À medida que a IA reduz os cargos de nível inicial e intermédio, os especialistas defendem uma força de trabalho em formato de pentágono — que preserve o julgamento humano, o desenvolvimento e a adaptabilidade, em vez de esvaziar a organização, revela o Allwork.
Durante décadas, as empresas apoiaram-se na pirâmide tradicional: uma ampla base de colaboradores juniores, uma camada mais enxuta de gestores intermédios e um grupo focado de líderes no topo. Mas agora, a IA está a acelerar a tendência para hierarquias mais horizontais e a redesenhar os organogramas. Em alguns casos, está a invertê-los.
Duas mudanças significativas estão a impulsionar esta transformação: o rápido declínio dos cargos de início de carreira e a redução da gestão intermédia.
Em conjunto, estas tendências levantam uma questão crucial para o futuro do trabalho: o que acontece quando a IA assume as tarefas, mas as empresas removem precisamente as camadas que garantiam a adaptabilidade a longo prazo?
Menos oportunidades para talentos em início de carreira
Em todos os sectores, as contratações para cargos de nível inicial estão a ser reduzidas, uma tendência que pareceria improvável até há pouco tempo. Os dados do LinkedIn indicam uma queda de 30% nas vagas de nível inicial entre o início de 2024 e o início de 2025, após um declínio anterior de 23% desde 2020.
Este padrão está a manifestar-se em sectores tradicionalmente conhecidos por contratarem um grande número de recém-licenciados — finanças, tecnologia, media e direito.
Estas áreas estão entre as mais impactados pela IA generativa. No entanto, as evidências actuais sugerem que as pressões económicas, e não apenas a IA, estão a impulsionar a desaceleração.
Ainda assim, a preocupação está a aumentar. Estima-se que até 50% do trabalho intelectual de nível inicial poderá ser automatizado em cinco anos.
Perante isto, alguns líderes começaram a questionar a própria necessidade de cargos para jovens talentos. Se a IA consegue resumir relatórios, limpar conjuntos de dados, responder a perguntas de clientes e escrever rascunhos iniciais, qual é a vantagem de contratar colaboradores juniores?
Numa perspectiva de curto prazo, focada na eficiência, isto pode parecer prático. Mas, numa visão mais abrangente, é um erro de cálculo. Os cargos de nível inicial servem de base para os futuros líderes. São essenciais para construir conhecimento institucional, desenvolver o discernimento e manter um fluxo saudável de talentos.
Reduzir esta base limita a capacidade de uma organização crescer e evoluir. Quando a eficiência se torna a única métrica, as empresas correm o risco de comprometer a sua resiliência a longo prazo.
A saída silenciosa dos gestores intermédios
Ao mesmo tempo, outra camada crítica está a erodir-se: a gestão intermédia. Com o aumento da capacidade da IA, tornou-se comum questionar se os gestores ainda são necessários.
A Revelio Labs reporta uma queda de 40% nas vagas de gestão intermédia desde 2022. A Gartner prevê que, até 2026, 20% das empresas utilizem a IA para achatar as suas hierarquias, cortando mais de metade dos seus cargos de nível médio. Esta abordagem já não se limita a Silicon Valley — bancos, retalhistas e consultoras estão a emagrecer as suas estruturas para reduzir custos e agilizar a tomada de decisões.
Mas assumir que os gestores são irrelevantes é uma conclusão errada. O relatório Global Human Capital Trends 2025 da Deloitte destaca que, mesmo com a automatização das tarefas administrativas, os gestores ainda orientam, desenvolvem pessoas, resolvem conflitos, tomam decisões e traduzem a estratégia em acção. Trazem clareza no meio da incerteza e promovem a coesão em tempos de mudança. Por outras palavras, são vitais para lidar com a ambiguidade e liderar no meio da disrupção.
Em ambientes impulsionados pela IA, estas competências centradas no ser humano tornam-se ainda mais essenciais. A gestão intermédia é onde as estratégias ganham forma, onde as equipas aprendem a trabalhar em conjunto e onde são definidos novos papéis e processos. A IA pode lidar com tarefas rotineiras, mas não pode substituir a intuição humana, a mediação de conflitos ou a tomada de decisões que dependem do contexto.
Quando as empresas eliminam os cargos de nível júnior e os de gestão intermédia, correm o risco de construir estruturas frágeis que sucumbem sob pressão. A IA pode redefinir o trabalho, mas ainda são as pessoas que adaptam os papéis e conduzem a transformação.
Construir uma força de trabalho capaz de resistir à mudança
Em vez de deixarem a IA esvaziar as suas organizações, as empresas devem repensar a sua arquitectura.
O estudo “Inside the Human–Machine Economy” de Beamery propõe um novo modelo: uma força de trabalho em forma de pentágono, concebida para ser mais estável e adaptável do que a pirâmide tradicional.
Nesta estrutura, três camadas principais suportam um sistema mais resiliente: uma base sólida de profissionais em início de carreira a adquirir o contexto que a IA não consegue replicar; uma camada intermédia robusta que impulsiona a execução, a colaboração e o crescimento; e um topo mais preciso e focado, tomando decisões estratégicas.
Este modelo evita as fragilidades de uma hierarquia horizontal.
A IA pode, de facto, forçar a necessidade de novas estruturas organizacionais. Ou pode alterar a natureza do trabalho em cada camada existente. Independentemente do resultado, redesenhar o trabalho não deve ser um exercício de cima para baixo.
As melhores ideias vêm daqueles que estão mais próximos do trabalho — pessoas que sabem onde o julgamento humano, as nuances e a inteligência emocional são mais importantes. Só as pessoas podem definir o que realmente importa, como se cria valor e o que faz com que um ambiente de trabalho prospere verdadeiramente no futuro.