Mega-acordo comercial entre a UE e a Índia vai permitir às empresas portuguesas exportar mais, de forma mais simples e barata, para este gigante asiático. A redução de tarifas incentiva o reforço das vendas de máquinas e produtos químicos e cria oportunidades para novas exportações, como o vinho e o azeite.
A União Europeia (UE) e a Índia chegaram esta terça-feira a um acordo comercial histórico, que permitirá a Portugal reforçar as trocas comerciais com o chamado “país dos marajás”. As exportações portuguesas para a Índia ascendem atualmente a mais de 270 milhões de euros, em bens e serviços, sendo expectável um crescimento significativo com a abertura da UE a uma economia em rápido desenvolvimento.
O acordo, assinado em Nova Deli, prevê a eliminação de tarifas sobre mais de 90% das exportações de mercadorias da UE para a Índia, com destaque para maquinaria, produtos farmacêuticos, plásticos, carne de carneiro e borrego, pão e chocolate. Inclui ainda cortes nas tarifas aplicadas ao vinho e a outras bebidas alcoólicas, bem como aos automóveis, além de vantagens adicionais para as empresas europeias na exportação de serviços, nomeadamente em setores-chave como os serviços financeiros e marítimos.
A Comissão Europeia estima que este acordo — que apelidou de “a mãe de todos os acordos” — permita duplicar as exportações dos 27 Estados-Membros para a Índia até 2032, gerando ganhos significativos para vários setores de atividade.
No caso de Portugal, dados do Gabinete de Estratégia e Estudos (GEE), com base em estatísticas do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Banco de Portugal, revelam que, na última década, as exportações para a Índia mais do que duplicaram. Em 2014, Portugal exportava 121,5 milhões de euros em bens e serviços, valor que subiu para 273 milhões de euros em 2024, refletindo o crescimento tanto das exportações de mercadorias como de serviços.
No segmento das mercadorias, as exportações para o mercado indiano aumentaram de cerca de 90 milhões de euros em 2014 para 177,1 milhões de euros em 2024, o valor mais elevado de sempre. Os dados do INE apurados até novembro apontam para um desempenho semelhante em 2025. Entre os principais bens exportados destacam-se o papel e as pastas celulósicas, máquinas e aparelhos, metais comuns, produtos químicos, bem como minerais e minérios.
Com o novo acordo, produtos já exportados, como máquinas e produtos químicos, passarão a beneficiar de isenção tarifária. Outros produtos, como o vinho e o azeite, poderão ganhar maior relevância graças às novas vantagens comerciais.
No setor dos serviços, as exportações nacionais para o mercado indiano aumentaram, na última década, de 31,8 milhões de euros para 95,9 milhões de euros em 2024, com destaque para o turismo. Tal como nas mercadorias, o valor registado em 2024 foi o mais elevado de sempre, mantendo uma trajetória de crescimento contínuo.
Com a entrada em vigor do acordo, as exportações para a Índia poderão ganhar maior peso no comércio externo português. Considerando apenas as trocas de mercadorias, a Índia representa atualmente 0,23% do total das exportações nacionais e ocupa o 42.º lugar entre os principais destinos dos bens portugueses, surgindo à frente de países como a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, com os quais Portugal mantém relações históricas e proximidade linguística.
Importa, contudo, salientar que a balança comercial com a Índia permanece deficitária para Portugal, significando que o país importa mais do que exporta para este mercado. Em 2024, o saldo da balança comercial de bens e serviços foi negativo em 764,6 milhões de euros. Ainda assim, este foi o segundo ano consecutivo de melhoria do saldo comercial, após o pico registado em 2022, quando as importações superaram as exportações em 894,2 milhões de euros.
Entre os principais produtos importados da Índia destacam-se os têxteis, máquinas e aparelhos, metais comuns, produtos químicos, plástico e borracha. As importações provenientes deste mercado representam cerca de 1% do total das importações portuguesas, colocando a Índia como o 16.º maior fornecedor nacional.
Na última década, aumentou também o número de empresas portuguesas a exportar para a Índia. Segundo o INE, em 2024 existiam 743 empresas portuguesas exportadoras para aquele mercado, enquanto 3.216 empresas nacionais importavam bens e serviços da Índia.