Estudo do GPEARI revela que o comportamento da economia norte-americana influencia pouco a evolução das exportações portuguesas e permite um regresso à normalidade rapidamente. O mesmo choque na Alemanha tem um impacto maior e, quando no Reino Unido, demora mais tempo a superar.
Sensíveis à conjuntura externa, as exportações portuguesas resistem melhor a choques económicos nos Estados Unidos do que noutros parceiros comerciais. A conclusão é de um estudo do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI) do Ministério das Finanças, que revela que a "sofisticação e agilidade" nas vendas aos norte-americanos permitem um ajuste "mais rápido" em caso de perturbações.
O estudo do GPEARI revela que, apesar de os EUA serem a maior economia mundial e o quarto maior parceiro comercial português - o primeiro excluindo os países europeus -, o impacto de um crescimento ou contração do produto interno bruto (PIB) nor- te-americano é "quase insignificante" paraas exportações portuguesas, quando comparado com o impacto que teria o mesmo choque na Alemanha ou no Reino Unido, que figuram também na lista de principais clientes nacionais - a Alemanha em segundo lugar e o Reino Unido em quinto.
Por exemplo, um aumento de um milhão de euros do PIB norte-americano contribui para um crescimento de aproximadamente 65 euros nas exportações portuguesas. O valor é irrisório comparado com o impacto de 2.300 euros que teria um aumento na mesma proporção no PIB alemão. E esse impacto não se deve ao facto de Portugal exportar para a Alemanha mais do dobro do que vende aos EUA. Um aumento igual no PIB do Reino Unido - para onde Portugal exporta menos do que para os EUA - contribui para ganhos de 980 euros nas exportações.
"O efeito de longo prazo do PIB dos EUA sobre as exportações portuguesas é muito mais fraco do que o da economia do Reino Unido ou da Alemanha", lê-se no estudo, da autoria dos economistas Rui Vigário Rodrigues, Matilde Alvim e Miguel Andrade.
Embora o comportamento da economia dos EUA influencie pouco as exportações, a procura norte-americana por produtos portugueses tende a ajustar-se rapidamente, com "cerca de 46,4% do desequilíbrio a ser corrigido a cada trimestre". Isso faz com que as exportações para o outro lado do Atlântico voltem à sua trajetória "normal" num período de tempo mais curto do que o observado quando o choque acontece na Alemanha ou no Reino Unido.
"Espera-se que a relação [comercial entre os EUA e Portugal] retorne ao equilíbrio em aproximadamente dois trimestres, demonstrando, por isso, o ajuste mais rápido de todos os mercados [analisados]", referem os autores.
Os EUA são, por isso, um parceiro resiliente. As exportações para lá conseguem amortecer bem os choques e recuperam rapidamente a tendência de longo prazo. Tal é atribuído à "relativa sofisticação e agilidade das relações comerciais transatlânticas". Todavia, o estudo não tem em conta o impacto das tarifas, que têm prejudicado as vendas aos EUA.
Os choques no PIB norte-americano têm um impacto imediato nas exportações de alimentos, bebidas e tabaco, bem como de produtos de borracha e plástico, devido à "elevada sensibilidade à procura dos EUA". Já as restantes exportações são impulsionadas por tendências de longo prazo da economia norte-americana.
Choques no PIB britânico são mais persistentes
As exportações portuguesas revelam uma maior sensibilidade às condições económicas da Alemanha, com um choque no mercado alemão a ter um maior impacto nas vendas de mercadorias ao exterior, e a correção pós-choque a demorar mais tempo. O GPEARI estima que a procura alemã corrige, por trimestre, 33,4% do desequilíbrio registado, o que significa que, em média, são precisos três trimestres para que as exportações portuguesas para a Alemanha recuperem a tendência de longo prazo.
As exportações de borracha e plástico têm "uma reação significativa de curto prazo" às variações do PIB alemão. Já os outros setores "reagem de forma mais gradual".
No caso do Reino Unido, o impacto de um choque económico é também "percetível", mas as exportações recuperam de uma forma mais lenta do que nos outros dois parceiros analisados, com uma correção de 17,4% do desvio a cada trimestre. "Nenhum dos setores apresenta reações significativas de curto prazo, em consonância com os ajustamentos de longo prazo das exportações influenciados por fatores estruturais como os ciclos industriais, brexit e a recuperação pós-covid", revela o estudo.
EUA SÃO O QUARTO MAIOR CLIENTE NACIONAL
Peso dos principais parceiros comerciais nas exportações portuguesas de bens, em percentagem
Os Estados Unidos são um importante destino para as exportações portuguesas de bens. Ocupam o quarto lugar na lista de principais clientes nacionais - ficando apenas a Espanha, Alemanha e França - e, excluindo os parceiros comerciais da União Europeia, são o principal cliente fora de portas. Em 2024, o mercado norte-americano recebeu 6,7% das vendas de mercadorias ao exterior, num total de 5,3 mil milhões de euros.
Bens e serviços de alta tecnologia sustentam ganho de quota
Portugal está a ganhar quota no mercado europeu e os produtos mais intensivos em tecnologia e conhecimento explicam tendência.
Portugal tem vindo a ganhar quota de mercado nas exportações para a União Europeia (UE) e, segundo uma análise do Banco de Portugal (BdP), a tendência está a ser impulsionada pelas vendas de bens e serviços de alta tecnologia. Estima-se que, na última década, esse tipo de bens e serviços justificaram mais de 60% do ganho de quota, com destaque para os produtos farmacêuticos e serviços de telecom e informática.
A análise do BdP, incluída no boletim económico de outubro, revela que, entre 2015 e 2024, o crescimento das exportações portuguesas de bens e serviços para a UE superou o aumento das importações, com exceção de 2015 e 2020. Durante esse período, o crescimento acumulado das exportações para a UE - que recebe quais dois terços do total exportado - foi de 81,6%, enquanto o das importações foi de 61,5%, o que correspondeu a um diferencial acumulado de 20,1 pontos percentuais.
Ora, decompondo esse diferencial, verifica-se que o efeito de quota de mercado deu um contributo de 16,8 pontos percentuais para a diferença acumulada no crescimento das exportações face ao das importações ao longo da última década. Ou seja, os exportadores portugueses revelaram uma maior capacidade em se implantarem nos mercados internacionais mais do que os seus concorrentes comerciais.
"Isto significa que o bom desempenho das exportações nos mercados europeus traduziu essencialmente um aumento da competitividade de Portugal", refere o BdP.
Para esse ganho de quota de mercado, contribuíram sobretudo os bens e serviços mais intensivos em tecnologia e conhecimento. O BdP refere que esses "representaram 60,4% do ganho de quota na última década", refletindo, no caso dos ens, o contributo dos produtos farmacêuticos e equipamento de rádio, TV e comunicações e, no caso dos serviços, o contributo dos serviços técnicos, relacionados com o comércio e outros serviços, e dos serviços de telecomunicações, informáticos e de informação.
O bom desempenho das exportações de viagens e turismo no período pré-pandemia deu também um contributo importante para o ganho de quota, de 4,2 pontos percentuais, no turismo e outros serviços, segundo o BdP.
O efeito de quota de mercado no diferencial entre o crescimento das exportações e das importações portuguesas foi particularmente intenso entre 2015 e 2019, de 10,2 pontos percentuais. Já, no período de 2020 a 2024 - marcado pela pandemia da covid-19 e a consequente retoma económica -, esse efeito reduziu-se para 6,7 pontos percentuais.
O banco central sublinha que o desempenho do setor exportador português depende da sua capacidade de "diversificar mercados, apostar em tecnologia e inovação, e consolidar a sua posição em segmentos de maior valor acrescentado".
Sensíveis à conjuntura externa, as exportações portuguesas resistem melhor a choques económicos nos Estados Unidos do que noutros parceiros comerciais. A conclusão é de um estudo do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI) do Ministério das Finanças, que revela que a "sofisticação e agilidade" nas vendas aos norte-americanos permitem um ajuste "mais rápido" em caso de perturbações.
O estudo do GPEARI revela que, apesar de os EUA serem a maior economia mundial e o quarto maior parceiro comercial português - o primeiro excluindo os países europeus -, o impacto de um crescimento ou contração do produto interno bruto (PIB) nor- te-americano é "quase insignificante" paraas exportações portuguesas, quando comparado com o impacto que teria o mesmo choque na Alemanha ou no Reino Unido, que figuram também na lista de principais clientes nacionais - a Alemanha em segundo lugar e o Reino Unido em quinto.
Por exemplo, um aumento de um milhão de euros do PIB norte-americano contribui para um crescimento de aproximadamente 65 euros nas exportações portuguesas. O valor é irrisório comparado com o impacto de 2.300 euros que teria um aumento na mesma proporção no PIB alemão. E esse impacto não se deve ao facto de Portugal exportar para a Alemanha mais do dobro do que vende aos EUA. Um aumento igual no PIB do Reino Unido - para onde Portugal exporta menos do que para os EUA - contribui para ganhos de 980 euros nas exportações.
"O efeito de longo prazo do PIB dos EUA sobre as exportações portuguesas é muito mais fraco do que o da economia do Reino Unido ou da Alemanha", lê-se no estudo, da autoria dos economistas Rui Vigário Rodrigues, Matilde Alvim e Miguel Andrade.
Embora o comportamento da economia dos EUA influencie pouco as exportações, a procura norte-americana por produtos portugueses tende a ajustar-se rapidamente, com "cerca de 46,4% do desequilíbrio a ser corrigido a cada trimestre". Isso faz com que as exportações para o outro lado do Atlântico voltem à sua trajetória "normal" num período de tempo mais curto do que o observado quando o choque acontece na Alemanha ou no Reino Unido.
"Espera-se que a relação [comercial entre os EUA e Portugal] retorne ao equilíbrio em aproximadamente dois trimestres, demonstrando, por isso, o ajuste mais rápido de todos os mercados [analisados]", referem os autores.
Os EUA são, por isso, um parceiro resiliente. As exportações para lá conseguem amortecer bem os choques e recuperam rapidamente a tendência de longo prazo. Tal é atribuído à "relativa sofisticação e agilidade das relações comerciais transatlânticas". Todavia, o estudo não tem em conta o impacto das tarifas, que têm prejudicado as vendas aos EUA.
Os choques no PIB norte-americano têm um impacto imediato nas exportações de alimentos, bebidas e tabaco, bem como de produtos de borracha e plástico, devido à "elevada sensibilidade à procura dos EUA". Já as restantes exportações são impulsionadas por tendências de longo prazo da economia norte-americana.
Choques no PIB britânico são mais persistentes
As exportações portuguesas revelam uma maior sensibilidade às condições económicas da Alemanha, com um choque no mercado alemão a ter um maior impacto nas vendas de mercadorias ao exterior, e a correção pós-choque a demorar mais tempo. O GPEARI estima que a procura alemã corrige, por trimestre, 33,4% do desequilíbrio registado, o que significa que, em média, são precisos três trimestres para que as exportações portuguesas para a Alemanha recuperem a tendência de longo prazo.
As exportações de borracha e plástico têm "uma reação significativa de curto prazo" às variações do PIB alemão. Já os outros setores "reagem de forma mais gradual".
No caso do Reino Unido, o impacto de um choque económico é também "percetível", mas as exportações recuperam de uma forma mais lenta do que nos outros dois parceiros analisados, com uma correção de 17,4% do desvio a cada trimestre. "Nenhum dos setores apresenta reações significativas de curto prazo, em consonância com os ajustamentos de longo prazo das exportações influenciados por fatores estruturais como os ciclos industriais, brexit e a recuperação pós-covid", revela o estudo.
EUA SÃO O QUARTO MAIOR CLIENTE NACIONAL
Peso dos principais parceiros comerciais nas exportações portuguesas de bens, em percentagem
Os Estados Unidos são um importante destino para as exportações portuguesas de bens. Ocupam o quarto lugar na lista de principais clientes nacionais - ficando apenas a Espanha, Alemanha e França - e, excluindo os parceiros comerciais da União Europeia, são o principal cliente fora de portas. Em 2024, o mercado norte-americano recebeu 6,7% das vendas de mercadorias ao exterior, num total de 5,3 mil milhões de euros.
Bens e serviços de alta tecnologia sustentam ganho de quota
Portugal está a ganhar quota no mercado europeu e os produtos mais intensivos em tecnologia e conhecimento explicam tendência.
Portugal tem vindo a ganhar quota de mercado nas exportações para a União Europeia (UE) e, segundo uma análise do Banco de Portugal (BdP), a tendência está a ser impulsionada pelas vendas de bens e serviços de alta tecnologia. Estima-se que, na última década, esse tipo de bens e serviços justificaram mais de 60% do ganho de quota, com destaque para os produtos farmacêuticos e serviços de telecom e informática.
A análise do BdP, incluída no boletim económico de outubro, revela que, entre 2015 e 2024, o crescimento das exportações portuguesas de bens e serviços para a UE superou o aumento das importações, com exceção de 2015 e 2020. Durante esse período, o crescimento acumulado das exportações para a UE - que recebe quais dois terços do total exportado - foi de 81,6%, enquanto o das importações foi de 61,5%, o que correspondeu a um diferencial acumulado de 20,1 pontos percentuais.
Ora, decompondo esse diferencial, verifica-se que o efeito de quota de mercado deu um contributo de 16,8 pontos percentuais para a diferença acumulada no crescimento das exportações face ao das importações ao longo da última década. Ou seja, os exportadores portugueses revelaram uma maior capacidade em se implantarem nos mercados internacionais mais do que os seus concorrentes comerciais.
"Isto significa que o bom desempenho das exportações nos mercados europeus traduziu essencialmente um aumento da competitividade de Portugal", refere o BdP.
Para esse ganho de quota de mercado, contribuíram sobretudo os bens e serviços mais intensivos em tecnologia e conhecimento. O BdP refere que esses "representaram 60,4% do ganho de quota na última década", refletindo, no caso dos ens, o contributo dos produtos farmacêuticos e equipamento de rádio, TV e comunicações e, no caso dos serviços, o contributo dos serviços técnicos, relacionados com o comércio e outros serviços, e dos serviços de telecomunicações, informáticos e de informação.
O bom desempenho das exportações de viagens e turismo no período pré-pandemia deu também um contributo importante para o ganho de quota, de 4,2 pontos percentuais, no turismo e outros serviços, segundo o BdP.
O efeito de quota de mercado no diferencial entre o crescimento das exportações e das importações portuguesas foi particularmente intenso entre 2015 e 2019, de 10,2 pontos percentuais. Já, no período de 2020 a 2024 - marcado pela pandemia da covid-19 e a consequente retoma económica -, esse efeito reduziu-se para 6,7 pontos percentuais.
O banco central sublinha que o desempenho do setor exportador português depende da sua capacidade de "diversificar mercados, apostar em tecnologia e inovação, e consolidar a sua posição em segmentos de maior valor acrescentado".