Estão a ser as famílias a suportar, em níveis recorde, a "economia do ano" para a revista britânica The Economist, com riscos para as contas externas. Tendência deve manter-se pelo menos no próximo ano.
Portugal foi eleito a "economia do ano" pela revista The Economist. Mas como é que chegámos até aqui? Puxados pelo consumo privado, com as famílias a suportarem o crescimento em níveis recorde. "Doce como um pastel de nata", como disse a revista?
A escolha da Economist, conhecida há cerca de uma semana, foi muito elogiada pelo Governo e considerado um reconhecimento positivo também por economistas. No entanto, houve também quem pusesse água na fervura. É que a escolha da revista britânica assenta na comparação do desempenho de 36 economias avançadas com base em cinco indicadores, que dão uma visão conjuntural - e limitada - do que se passa no país.
Na análise foram considerados o crescimento homólogo do PIB no terceiro trimestre, o aumento homólogo do emprego (variação mais recente), a inflação subjacente em outubro, a amplitude da inflação (variação na proporção de produtos com subidas de preços acima 2%) e valorização bolsista. A revista não explica como pondera cada um dos indicadores.
O ritmo de crescimento do PIB é um dos indicadores onde Portugal se destaca. No terceiro trimestre, a economia avançou 2,4% em termos homólogos, acima da média europeia e também da maioria dos pai ses da lista da Economist.
O que explica este crescimento? Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o consumo das famílias contribuiu com 2,5 pontos percentuais (105%) para o crescimento. Confuso? A soma de todas as outras componentes do PIB - investimento, consumo público e procura externa - é negativo, diminuindo o crescimento. Ou seja, o que o PIB cresceu, deveu-o ao consumo das famílias.
Além disso, há cinco trimestres consecutivos que o contributo do consumo privado para o PIB é superior ao próprio crescimento económico. É o ciclo mais longo de apoio à economia das famílias de sempre na série do INE, que recua ao ano 2000. Antes deste ciclo, é preciso retroceder a 2014, quando a economia recuperava do ajustamento, para encontrar um novo período em que isso aconteceu (embora inferior na duração).
Impacto nas contas externas
Mas ao contrário do que escreveu a Economist, um crescimento assente em consumo privado pode não ser "doce como um pastel de nata". Já em setembro, a presidente do Conselho das Finanças Públicas (CFP) tinha alertado para os riscos associados a este modelo de crescimento económico. "Tem um risco de aumento de importações, tem um risco de podermos começar a agravar as nossas contas externas", disse Nazaré Costa Cabral na altura. E acrescentou: "É importante que o modelo de crescimento da economia portuguesa continue a ser um modelo fundamentalmente assente na nossa capacidade exportadora, na capacidade de sermos competitivos".
Numa análise à economia portuguesa publicada esta semana, também a economista-chefe do BPI, Paula Carvalho, afirma que "foram detetadas vulnerabilidades nas contas externas" da "economia do ano".
Abalança corrente, que espelha o saldo entre os pagamentos e recebimentos ao exterior, deteriorou-se significativamente ao longo de 2025, tendo piorado o seu saldo em cerca de 2 mil milhões de euros (equivalente a 0,7% do PIB) nos primeiros nove meses do ano em termos homólogos, apontou.
Tendência que veio para ficar?
Ora, a expectativa do Governo, do CFP e da Comissão Europeia é que deverá continuar a ser a procura interna (consumo privado, público e investimento) a puxar pelo PIB, com o contributo a ser superior ao próprio crescimento da economia não só este ano, como no próximo. Aliás, Bruxelas diz mesmo que a procura interna continuará a contribuir mais para o PIB do que o próprio crescimento da economia até 2027, já que a procura externa líquida continuará a ser negativa.
No entanto, no próximo ano antecipa-se um maior contributo do investimento para o PIB, à boleia dos fundos europeus do Plano de Recuperação e Resiliência. Resta saber o que acontecerá a partir de 2027, quando, depois dos fundos da bazuca europeia, se prevê que o investimento caia a pique. Aliás, o Banco de Portugal diz que o contributo do investimento para o PIB será nulo (de 0%), esperando que fique quase estagnado esse ano. Já o CFP vê o investimento a recuar 1,1% em 2027.
Outro ponto em que estas entidades concordam é que a frente externa será cada vez menos negativa, com as exportações a acelerarem e as importações a abrandarem nos próximos dois anos. A expectativa é que nafren- te comercial e das tensões geopolíticas haja melhorias.
Portugal foi eleito a "economia do ano" pela revista The Economist. Mas como é que chegámos até aqui? Puxados pelo consumo privado, com as famílias a suportarem o crescimento em níveis recorde. "Doce como um pastel de nata", como disse a revista?
A escolha da Economist, conhecida há cerca de uma semana, foi muito elogiada pelo Governo e considerado um reconhecimento positivo também por economistas. No entanto, houve também quem pusesse água na fervura. É que a escolha da revista britânica assenta na comparação do desempenho de 36 economias avançadas com base em cinco indicadores, que dão uma visão conjuntural - e limitada - do que se passa no país.
Na análise foram considerados o crescimento homólogo do PIB no terceiro trimestre, o aumento homólogo do emprego (variação mais recente), a inflação subjacente em outubro, a amplitude da inflação (variação na proporção de produtos com subidas de preços acima 2%) e valorização bolsista. A revista não explica como pondera cada um dos indicadores.
O ritmo de crescimento do PIB é um dos indicadores onde Portugal se destaca. No terceiro trimestre, a economia avançou 2,4% em termos homólogos, acima da média europeia e também da maioria dos pai ses da lista da Economist.
O que explica este crescimento? Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o consumo das famílias contribuiu com 2,5 pontos percentuais (105%) para o crescimento. Confuso? A soma de todas as outras componentes do PIB - investimento, consumo público e procura externa - é negativo, diminuindo o crescimento. Ou seja, o que o PIB cresceu, deveu-o ao consumo das famílias.
Além disso, há cinco trimestres consecutivos que o contributo do consumo privado para o PIB é superior ao próprio crescimento económico. É o ciclo mais longo de apoio à economia das famílias de sempre na série do INE, que recua ao ano 2000. Antes deste ciclo, é preciso retroceder a 2014, quando a economia recuperava do ajustamento, para encontrar um novo período em que isso aconteceu (embora inferior na duração).
Impacto nas contas externas
Mas ao contrário do que escreveu a Economist, um crescimento assente em consumo privado pode não ser "doce como um pastel de nata". Já em setembro, a presidente do Conselho das Finanças Públicas (CFP) tinha alertado para os riscos associados a este modelo de crescimento económico. "Tem um risco de aumento de importações, tem um risco de podermos começar a agravar as nossas contas externas", disse Nazaré Costa Cabral na altura. E acrescentou: "É importante que o modelo de crescimento da economia portuguesa continue a ser um modelo fundamentalmente assente na nossa capacidade exportadora, na capacidade de sermos competitivos".
Numa análise à economia portuguesa publicada esta semana, também a economista-chefe do BPI, Paula Carvalho, afirma que "foram detetadas vulnerabilidades nas contas externas" da "economia do ano".
Abalança corrente, que espelha o saldo entre os pagamentos e recebimentos ao exterior, deteriorou-se significativamente ao longo de 2025, tendo piorado o seu saldo em cerca de 2 mil milhões de euros (equivalente a 0,7% do PIB) nos primeiros nove meses do ano em termos homólogos, apontou.
Tendência que veio para ficar?
Ora, a expectativa do Governo, do CFP e da Comissão Europeia é que deverá continuar a ser a procura interna (consumo privado, público e investimento) a puxar pelo PIB, com o contributo a ser superior ao próprio crescimento da economia não só este ano, como no próximo. Aliás, Bruxelas diz mesmo que a procura interna continuará a contribuir mais para o PIB do que o próprio crescimento da economia até 2027, já que a procura externa líquida continuará a ser negativa.
No entanto, no próximo ano antecipa-se um maior contributo do investimento para o PIB, à boleia dos fundos europeus do Plano de Recuperação e Resiliência. Resta saber o que acontecerá a partir de 2027, quando, depois dos fundos da bazuca europeia, se prevê que o investimento caia a pique. Aliás, o Banco de Portugal diz que o contributo do investimento para o PIB será nulo (de 0%), esperando que fique quase estagnado esse ano. Já o CFP vê o investimento a recuar 1,1% em 2027.
Outro ponto em que estas entidades concordam é que a frente externa será cada vez menos negativa, com as exportações a acelerarem e as importações a abrandarem nos próximos dois anos. A expectativa é que nafren- te comercial e das tensões geopolíticas haja melhorias.