Em 2020, apenas 6% das empresas dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) recorriam à Inteligência Artificial. Cinco anos depois, essa percentagem mais que triplicou, fixando- -se em 20%, de acordo com dados da OCDE citados no estudo 'Artificial Intelligence in the Footwear Sector", publicado em março pela World Footwear, plataforma da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS).
É nesta curva de adoção acelerada que a indústria do calçado procura agora garantir o seu lugar. O mesmo estudo recorda que Portugal ultrapassou a Espanha em 2022 e se tornou no segundo maior produtor europeu de calçado, atrás apenas da Itália, com cerca de 85 milhões de pares fabricados, num mercado mundial onde a Ásia continua a dominar, respondendo por quase nove de cada dez pares produzidos.
A frente deste esforço está a própria APICCAPS, através do projeto FAIST (Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica), um investimento de cerca de 50 milhões de euros, com apoio do PRR e do NextGenerationEU, que junta mais de quarenta empresas e entidades do setor, segundo o mesmo relatório. Paulo Gonçalves, diretor-executivo da associação, explicou ao Negócios que O FAIST representa um dos maiores investimentos alguma vez realizados na fileira do calçado.
"Esperamos que, até ao final do projeto, estejam desenvolvidas e testadas soluções concretas aplicáveis a toda a cadeia de valor, desde o desenvolvimento do produto até à produção,logística e sustentabilidade". O objetivo, segundo este executivo, é "fazer da indústria portuguesa do calçado amais avançado do mundo". Alias, "no nosso último Plano Estratégico assumimos como objetivo fazer do nosso setor "a grande referência no desenvolvimento de soluções sustentáveis".
Entre os resultados previstos estão desde três linhas integradas altamente automatizadas, 15 novos bens de equipamento, sete produtos inovadores, nove soluções de software e 15 bens de equipamento. "O verdadeiro sucesso do FAIST será a sua capacidade de deixar um legado duradouro de inovação e acelerar a maturidade digital do setor português do calçado".
Uma mudança estrutural
O relatório da World Footwear descreve a transformação digital como uma "urgência estratégica" para o setor, com a IA a tornar-se um fator decisivo. Na perspetiva de Paulo Gonçalves, "estamos perante uma mudança estrutural na forma como as empresas produzem, planeiam, vendem e interagem com os mercados". O responsável avança que o setor português do calçado construiu a sua reputação internacional com base na qualidade, design, flexibilidade e rapidez de resposta "Hoje, para manter essas vantagens competitivas num contexto global cada vez mais exigente, precisamos de acrescentar uma nova dimensão: a capacidade de transformar dados em decisões mais rápidas e mais precisas".
A IA permite, no seu entender, otimizar processos produtivos, antecipar tendências de consumo, reduzir desperdícios, melhorar a gestão da cadeia de abastecimento e acelerar a inovação. "Num setor exportador como o nosso, que compete em segmentos de elevado valor acrescentado, estas capacidades são fundamentais para reforçar a produtividade e criar diferenciação. Mais do que uma opção tecnológica, a lA é hoje um instrumento estratégico para garantir a competitividade futura da indústria portuguesa do calçado".
O documento identifica igualmente como principais obstáculos à adoção de IA a qualidade e fragmentação dos dados, o investimento inicial elevado e a falta de competências técnicas, sobretudo nas PME. Aliás, esta é, diz o executivo, uma das nossas maiores preocupações da APICCAPS. 'A transformação digital só será verdadeiramente bem-sucedida se envolver todo o ecossistema empresarial e não apenas as empresas de maior dimensão. Através de iniciativas como o FAIST, aAPIC- CAPS e o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal estão a promover a criação de soluções escaláveis e acessíveis às PME, reduzindo barreiras de entrada e partilhando conhecimento técnico. Paralelamente, temos investido na sensibilização, capacitação e formação de recursos humanos,bem como na aproximação entre empresas, centros tecnológicos e universidades".
A associação está ainda a trabalhar para criar exemplos concretos e casos de uso que demonstrem o retorno do investimento, "ajudando as empresas aperceberem onde a inovação pode gerar valor real. O nosso objetivo é garantir que nenhuma empresa fique excluída deste processo por falta de recursos ou competências".
Produção asiática não é sustentável
Entretanto, Portugal ultrapassou a Espanha em 2022 e tornou-se o segundo maior produtor europeu de calçado, atrás da Itália, num mercado mundial dominado pela Ásia "Todos os anos são produzidos 24 mil milhões de pares de calção, 88% dos quais na Asa Não nos parece sustentável ou razoável. A concorrência asiática continuará a beneficiar de vantagens de escala e de custos". Nas palavras de Paulo Gonçalves, a resposta europeia, e em particular portuguesa, passa por competir através da inovação, da flexibilidade, da qualida de e da sustentabilidade. "A Inteligência Artificial pode reforçar precisamente estes fatores. Ao permitir processos mais eficientes, produção mais personalizada, melhor previsão da procura e maior capacidade de adaptação às necessidades dos clientes, a IA ajuda -nos a responder com rapidez e precisão a mercados cada vez mais segmentados".
Acresce que a tecnologia "permite aumentar a produtividade sem comprometer os elevados padrões de qualidade que caracterizam o calçado português. A combinação entre talento humano, conhecimento industrial e inteligência artificial pode tornar-se uma vantagem competitiva difícil de replicar por modelos produtivos assentes apenas no fator preço".
Casos como o da empresa ISI (ver caixa) mostram a IA a ser usada para monitorizar a pegada de carbono por par de sapatos e para apoiar práticas de "zero waste". Questionado sobre se Inteligência Artificial pode tornar-se um instrumento central na resposta do setor às exigências de sustentabilidade impostas por consumidores e reguladores, Paulo Gonçalves acredita, desde logo, que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma tendência de mercado para se tornar um requisito estratégico e regulatório. "Neste contexto, a Inteligência Artificial pode desempenhar um papel fundamental ao fornecer informação rigorosa e em tempo real para apoiar decisões mais sustentáveis.
A capacidade de monitorizar consumos energéticos, rastrear materiais, calcular pegadas ambientais, otimizar recursos e reduzir desperdícios permite às empresas melhorar simultaneamente o seu desempenho ambiental e económico". Além disso, assume que "a crescente exigência de transparência por parte dos consumidores e da legislação europeia torna essencial dispor de sistemas capazes de recolher, tratar e validar grandes volumes de informação. Acreditamos que a IA será uma das principais ferramentas para ajudar o setor a cumprir metas ambientais cada vez mais ambiciosas e a reforçar a sua credibilidade junto dos mercados internacionais".
Relativamente às "lições" retiradas dos pilotos do FAIST, o diretor-executivo menciona o facto de a Inteligência Artificial gerar mais valor quando parte de desafios concretos do negócio. "Osprojetos-pi- loto demonstram que a tecnologia pode resolver problemas reais relacionados com eficiência produtiva, sustentabilidade, gestão de informação ou apoio à decisão. Já experimentamos outros saltos tecnológicos no passado com sucesso. Porventura, este agora será mais acelerado". Paulo Gonçalves admite que gostaria de ver cada vez mais empresas a encarara lA não como um projeto isolado, mas como uma componente integrada da sua estratégia de crescimento e inovação. "A colaboração entre empresas, centros tecnológicos e instituições científicas também tem sido um fator determinante para acelerar resultados".
Para a APICCAPS, a ambição é que, nos próximos anos, a adoção de soluções de IA se torne uma prática corrente na indústria portuguesa do calçado. "Queremos um setor mais digital, mais sustentável, mais produtivo e mais preparado para competir nos mercados internacionais, consolidando Portugal como uma referência europeia e mundial na indústria do calçado de valor acrescentado".
IA já corre nas fábricas portuguesas
OLIFEL (FELGUEIRAS, FUNDADA EM 1988) Desenvolve software de gestão para a indústria. É co-promo- tora do FAIST e está a desenvolver o Visualgest, um motor de planeamento e agendamento com IA, com 5 módulos (Sample Tracking, Macro Planning, Workstation Planning, Gantt Planning e Production Recording). Está envolvida nos pilotos com a Armipex, a ISI e a Carité.
ISI (FUNDADA EM 1997)
Fabricante português especializado em solas injetadas, com cerca de 130 colaboradores. Aposta forte em sustentabilidade (certificação ISO 14001e RCS, politica de "zero waste"). No FAIST, está a usar IA para planeamento e para monitorizar emissões de CO2 por par - a Olrfel é o principal fornecedor tecnológico deste caso. Espera uma redução de 90% no tempo de ciclo de planeamento.
MIND (FUNDADA EM 1997)
Desenvolvedora portuguesa de soluções CAD/CAM e gestão de informação industrial, organizada em três unidades de negócio (incluindo uma unidade de l&D industrial com atividade internacional em mercados como EUA, Suíça, França, Itália, Alemanha, Reino Unido, Brasil, China, Japão e Coreia do Sul). No FAIST, aplica IA em modelação 3D, nesting de corte e fluxos de impressão 3D, visando reduzir o tempo de "concept-to-sample". Reporta casos em que esse tempo caiu de oito semanas para cerca de duas.
Paulo Gonçalves destaca que a indústria portuguesa do calçado quer acelerar a adoção de inteligência artificial para reforçar a produtividade, a sustentabilidade e a competitividade internacional.
É nesta curva de adoção acelerada que a indústria do calçado procura agora garantir o seu lugar. O mesmo estudo recorda que Portugal ultrapassou a Espanha em 2022 e se tornou no segundo maior produtor europeu de calçado, atrás apenas da Itália, com cerca de 85 milhões de pares fabricados, num mercado mundial onde a Ásia continua a dominar, respondendo por quase nove de cada dez pares produzidos.
A frente deste esforço está a própria APICCAPS, através do projeto FAIST (Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica), um investimento de cerca de 50 milhões de euros, com apoio do PRR e do NextGenerationEU, que junta mais de quarenta empresas e entidades do setor, segundo o mesmo relatório. Paulo Gonçalves, diretor-executivo da associação, explicou ao Negócios que O FAIST representa um dos maiores investimentos alguma vez realizados na fileira do calçado.
"Esperamos que, até ao final do projeto, estejam desenvolvidas e testadas soluções concretas aplicáveis a toda a cadeia de valor, desde o desenvolvimento do produto até à produção,logística e sustentabilidade". O objetivo, segundo este executivo, é "fazer da indústria portuguesa do calçado amais avançado do mundo". Alias, "no nosso último Plano Estratégico assumimos como objetivo fazer do nosso setor "a grande referência no desenvolvimento de soluções sustentáveis".
Entre os resultados previstos estão desde três linhas integradas altamente automatizadas, 15 novos bens de equipamento, sete produtos inovadores, nove soluções de software e 15 bens de equipamento. "O verdadeiro sucesso do FAIST será a sua capacidade de deixar um legado duradouro de inovação e acelerar a maturidade digital do setor português do calçado".
Uma mudança estrutural
O relatório da World Footwear descreve a transformação digital como uma "urgência estratégica" para o setor, com a IA a tornar-se um fator decisivo. Na perspetiva de Paulo Gonçalves, "estamos perante uma mudança estrutural na forma como as empresas produzem, planeiam, vendem e interagem com os mercados". O responsável avança que o setor português do calçado construiu a sua reputação internacional com base na qualidade, design, flexibilidade e rapidez de resposta "Hoje, para manter essas vantagens competitivas num contexto global cada vez mais exigente, precisamos de acrescentar uma nova dimensão: a capacidade de transformar dados em decisões mais rápidas e mais precisas".
A IA permite, no seu entender, otimizar processos produtivos, antecipar tendências de consumo, reduzir desperdícios, melhorar a gestão da cadeia de abastecimento e acelerar a inovação. "Num setor exportador como o nosso, que compete em segmentos de elevado valor acrescentado, estas capacidades são fundamentais para reforçar a produtividade e criar diferenciação. Mais do que uma opção tecnológica, a lA é hoje um instrumento estratégico para garantir a competitividade futura da indústria portuguesa do calçado".
O documento identifica igualmente como principais obstáculos à adoção de IA a qualidade e fragmentação dos dados, o investimento inicial elevado e a falta de competências técnicas, sobretudo nas PME. Aliás, esta é, diz o executivo, uma das nossas maiores preocupações da APICCAPS. 'A transformação digital só será verdadeiramente bem-sucedida se envolver todo o ecossistema empresarial e não apenas as empresas de maior dimensão. Através de iniciativas como o FAIST, aAPIC- CAPS e o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal estão a promover a criação de soluções escaláveis e acessíveis às PME, reduzindo barreiras de entrada e partilhando conhecimento técnico. Paralelamente, temos investido na sensibilização, capacitação e formação de recursos humanos,bem como na aproximação entre empresas, centros tecnológicos e universidades".
A associação está ainda a trabalhar para criar exemplos concretos e casos de uso que demonstrem o retorno do investimento, "ajudando as empresas aperceberem onde a inovação pode gerar valor real. O nosso objetivo é garantir que nenhuma empresa fique excluída deste processo por falta de recursos ou competências".
Produção asiática não é sustentável
Entretanto, Portugal ultrapassou a Espanha em 2022 e tornou-se o segundo maior produtor europeu de calçado, atrás da Itália, num mercado mundial dominado pela Ásia "Todos os anos são produzidos 24 mil milhões de pares de calção, 88% dos quais na Asa Não nos parece sustentável ou razoável. A concorrência asiática continuará a beneficiar de vantagens de escala e de custos". Nas palavras de Paulo Gonçalves, a resposta europeia, e em particular portuguesa, passa por competir através da inovação, da flexibilidade, da qualida de e da sustentabilidade. "A Inteligência Artificial pode reforçar precisamente estes fatores. Ao permitir processos mais eficientes, produção mais personalizada, melhor previsão da procura e maior capacidade de adaptação às necessidades dos clientes, a IA ajuda -nos a responder com rapidez e precisão a mercados cada vez mais segmentados".
Acresce que a tecnologia "permite aumentar a produtividade sem comprometer os elevados padrões de qualidade que caracterizam o calçado português. A combinação entre talento humano, conhecimento industrial e inteligência artificial pode tornar-se uma vantagem competitiva difícil de replicar por modelos produtivos assentes apenas no fator preço".
Casos como o da empresa ISI (ver caixa) mostram a IA a ser usada para monitorizar a pegada de carbono por par de sapatos e para apoiar práticas de "zero waste". Questionado sobre se Inteligência Artificial pode tornar-se um instrumento central na resposta do setor às exigências de sustentabilidade impostas por consumidores e reguladores, Paulo Gonçalves acredita, desde logo, que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma tendência de mercado para se tornar um requisito estratégico e regulatório. "Neste contexto, a Inteligência Artificial pode desempenhar um papel fundamental ao fornecer informação rigorosa e em tempo real para apoiar decisões mais sustentáveis.
A capacidade de monitorizar consumos energéticos, rastrear materiais, calcular pegadas ambientais, otimizar recursos e reduzir desperdícios permite às empresas melhorar simultaneamente o seu desempenho ambiental e económico". Além disso, assume que "a crescente exigência de transparência por parte dos consumidores e da legislação europeia torna essencial dispor de sistemas capazes de recolher, tratar e validar grandes volumes de informação. Acreditamos que a IA será uma das principais ferramentas para ajudar o setor a cumprir metas ambientais cada vez mais ambiciosas e a reforçar a sua credibilidade junto dos mercados internacionais".
Relativamente às "lições" retiradas dos pilotos do FAIST, o diretor-executivo menciona o facto de a Inteligência Artificial gerar mais valor quando parte de desafios concretos do negócio. "Osprojetos-pi- loto demonstram que a tecnologia pode resolver problemas reais relacionados com eficiência produtiva, sustentabilidade, gestão de informação ou apoio à decisão. Já experimentamos outros saltos tecnológicos no passado com sucesso. Porventura, este agora será mais acelerado". Paulo Gonçalves admite que gostaria de ver cada vez mais empresas a encarara lA não como um projeto isolado, mas como uma componente integrada da sua estratégia de crescimento e inovação. "A colaboração entre empresas, centros tecnológicos e instituições científicas também tem sido um fator determinante para acelerar resultados".
Para a APICCAPS, a ambição é que, nos próximos anos, a adoção de soluções de IA se torne uma prática corrente na indústria portuguesa do calçado. "Queremos um setor mais digital, mais sustentável, mais produtivo e mais preparado para competir nos mercados internacionais, consolidando Portugal como uma referência europeia e mundial na indústria do calçado de valor acrescentado".
IA já corre nas fábricas portuguesas
OLIFEL (FELGUEIRAS, FUNDADA EM 1988) Desenvolve software de gestão para a indústria. É co-promo- tora do FAIST e está a desenvolver o Visualgest, um motor de planeamento e agendamento com IA, com 5 módulos (Sample Tracking, Macro Planning, Workstation Planning, Gantt Planning e Production Recording). Está envolvida nos pilotos com a Armipex, a ISI e a Carité.
ISI (FUNDADA EM 1997)
Fabricante português especializado em solas injetadas, com cerca de 130 colaboradores. Aposta forte em sustentabilidade (certificação ISO 14001e RCS, politica de "zero waste"). No FAIST, está a usar IA para planeamento e para monitorizar emissões de CO2 por par - a Olrfel é o principal fornecedor tecnológico deste caso. Espera uma redução de 90% no tempo de ciclo de planeamento.
MIND (FUNDADA EM 1997)
Desenvolvedora portuguesa de soluções CAD/CAM e gestão de informação industrial, organizada em três unidades de negócio (incluindo uma unidade de l&D industrial com atividade internacional em mercados como EUA, Suíça, França, Itália, Alemanha, Reino Unido, Brasil, China, Japão e Coreia do Sul). No FAIST, aplica IA em modelação 3D, nesting de corte e fluxos de impressão 3D, visando reduzir o tempo de "concept-to-sample". Reporta casos em que esse tempo caiu de oito semanas para cerca de duas.
Paulo Gonçalves destaca que a indústria portuguesa do calçado quer acelerar a adoção de inteligência artificial para reforçar a produtividade, a sustentabilidade e a competitividade internacional.