Ao longo do ano, concertos, peças de teatro, espetáculos de dança e exposições vão encher os palcos, as igrejas, as galerias e os museus de Ponta Delgada. A programação, dedicada ao tema O Lugar do Amanhã, promove o contacto com as tradições, os costumes e a arte contemporânea da cidade açoriana
Com cerca de SOO vulcões, 35 lagoas e 27 geossítios, São Miguel, nos Açores, é conhecida por muitos como a "ilha verde". E não é por acaso - a Natureza ali é fértil em inúmeros tons de verde, sempre surpreendentes a cada visita. Mas a maior ilha do arquipélago tem outros bilhetes-postais, como as suas praias de areia negra, as nascentes de águas quentes termais e os trilhos pedestres.
Há 39 mil a 50 mil anos, no lugar de São Miguel existiam duas ilhas: a oeste, Lagoa das Sete Cidades, a este, Lagoa do Fogo, Nordeste, Povoação e Furnas. A zona central que as uniu deu origem a Ponta Delgada, uma parte mais plana e estreita da ilha. Foi na Povoação que, em 1439, desembarcaram os primeiros flamengos da Flandres, franceses, alentejanos, algarvios e madeirenses. No século XVI, já toda a ilha estava povoada.
Só durante o século XX as estradas aproximaram os micaelenses de tantos lugares até então também por eles desconhecidos ou por explorar.
Iniciativas como a Capital Portuguesa da Cultura (CPC), a decorrer ao longo deste ano, são agora um convite para todos os portugueses (re)descobrirem uma cidade no meio do Atlântico, que só em meados do século passado fez as pazes com o mar, com a construção das avenidas marginais.
Como explica Bernardo Rodrigues, arquiteto micaelense com atelier no Porto e curador da área de Arquitetura e Arte Urbana da CPC, à VISÃO Se7e, os Açores eram virados contra o mar. Era dali que vinham as tempestades e os piratas, o perigo. As casas construíam-se contra o mar, nos montes, e as ruas principais funcionavam como barreira protetora. Ponta Delgada nasce em volta de uma série de conventos, as cercas conventuais que mais não eram do que uma espécie de minivaticanos ou minicidades-estado em que não se podia entrar, com as suas próprias hortas e quintas protegidas pelas freiras.
Na próxima visita à ilha, acerte-se o passo entre ruas estreitas, praças pitorescas e uma grande marginal a acompanhar o mar. Visitem-se igrejas, capelas e conventos, indo a banhos nas piscinas naturais urbanas. A gastronomia prima pela exclusividade do chá, do ananás, do maracujá, do inhame, das lapas e de vacas felizes que dão queijo, leite, manteiga, iogurtes, gelados e carne muito macia. A proximidade ao aeroporto faz da principal cidade, São Miguel, o destino certo para começar ou acabar a viagem.
Depois de Aveiro, em 2024, e de Braga, em 2025, é a vez de Ponta Delgada estimular a criação cultural própria, envolvendo a comunidade e recebendo mais artes a nível nacional e internacional. Até ao final de 2026, está planeada uma programação assente no mote O Lugar do Amanhã.
Ao promover a diversidade cultural, através da colaboração e do intercâmbio criativo, a CPC é o pretexto para alavancar um motor de desenvolvimento urbano e regional, com ênfase no Turismo de Cultura, ao mesmo tempo assente na sustentabilidade porque o Turismo de Natureza domina o território.
LEMBRAR NATÁLIA CORREIA
Várias personalidades ligadas à ilha ou ao arquipélago foram convidadas para ser curadores das diferentes áreas temáticas da programação: Katia Guerreiro, Isabel Worm e Tiago Curado, na Música; Lúcia Moniz e Paulo Quedas, no Teatro; Luís Filipe Borges, no Cinema e Audiovisual; Maria João Gouveia, na Dança e Artes Inclusivas; José Maçãs de Carvalho, nas Artes Visuais; Paulo Ferreira, na Literatura, António Cavaco, na Gastronomia; Bernardo Rodrigues, na Arquitetura e Arte Urbana; o Museu Carlos Machado (1876), na Etnografia e Antropologia; e Susana Goulart da Costa, na Religiosidade.
A homenagem a uma ilustre intelectual, nascida na Fajã de Baixo em Ponta Delgada, marcou o arranque, na semana passada, da CPC. O espetáculo Deixa Passar a Vida, com direção artística de António Pedro Lopes, inspirado no poema Ode à Paz, publicado em Inéditos (1985/1990), de Natália Correia (1923- 1993), subiu ao palco do Coliseu Micaelense.
Na Rua de Lisboa, a maior sala de espetáculos da Região Autónoma dos Açores, que começou por se chamar Coliseu Avenida, caminha para o seu 110s aniversário em 2027. Nos anos 1980, foi perdendo o fulgor cultural - apenas recebia os tradicionais bailes de Carnaval - até encerrar e ficar ao abandono. A sua recuperação, a cargo da autarquia, devolveu em 2005 o Coliseu aos micaelenses.
As salas de espetáculos, os teatros e auditórios, as igrejas e os conventos, as galerias e os museus que irão receber as iniciativas durante os próximos meses são por si só uma forma de conhecer Ponta Delgada e os seus costumes, tradições e expressões artísticas contemporâneas.
Em março, o Parque Urbano de Ponta Delgada, a maior zona verde do concelho, com cerca de 30 hectares, será morada fixa da escultura de Cristina Ataíde concebida para homenagear os produtores de leite açorianos, "uma obra que nasce da terra e fala sobre ela, sobre quem a trabalha e sobre o equilíbrio entre Natureza e Humanidade".
A proposta da artista foi destacada pelo júri, composto por representantes da CPC, do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas da Ribeira Grande e da empresa Bel Portugal.
Pelo Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas irão também passar várias «intervenções das Artes Visuais. Projetado por Menos é Mais Arquitectos + João Mendes Ribeiro, abriu há 11 anos, com mais de nove mil metros quadrados, dando vida a uma antiga fábrica de álcool e tabaco. Manteve o carácter industrial do conjunto arquitetónico e deu lugar a novas construções, sem exagerar na diferença entre o antes e o depois. O antigo diretor do Teatro Micaelense, Alexandre Pascoal, dirige o Arquipélago desde setembro, com a missão de democratizar o acesso ao centro de artes da Ribeira Grande.
HABITAR, VESTIR E COMER
Além dos concertos, das performances de dança, das peças de teatro, das exposições e das oficinas (ver caixa), o programa Placenta Insularis, a cargo de Bernardo Rodrigues, irá focar-se nas bases primordiais que permitiram a autossubsistência no arquipélago.
O objetivo é fazer um estudo do que foi e é preciso para sobreviver nos Açores ao longo dos tempos. Como disse o professor Agostinho da Silva, "cultura é, antes de mais, comer direito, vestir decente, habitar seguro".
Assim, em cada trimestre será abordado um tema, começando, em março, por Habitar a Natureza - A Nuvem, a Lava, o Vento. Nos dias 27 e 28 de março, haverá visitas a estufas de ananases, moinhos de água e vento e quintas de laranja com mirantes e "lagartos" (sistemas de muros feitos de pedra basalto), para melhor se compreender o sistema agrogeográfico e também sociológico, através da paisagem.
No último fim de semana de junho, dias 26 e 27, Vestir a Natureza - A Vagem, o Tecido, a Cor dá o mote para as visitas a antigas fábricas de tecelagem e tinturaria, para perceber como historicamente o uso de materiais naturais - como sobras de fibra de ananás e de banana, fingimentos naturais com restos de laranjas, bactérias, uso de terra do court de ténis de Roland Garros -, combinado com técnicas ancestrais e artesanais pode ser transferido para o presente através da inovação tecnológica, tornando a indústria de vestuário menos poluente.
Por fim, a 25 e 26 de setembro, foco em Alimento e Natureza - O Bago, o Bolbo, a Pe'tola, com a curadoria do gastrónomo António Cavaco. Ao visitar quintas de produção biológica e locais de plantio novo, será mais fácil perceber de que forma a matéria vegetal ancestral foi usada ao longo da História, podendo hoje ser a base de uma alimentação mais saudável.
Alimentos como ananás, batata-doce, goiaba, inhame, beterraba, labaças, beldroegas, algas, entre outros, serão os protagonistas de shouicookings no Mercado da Graça (1848), de volta à Praça Central, depois de obras de requalificação. O programa Pela Boca e Pelos Olhos fará a ligação da gastronomia às artes plásticas, com ementas artísticas em estufas de ananases, por exemplo, entre outras atividades.
Os jantares literários - um em cada uma das 24 freguesias de Ponta Delgada, com a participação dos restaurantes mais emblemáticos de cada zona - serão o veículo para ser feito o levantamento histórico, cultural e culinário que resultará num roteiro gastronómico.
Em maio, de 29 a 31, as principais confrarias gastronómicas do País reúnem-se em Ponta Delgada para assinalar o Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, sempre no último domingo de maio.
Ainda com as datas por definir, está previsto um almoço preparado numa cozinha comunitária, em que um caldo vegetal será servido no porto de pesca de Rabo de Peixe, além de sabores da horta e mel, com a presença de pescadores, agricultores e apicultores; um jantar volante de época acontecerá num convento de Lagoa; um brunch-caminhada na serra da Tronqueira, recém-classificada Zona Especial de Conservação, será a forma ideal para saber mais sobre o habitat do priolo {Pyrrhula murina), pássaro autóctone dos Açores, e um dos núcleos mais importantes de vegetação nativa, com destaque para a Floresta Laurissilva (urze, uva-da-serra, cedro-do-mato, louro).
A ação de Arte Urbana, planeada por Bernardo Rodrigues, autor da Casa do Voo dos Pássaros (2010), moradia particular em Rabo de Peixe, e da Capela da Luz Eterna (2018), em Ponta Garça, Vila Franca do Campo, nomeada para o Prémio Mies van der Rohe, conta com a parceria do Museu Carlos Machado (professor e naturalista). O mais antigo museu do arquipélago abriu ao público em 1880 nas instalações do então Liceu Nacional de Ponta Delgada, apresentando coleções de zoologia, botânica, geologia e mineralogia, hoje consideradas históricas.
O Quarteirão, comunidade de ateliers do Bairro de Artes, situado entre a zona do Largo do Colégio e a Rua Machado dos Santos, foi desafiado a desenvolver trabalhos disruptivos, demonstrativos das suas técnicas, mas que não deixem marca permanente, porque o território é muito frágil, muito sensível. Sejamos também nós sensíveis às tradições, aos costumes e às artes contemporâneas da ilha açoriana, neste ano em que arte e território andarão de mãos dadas.
Com cerca de SOO vulcões, 35 lagoas e 27 geossítios, São Miguel, nos Açores, é conhecida por muitos como a "ilha verde". E não é por acaso - a Natureza ali é fértil em inúmeros tons de verde, sempre surpreendentes a cada visita. Mas a maior ilha do arquipélago tem outros bilhetes-postais, como as suas praias de areia negra, as nascentes de águas quentes termais e os trilhos pedestres.
Há 39 mil a 50 mil anos, no lugar de São Miguel existiam duas ilhas: a oeste, Lagoa das Sete Cidades, a este, Lagoa do Fogo, Nordeste, Povoação e Furnas. A zona central que as uniu deu origem a Ponta Delgada, uma parte mais plana e estreita da ilha. Foi na Povoação que, em 1439, desembarcaram os primeiros flamengos da Flandres, franceses, alentejanos, algarvios e madeirenses. No século XVI, já toda a ilha estava povoada.
Só durante o século XX as estradas aproximaram os micaelenses de tantos lugares até então também por eles desconhecidos ou por explorar.
Iniciativas como a Capital Portuguesa da Cultura (CPC), a decorrer ao longo deste ano, são agora um convite para todos os portugueses (re)descobrirem uma cidade no meio do Atlântico, que só em meados do século passado fez as pazes com o mar, com a construção das avenidas marginais.
Como explica Bernardo Rodrigues, arquiteto micaelense com atelier no Porto e curador da área de Arquitetura e Arte Urbana da CPC, à VISÃO Se7e, os Açores eram virados contra o mar. Era dali que vinham as tempestades e os piratas, o perigo. As casas construíam-se contra o mar, nos montes, e as ruas principais funcionavam como barreira protetora. Ponta Delgada nasce em volta de uma série de conventos, as cercas conventuais que mais não eram do que uma espécie de minivaticanos ou minicidades-estado em que não se podia entrar, com as suas próprias hortas e quintas protegidas pelas freiras.
Na próxima visita à ilha, acerte-se o passo entre ruas estreitas, praças pitorescas e uma grande marginal a acompanhar o mar. Visitem-se igrejas, capelas e conventos, indo a banhos nas piscinas naturais urbanas. A gastronomia prima pela exclusividade do chá, do ananás, do maracujá, do inhame, das lapas e de vacas felizes que dão queijo, leite, manteiga, iogurtes, gelados e carne muito macia. A proximidade ao aeroporto faz da principal cidade, São Miguel, o destino certo para começar ou acabar a viagem.
Depois de Aveiro, em 2024, e de Braga, em 2025, é a vez de Ponta Delgada estimular a criação cultural própria, envolvendo a comunidade e recebendo mais artes a nível nacional e internacional. Até ao final de 2026, está planeada uma programação assente no mote O Lugar do Amanhã.
Ao promover a diversidade cultural, através da colaboração e do intercâmbio criativo, a CPC é o pretexto para alavancar um motor de desenvolvimento urbano e regional, com ênfase no Turismo de Cultura, ao mesmo tempo assente na sustentabilidade porque o Turismo de Natureza domina o território.
LEMBRAR NATÁLIA CORREIA
Várias personalidades ligadas à ilha ou ao arquipélago foram convidadas para ser curadores das diferentes áreas temáticas da programação: Katia Guerreiro, Isabel Worm e Tiago Curado, na Música; Lúcia Moniz e Paulo Quedas, no Teatro; Luís Filipe Borges, no Cinema e Audiovisual; Maria João Gouveia, na Dança e Artes Inclusivas; José Maçãs de Carvalho, nas Artes Visuais; Paulo Ferreira, na Literatura, António Cavaco, na Gastronomia; Bernardo Rodrigues, na Arquitetura e Arte Urbana; o Museu Carlos Machado (1876), na Etnografia e Antropologia; e Susana Goulart da Costa, na Religiosidade.
A homenagem a uma ilustre intelectual, nascida na Fajã de Baixo em Ponta Delgada, marcou o arranque, na semana passada, da CPC. O espetáculo Deixa Passar a Vida, com direção artística de António Pedro Lopes, inspirado no poema Ode à Paz, publicado em Inéditos (1985/1990), de Natália Correia (1923- 1993), subiu ao palco do Coliseu Micaelense.
Na Rua de Lisboa, a maior sala de espetáculos da Região Autónoma dos Açores, que começou por se chamar Coliseu Avenida, caminha para o seu 110s aniversário em 2027. Nos anos 1980, foi perdendo o fulgor cultural - apenas recebia os tradicionais bailes de Carnaval - até encerrar e ficar ao abandono. A sua recuperação, a cargo da autarquia, devolveu em 2005 o Coliseu aos micaelenses.
As salas de espetáculos, os teatros e auditórios, as igrejas e os conventos, as galerias e os museus que irão receber as iniciativas durante os próximos meses são por si só uma forma de conhecer Ponta Delgada e os seus costumes, tradições e expressões artísticas contemporâneas.
Em março, o Parque Urbano de Ponta Delgada, a maior zona verde do concelho, com cerca de 30 hectares, será morada fixa da escultura de Cristina Ataíde concebida para homenagear os produtores de leite açorianos, "uma obra que nasce da terra e fala sobre ela, sobre quem a trabalha e sobre o equilíbrio entre Natureza e Humanidade".
A proposta da artista foi destacada pelo júri, composto por representantes da CPC, do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas da Ribeira Grande e da empresa Bel Portugal.
Pelo Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas irão também passar várias «intervenções das Artes Visuais. Projetado por Menos é Mais Arquitectos + João Mendes Ribeiro, abriu há 11 anos, com mais de nove mil metros quadrados, dando vida a uma antiga fábrica de álcool e tabaco. Manteve o carácter industrial do conjunto arquitetónico e deu lugar a novas construções, sem exagerar na diferença entre o antes e o depois. O antigo diretor do Teatro Micaelense, Alexandre Pascoal, dirige o Arquipélago desde setembro, com a missão de democratizar o acesso ao centro de artes da Ribeira Grande.
HABITAR, VESTIR E COMER
Além dos concertos, das performances de dança, das peças de teatro, das exposições e das oficinas (ver caixa), o programa Placenta Insularis, a cargo de Bernardo Rodrigues, irá focar-se nas bases primordiais que permitiram a autossubsistência no arquipélago.
O objetivo é fazer um estudo do que foi e é preciso para sobreviver nos Açores ao longo dos tempos. Como disse o professor Agostinho da Silva, "cultura é, antes de mais, comer direito, vestir decente, habitar seguro".
Assim, em cada trimestre será abordado um tema, começando, em março, por Habitar a Natureza - A Nuvem, a Lava, o Vento. Nos dias 27 e 28 de março, haverá visitas a estufas de ananases, moinhos de água e vento e quintas de laranja com mirantes e "lagartos" (sistemas de muros feitos de pedra basalto), para melhor se compreender o sistema agrogeográfico e também sociológico, através da paisagem.
No último fim de semana de junho, dias 26 e 27, Vestir a Natureza - A Vagem, o Tecido, a Cor dá o mote para as visitas a antigas fábricas de tecelagem e tinturaria, para perceber como historicamente o uso de materiais naturais - como sobras de fibra de ananás e de banana, fingimentos naturais com restos de laranjas, bactérias, uso de terra do court de ténis de Roland Garros -, combinado com técnicas ancestrais e artesanais pode ser transferido para o presente através da inovação tecnológica, tornando a indústria de vestuário menos poluente.
Por fim, a 25 e 26 de setembro, foco em Alimento e Natureza - O Bago, o Bolbo, a Pe'tola, com a curadoria do gastrónomo António Cavaco. Ao visitar quintas de produção biológica e locais de plantio novo, será mais fácil perceber de que forma a matéria vegetal ancestral foi usada ao longo da História, podendo hoje ser a base de uma alimentação mais saudável.
Alimentos como ananás, batata-doce, goiaba, inhame, beterraba, labaças, beldroegas, algas, entre outros, serão os protagonistas de shouicookings no Mercado da Graça (1848), de volta à Praça Central, depois de obras de requalificação. O programa Pela Boca e Pelos Olhos fará a ligação da gastronomia às artes plásticas, com ementas artísticas em estufas de ananases, por exemplo, entre outras atividades.
Os jantares literários - um em cada uma das 24 freguesias de Ponta Delgada, com a participação dos restaurantes mais emblemáticos de cada zona - serão o veículo para ser feito o levantamento histórico, cultural e culinário que resultará num roteiro gastronómico.
Em maio, de 29 a 31, as principais confrarias gastronómicas do País reúnem-se em Ponta Delgada para assinalar o Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, sempre no último domingo de maio.
Ainda com as datas por definir, está previsto um almoço preparado numa cozinha comunitária, em que um caldo vegetal será servido no porto de pesca de Rabo de Peixe, além de sabores da horta e mel, com a presença de pescadores, agricultores e apicultores; um jantar volante de época acontecerá num convento de Lagoa; um brunch-caminhada na serra da Tronqueira, recém-classificada Zona Especial de Conservação, será a forma ideal para saber mais sobre o habitat do priolo {Pyrrhula murina), pássaro autóctone dos Açores, e um dos núcleos mais importantes de vegetação nativa, com destaque para a Floresta Laurissilva (urze, uva-da-serra, cedro-do-mato, louro).
A ação de Arte Urbana, planeada por Bernardo Rodrigues, autor da Casa do Voo dos Pássaros (2010), moradia particular em Rabo de Peixe, e da Capela da Luz Eterna (2018), em Ponta Garça, Vila Franca do Campo, nomeada para o Prémio Mies van der Rohe, conta com a parceria do Museu Carlos Machado (professor e naturalista). O mais antigo museu do arquipélago abriu ao público em 1880 nas instalações do então Liceu Nacional de Ponta Delgada, apresentando coleções de zoologia, botânica, geologia e mineralogia, hoje consideradas históricas.
O Quarteirão, comunidade de ateliers do Bairro de Artes, situado entre a zona do Largo do Colégio e a Rua Machado dos Santos, foi desafiado a desenvolver trabalhos disruptivos, demonstrativos das suas técnicas, mas que não deixem marca permanente, porque o território é muito frágil, muito sensível. Sejamos também nós sensíveis às tradições, aos costumes e às artes contemporâneas da ilha açoriana, neste ano em que arte e território andarão de mãos dadas.