Na electricidade, Portugal é o terceiro país da UE com maior quota de renováveis: 82,9% em 2024, contra uma média europeia de 47,3%. Hídrica, eólica e solar cobrem quase toda a produção.
Como a vocação atlântica e lusófona de Portugal se tornou uma vantagem competitiva energética
O Estreito que parou o mundo
A 28 de Fevereiro de 2026, os EUA e Israel lançaram ataques contra o Irão. A resposta de Teerão foi imediata: o fecho do Estreito de Ormuz, por onde circula em tempo de paz cerca de 20% do petróleo mundial. O barril disparou para os 110 dólares e a Agência Internacional de Energia alertou que a Europa tem apenas seis semanas de reservas de jetfuel. O bloqueio naval americano proclama a liberdade de navegação para os demais navios mas as minas iranianas no Estreito, algumas das quais Teerão perdeu o rasto, tornam essa liberdade teórica. Tráfego no Estreito: menos de 10% do normal.
Portugal: protegido, mas não imune Portugal ocupa uma posição estruturalmente privilegiada que resulta de décadas de investimento em renováveis e de uma diversificação atlântica do aprovisionamento energético. No crude, o Brasil assegura 44% das importações, a Argélia 18%, os EUA 11%. No gás natural, a Nigéria fornece 51% e os EUA 40%. Portugal não compra gás ao Qatar há mais de três anos.
A ENSE confirmou que o país dispõe de 93 dias de reservas e que as importações não têm exposição ao Estreito de Ormuz.
Na electricidade, Portugal é o terceiro país da UE com maior quota de renováveis: 82,9% em 2024, contra uma média europeia de 47,3%. Hídrica, eólica e solar cobrem quase toda a produção. Esta vocação atlântica não é acidental é o resultado de escolhas estratégicas e de laços históricos com os PALOP e o Brasil que se revelam hoje de valor incalculável. Angola, Moçambique com as suas reservas da bacia do Rovuma e a Guiné Equatorial, membro da CPLP desde 2014, são parceiros energéticos com quem Portugal tem relações privilegiadas e que estão inteiramente fora da zona de conflito. O aprovisionamento de gás chega por duas vias: o terminal GNL de Sines e dois gasodutos de interligação com Espanha, em Campo Maior e Valença do Minho. Esta redundância de rotas atlântica e mediterrânica é exactamente o que a crise actual demonstra ser indispensável*.
Os calcanhares de Aquiles
Mas o privilégio não é imunidade. O encerramento da refinaria de Matosinhos em Abril de 2021, que tinha uma capacidade de 5,5 milhões de toneladas/ano, reduziu a capacidade de refinação nacional para metade. Com ela operacional, Portugal teria hoje uma redundância industrial de valor estratégico inestimável. A pandemia de covid-19 deveria ter ensinado a lição: a ideia de que "os outros produzem e nós compramos" tem um limite o momento em que as cadeias globais se quebram.
O jet fuel é a vulnerabilidade mais imediata: a Galp/Sines cobre 60-75% das necessidades nacionais, mas os restantes 25 - 40% vinham em 2024 do Golfo Pérsico Kuwait (241 mil toneladas) e Arábia Saudita (47 mil). Com o Estreito fechado, Portugal arrisca esgotar os "stocks" num horizonte de quatro meses, precisamente quando o verão turístico começa O gasóleo cobre apenas um mês de reservas físicas.
Conclusão
Numa Europa onde a Alemanha, a Itália e a Polónia pagam esta guerra na factura da luz, Portugal tem o privilégio raro de poder dizer que o seu modelo energético funcionou. Mas o que verdadeiramente distingue Portugal dos seus parceiros europeus não é apenas a quota de renováveis ou a localização atlântica é algo que nenhum outro país europeu possui: uma comunidade lusófona de 270 milhões de pessoas que inclui alguns dos maiores produtores de petróleo e gás do Atlântico Sul e do Golfo da Guiné. Angola, Brasil, Moçambique, Guiné Equatorial são parceiros energéticos com quem Portugal partilha língua, história e redes diplomáticas consolidadas. Enquanto a Alemanha negocia contratos de emergência com o Qatar e a Itália desespera em encontrar alternativas ao gás russo, Portugal já tem os fornecedores alternativos, e tem-nos há décadas. Esta é a vantagem competitiva que a crise de Ormuz tornou visível: a lusofonia como activo estratégico energético. A lição é clara não repetir o erro de Matosinhos, capitalizar os laços atlânticos e lusófonos, e transformar Portugal no "hub" de GNL atlântico para a Europa que a sua geografia e diplomacia tornaram possível. A resiliência de hoje pode tornar-se a liderança energética de amanhã
*Estes argumentos foram desenvolvidos pelo autor em 2016. Cf. Pavia, J. F. L. Z., "The Maritime Security in the Gulf of Guinea, the Energy Security of Europe and the Potential Role of NATO and Portugal", Universidade Lusíada Editora, ISBN 978-989-640-193-1.
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Macroeconomia
A guerra no Golfo Pérsico e a transição energética de Portugal
Na electricidade, Portugal é o terceiro país da UE com maior quota de renováveis: 82,9% em 2024.
José Francisco Pavia, U. Lusíada, Negócios
23/04/2026
Imprensa Nacional