH 84 e 85 diminuiu cerca de 70 mil milhões de dólares e aumentou num montante bastante semelhante, 80 mil milhões de dólares, no caso dos países da ASEAN", referem. Mais, acrescentam, "a própria balança da China com a ASEAN revela um aumento de quase 70 mil milhões no seu excedente no código SH 85".
Uma análise detalhada à categoria que inclui os computadores portáteis e os tablets mostra de "forma mais evidente a reorientação dos fluxos comerciais". De acordo com o estudo, "estes dispositivos registaram alterações muito significativas nos fluxos comerciais no ano passado. O défice comercial dos EUA com os países da ASEAN em portáteis e tablets aumentou 21 mil milhões de dólares, representando metade do aumento total de 43 mil milhões no défice da posição SH 84", afirmam. Por outro lado, o "défice dos EUA com a China nesta subcategoria diminuiu 24 mil milhões de dólares, de um total de 29 mil milhões de dólares de redução na posição SH84".
Recorde-se que ao longo do último ano, depois do chamado "Dia da Libertação" de Trump, os EUA aplicaram tarifas aos produtos chineses que atingiram o pico em maio de 2025, quando a tarifa média efetiva ultrapassou os 50%. Depois de negociações, a taxa média tem rondado os 33%.
Trump procura vitória comercial em Pequim. Apoio a Taiwan na agenda
Prioridade será reclamar mais acesso das empresas norte-americanas ao mercado chinês.
China e Estados Unidos dão nesta quinta-feira, na capital chinesa, início a uma série de rondas bilaterais nas quais a Administração norte-americana procurará obter ganhos comerciais, mas onde há também, à partida, indicação de uma possível aproximação na questão mais sensível das relações entre as duas potências - o statuquo sobre Taiwan - e para o equilíbrio regional do Pacífico.
A caminho de Pequim, onde foi recebido ao final do dia de quarta-feira, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, valorizou a dimensão da comitiva empresarial que o acompanha, na qual se encontram desde responsáveis da Boeing - que na capital chinesa deverão selar um acordo para a venda de aeronaves -, passando por Blackrock, Blackstone, Citi e Goldman Sachs, e incluindo ainda Elon Musk da Tesla, Tim Cook da Apple, mas também Jensen Huang, da Nvidia, que no início deste ano obteve aprovação das autoridades de Taiwan para uma nova sede da empresa de microprocessadores e inteligência artificial na ilha.
A abrir a agenda de reuniões, na qual está prevista um banquete de Estado e um almoço de trabalho com o Presidente chinês, Xi Jinping o "primeiro pedido" será de maior acesso para as empresas norte-americanas ao mercado chinês, sobre cujas barreiras regulatórias as câmaras de comércio dos EUA (mas também europeias) se queixam há décadas.
"Perguntarei ao Presidente Xi, um líder de distinção extraordinária, que "abra" a China para que estas pessoas brilhantes possam fazer a sua magia, e levar a República Popular da China mais longe!", publicou Trump, ainda abordo do Air Force 1, na rede social Truth, prometendo "numa questão de horas" fazer desse "o primeiro pedido" a Xi Jinping.
Enquanto isso, o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng e o vice-ministro do Comércio chinês, Li Chenggang, conduziam negociações de última hora na Coreia do Sul, em preparação da cimeira.
Mas, para além dos ganhos comerciais que Trump espera poder anunciar, o principal destaque na agendadas reuniões de Pequim deverá ser a Defesa, sendo esta a primeira vez que um secretário norte-americano da Defesa (Peter Hegseth) acompanha o Presidente à China. Acresce o anúncio prévio de que os EUA estarão disponíveis para discutir com Pequim o apoio que mantêm a Taiwan, nomeadamente, os acordos de vendas de armas.
O equilíbrio das relações sino-americanas sobre a ilha tem assentado no princípio de não reconhecimento por Washington da autonomia de Taiwan, ao mesmo tempo que mantém o compromisso de defesa da ilha, ao qual estão legalmente obrigados. A concessão quanto à discussão com Pequim dos termos em que é assegurado o apoio a Taiwan fez soar campainhas na região e também no Senado dos EUA,
A pompa de uma receção sem Xi Jinping
As autoridades chineses sabem fazer uma boa receção com coreografias estudadas, em rotinas treinadas com muita antecedência. E isso aconteceu ontem à chegada de Donald Trump a Pequim para a muito esperada cimeira com o Presidente Xi Jinping, apesar de o líder chinês não ter estado na placa do aeroporto. No seu lugar esteve o vice-presidente Han Zheng. No fundo da escada de saída do Air Force One, foi estendido o tradicional tapete vermelho e 300 jovens com as bandeiras dos dois países receberam o Presidente dos EUA. Só hoje se dará o primeiro encontro entre Trump e Xi.
PC DA CHINA QUE CHEGAM POR OUTRAS ROTAS
Défice dos EUA nos portáteis e tablets, em mil milhões de dólares
Depois de vários anos em que os Estados Unidos apresentaram um défice maior na categoria de portáteis e tablets com a China, essa situação inverteu-se ao longo do ano passado. O défice subiu face aos países do Sudeste Asiático e diminuiu para a China.
MAQUINARIA E ELETRÓNICA MOSTRAM A MUDANÇA
Défices e excedentes dos EUA com a China e países da ASEAN, em mil milhões de dólares
Os dados mostram que há uma "deslocação" dos défices e excedentes entre a China e os Estados Unidos e os países do Sudeste Asiático. Os valores para os EUA mostram as alterações no défice comercial. Já no caso da China, refletem as variações no excedente face aos parceiros comerciais.