O economista e físico alemão que lidera o Leibniz-Zentrum für Europäische Wirtschaftsforschun (ZEW), o Centro de Investigação Económica Europeia, em Mannheim, na Alemanha, em entrevista ao Expresso, aconselha a União Europeia a diversificar o seu comércio internacional
Portugal pode atrair mais investimento alemão, defende Achim Wambach, presidente do centro de investigação ZEW
O economista e físico alemão que lidera o Leibniz-Zentrum für Europäische Wirtschaftsforschun (ZEW), o Centro de Investigação Económica Europeia, em Mannheim, na Alemanha, em entrevista ao Expresso, aconselha a União Europeia a diversificar o seu comércio internacional
Jorge Nascimento Rodrigues, Jornalista
Achim Wambach alerta para o risco orçamental e critica Angela Merkel pela estratégia que seguiu face à Rússia. O ZEW é um dos mais importantes centros de investigação independente na maior economia do euro. Publica o indicador mensal sobre o sentimento económico. O presidente da instituição também elogia o desempenho orçamental português
A Alemanha está relegada para o lugar de oitavo investidor estrangeiro em Portugal. Berlim perdeu o interesse pela periferia mais a Sul e centrou-se nos seus vizinhos do Leste?
O enfoque do Investimento Direto Estrangeiro da Alemanha mudou-se, de facto, para a Europa Central e do Leste, em virtude da integração das cadeias de abastecimento e da proximidade geográfica. Contudo, há sinais de novo interesse em Portugal, pois algumas empresas alemãs têm planos para expandir a sua presença.
Quais são os casos que tem em mente?
A Lufthansa Technik [reparação de peças de motores e componentes de aviões] está a construir novas instalações em Santa Maria da Feira perto do Porto e a Volkswagen vai produzir o seu novo carro elétrico [modelo ID. Every1, que significa literalmente "para todos"] exclusivamente na Autoeuropa em Palmela a partir de 2027. Com o apoio dos Fundos NextGenEU (Plano de Recuperação e Resiliência), Portugal pode atrair mais investimento alemão.
Como avalia a evolução da política orçamental em Portugal nos últimos anos, tendo reduzido substancialmente o prémio de risco face aos juros alemães?
A política orçamental portuguesa teve muito sucesso em anos recentes, com um robusto excedente orçamental em 2023 e uma redução muito significativa do nível de dívida pública desde 2020. Melhorou as balanças externas, graças às exportações e aos fundos europeus, e uma maior estabilidade financeira reforçou a confiança do mercado.
Isso poderá estar em causa?
Tensões comerciais globais, o desafio demográfico, e um eventual regresso ao défice orçamental em 2025 e 2026 sugerem que, para se manter aquele curso, é necessário continuar a disciplina orçamental e as reformas estruturais.
É necessário que Portugal continue a disciplina orçamental e as reformas estruturais
Aliás, o Fundo Monetário Internacional (FMI), na atualização de previsões no final de julho, alertou para a falta de espaço orçamental na zona euro. A sustentabilidade das dívidas públicas pode estar, de novo, em risco?
Pode. O espaço orçamental está sob pressão, incluindo na Alemanha. Ainda que económica e politicamente justificado, mais gasto público em defesa e em infraestruturas arrisca-se a abrir a porta para o financiamento de défices acima de 4% do PIB, colocando pressão adicional sobre o novo quadro de regras orçamentais aprovado em abril do ano passado. Por exemplo, o rácio da dívida alemã em relação ao PIB poderá chegar a 100% em 2034, empurrando o país para o grupo dos mais endividados na União Europeia.
O aviso do FMI faz, então, todo o sentido, mesmo para as maiores economias do euro, até há alguns anos consideradas frugais?
Com os pagamentos anuais dos juros da dívida e as transferências sociais em alta, a margem de manobra orçamental fica ainda mais apertada. Ainda que a suspensão temporária do travão da dívida [desde a pandemia e estendida face à invasão da Ucrânia] seja compreensível, corre sempre o risco de enfraquecer a disciplina orçamental na zona euro. Como o FMI avisa: sem estratégias credíveis de consolidação orçamental, a permanência de défices elevados compromete a sustentabilidade da dívida no longo prazo.
O FMI, na atualização em julho, também reviu em alta a previsão de crescimento da zona euro para 2025, nomeadamente graças a ter abandonado a perspetiva de estagnação na Alemanha. Está a ser realista?
O otimismo do FMI é cauteloso. A economia alemã no segundo trimestre ainda não reflete uma dinâmica crescente. Mas a inflação estabilizou em torno do objetivo de 2% do Banco Central Europeu (BCE) e observou-se um ligeiro aumento no consumo e no investimento no início de 2025. Essas previsões dependem da rápida implementação dos fundos especiais da Alemanha para infraestruturas e defesa, que foram estabelecidos através de uma flexibilização do 'travão da dívida' para promover a recuperação económica.
O que antecipa o vosso indicador mensal de sentimento económico?
Esse indicador do ZEW sugere um otimismo modesto, ainda que a incerteza se mantenha.
O BCE pode ainda baixar mais os juros, ou o ciclo de cortes terminou definitivamente em junho?
O BCE decidiu em julho colocar em pausa o ciclo de redução dos juros. Grandes bancos, incluindo o Deutsche Bank, corrigiram as suas expetativas, e já não antecipam mais cortes de juros este ano. Ainda que a inflação tenha estabilizado em torno do objetivo dos 2%, e trazido a taxa real de juro para praticamente zero, a política monetária está numa situação neutral, ou até um pouco expansionista. Deste ponto de vista, novos cortes de juros exigem argumentos económicos novos, como uma desaceleração económica acentuada ou o enfraquecimento das expetativas de inflação.
Volta a ser necessária máxima prudência na política monetária?
Há ainda uma grande margem de incerteza. Continua pouco claro qual o nível de impacto inflacionista por toda a zona euro que vai trazer o recente aumento do gasto em defesa e infraestruturas. Ao mesmo tempo, ainda é demasiado cedo para saber se a economia europeia está a caminho de uma recuperação forte em 2026. Neste contexto, é sensato que o BCE atue com cautela e mantenha flexibilidade. Em vez de carregar, agora, ainda mais no acelerador monetário, justifica-se uma abordagem de esperar para ver.
Há alguma possibilidade de um contágio no BCE da pressão política sobre a independência da Reserva Federal norte-americana?
Não. Pelo contrário, os acontecimentos nos Estados Unidos fazem sobressair a força relativa do quadro institucional e jurídico que protege a independência do banco central da zona euro. A autonomia do BCE está ancorada nos Tratados da União e qualquer mudança exigiria unanimidade dos Estados-membros, o que torna virtualmente impossível replicar na zona euro o tipo de pressão política direta a que estamos a assistir nos EUA.
Mas o BCE está completamente blindado a pressões?
Mantendo o que disse na resposta anterior, níveis de dívida pública crescentes por toda a zona euro, incluindo na Alemanha, poderão colocar riscos indiretos à credibilidade do BCE.
Como pode ser afetada essa credibilidade?
À medida que os desequilíbrios orçamentais se avolumem, os mercados podem começar a duvidar se o BCE consegue manter o seu compromisso com a estabilidade de preços sem acabar por se envolver no apoio ao financiamento dos governos. Esta perceção dos mercados só por si pode minar a confiança na independência do BCE, mesmo que o seu mandato institucional se mantenha intacto.
Qual é a avaliação global que faz da presidência de Christine Lagarde à frente do BCE?
Ela revelou-se como uma excelente moderadora dentro do conselho de governadores. Contudo, durante a sua presidência houve uma mudança na comunicação pública do BCE. Um estudo do ZEW revela que, com Lagarde, os discursos alargaram crescentemente os objetivos da política monetária, para além da estabilidade de preços, nomeadamente passando a incluir política climática.
Puxar a transição climática para a preocupação dos bancos centrais é negativo?
Isso arrisca diluir o mandato central do BCE. Não é só em épocas de inflação elevada que o banco central deve comunicar com clareza que o seu objetivo primordial é a estabilidade da inflação, de modo a preservar a sua credibilidade e a ancorar as expetativas.
Durante a presidência de Christine Lagarde houve uma mudança na comunicação pública do BCE, nomeadamente passando a incluir política climática. Isso arrisca diluir o mandato central do BCE
Com a imposição do novo quadro de tarifas pela Administração Trump a partir de agosto, entrámos numa nova ordem do comércio internacional, ou é temporário e reversível?
Já aprendemos que, com Trump , nunca poderemos ter uma certeza total de até que ponto ele mantém as suas próprias declarações. Esta imprevisibilidade torna difícil antecipar a duração do novo quadro de tarifas. No entanto, é cada vez mais claro para o resto do mundo que a dependência excessiva dos EUA como parceiro comercial acarreta riscos significativos. A situação atual deve servir de sinal de alerta e é uma oportunidade para criar um sistema de comércio global mais diversificado e resiliente.
É admissível a imposição por Trump na negociação das tarifas de condições extra-económicas com parceiros como o Canadá aliás, um aliado na NATO e com o Brasil?
Essa inclusão em acordos tarifários viola os princípios do direito internacional comercial. Medidas de comércio visam, normalmente, lidar com interesses económicos, não são uma forma de pressionar parceiros em assuntos internos, como a aplicação da lei ou decisões judiciais. Usar as tarifas para punir o Canadá por causa dos fluxos de fentanil ou influenciar a forma como o Brasil está a lidar com o ex-presidente Bolsonaro mina as normas da Organização Mundial do Comércio e afeta a credibilidade de um comércio internacional assente em regras.
Medidas de comércio visam, normalmente, lidar com interesses económicos, não são uma forma de pressionar parceiros em assuntos internos, como a aplicação da lei ou decisões judiciais
Olhando para o passado, a chanceler Angela Merkel cometeu o erro estratégico de criar uma dependência energética da Rússia?
Em retrospetiva, sem dúvida. O foco nos ganhos de curto prazo em matéria de custos pesou mais do que as considerações de resiliência estratégica de longo prazo. A guerra da Rússia contra a Ucrânia expôs como esta dependência tornou vulnerável a Europa.
Qual a lição que devemos tirar?
Aquela situação serve hoje de alerta sério para os riscos de uma dependência excessiva de um só fornecedor. Esta lição vai muito além da área da energia. Ela sublinha a necessidade maior de a Europa diversificar as suas cadeias de abastecimento e reduzir a sua exposição a choques geopolíticos em diversos sectores críticos.
Delegação da União Europeia, com Von der Leyen à cabeça, frente a frente com Xi JinpingPool
Que resultados obteve a União Europeia na cimeira em Pequim em julho?
Os resultados concretos foram limitados. A liderança chinesa, incluindo o presidente Xi, reconheceu publicamente os riscos internos de uma situação de sobrecapacidade produtiva e de concorrência ineficaz em sectores chave como o dos carros elétricos, da Inteligência Artificial e do aço. Contudo, ainda não se traduziu em ação concreta em relação às preocupações europeias.
A invasão de produtos chineses vai ser travada e o défice comercial com a China, que está em níveis recorde, vai baixar?
A China não atendeu às reivindicações essenciais da União, como uma maior abertura dos seus mercados às empresas europeias ou a restrição à inundação das suas exportações baratas, que têm contribuído para o desequilíbrio comercial. Em vez disso, Pequim avançou com as suas próprias exigências, incluindo o fim das tarifas europeias sobre os carros elétricos chineses. E ofereceu concessões limitadas, como um alívio nas restrições à exportação chinesa de certas matérias-primas.
O que deve fazer Bruxelas?
A estratégia europeia de reduzir o risco mantém-se fundamental. A Europa deve continuar a diversificar as suas relações comerciais e reduzir as suas dependências estratégicas, sobretudo em sectores onde a China mostrou uma clara vontade de alavancar o seu poder económico, como no caso das restrições nas terras raras.
Johanna Geron/Reuters
É realista a União Europeia conseguir uma eficaz diversificação para o Mercosul, a Índia e a ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático)?
Sim. E, mais do que isso, é necessária. Face a um parceiro norte-americano cada vez mais transacional e protecionista, a União Europeia tem de diversificar proativamente as suas relações comerciais. Por exemplo, ratificar o muito adiado acordo com o Mercosul daria um forte sinal a favor do multilateralismo. Se a atual situação global de tensões nos ensina alguma coisa é que a resiliência económica depende da diversificação.
Esse pode ser o efeito imprevisto do protecionismo de Trump?
Ironicamente, as políticas de tarifas norte-americanas podem ter esse efeito inesperado em acelerar os esforços de liberalização do comércio internacional nos outros sítios. E a União Europeia deve estar na linha da frente desse movimento.
Ironicamente, as políticas de tarifas norte-americanas podem ter o efeito inesperado de acelerar os esforços de liberalização do comércio internacional nos outros sítios. A União Europeia deve estar na linha da frente desse movimento
Pode esperar-se um colapso do dólar e a sua substituição como ativo de refúgio pelo ouro ou vários tipos de criptomoedas?
Isso é altamente improvável. No entanto, as tensões geopolíticas, as sanções, a imprevisibilidade da política comercial dos EUA e mesmo as preocupações com a sustentabilidade orçamental norte-americana reduziram a dependência do dólar. Os bancos centrais estão a diversificar para o ouro e há alguma mudança para outras divisas, particularmente o euro e o renminbi chinês. Contudo, esta alternativas permanecem limitadas. Ainda que uma mudança gradual para um sistema de divisas multipolar seja possível, a posição dominante do dólar deverá perdurar no futuro previsível.
O vice-presidente do BCE, Luis de Guindos, colocou recentemente a linha vermelha da valorização do euro no patamar de 1,2 dólares, para o qual faltam apenas três cêntimos. Quais são os riscos de ultrapassar essa linha?
Um euro mais forte reduz os custos de importação, mas prejudica as exportações e pode travar o crescimento. Afeta os lucros das empresas e o emprego e complica a política monetária se a inflação ficar abaixo do objetivo de 2%. Com as tensões comerciais globais a subir, o euro forte pode pôr em causa os esforços para manter a inflação estável e o crescimento económico e adicionar mais pressão sobre a competitividade da zona euro.
PERFIL
Achim Wambach
Nasceu em Colónia há 57 anos e licenciou-se em matemática e física na Universidade daquela cidade alemã. É, desde abril de 2016, presidente do Leibniz-Zentrum für Europäische Wirtschaftsforschun (ZEW), em Mannheim, onde também é professor de Economia na Universidade da cidade. No Reino Unido, doutorou-se em Física na Universidade de Oxford e tirou um mestrado em Economia na London School of Economics. Em 1995 iniciou uma carreira académica como professor, primeiro na Universidade Ludwig Maximilian, em Munique, depois na Universidade Friedrich-Alexander, em Erlangen-Nuremberga, e finalmente em Mannheim. Antes de presidir ao ZEW, foi diretor durante oito anos do Institut für Wirtschaftspolitik, o Instituto de Política Económica da Universidade de Colónia.
Na governação de Angela Merkel foi presidente do Conselho Consultivo Científico do ministério federal da Economia e Energia, membro e presidente da Comissão sobre os Monopólios, diretor da Plataforma Nacional para a Mobilidade Elétrica e co-presidente da Comissão para a Lei da Concorrência 4.0. Em maio do ano passado foi nomeado para o Conselho Alemão de Ética.
Nos últimos quatro anos publicou quatro livros sobre temas em que tem tido intervenção na opinião pública: Política de Ordenamento 2.0: menos concorrência, mais soberania?, O clima tem de compensar - razão económica para uma boa consciência, Renascimento da Política Industrial e, no ano passado, foi co-organizador da coletânea Compreender a Economia, moldar o futuro (nos 150 anos da Associação para a Política Social).
Portugal pode atrair mais investimento alemão, defende Achim Wambach, presidente do centro de investigação ZEW
O economista e físico alemão que lidera o Leibniz-Zentrum für Europäische Wirtschaftsforschun (ZEW), o Centro de Investigação Económica Europeia, em Mannheim, na Alemanha, em entrevista ao Expresso, aconselha a União Europeia a diversificar o seu comércio internacional
Jorge Nascimento Rodrigues, Jornalista
Achim Wambach alerta para o risco orçamental e critica Angela Merkel pela estratégia que seguiu face à Rússia. O ZEW é um dos mais importantes centros de investigação independente na maior economia do euro. Publica o indicador mensal sobre o sentimento económico. O presidente da instituição também elogia o desempenho orçamental português
A Alemanha está relegada para o lugar de oitavo investidor estrangeiro em Portugal. Berlim perdeu o interesse pela periferia mais a Sul e centrou-se nos seus vizinhos do Leste?
O enfoque do Investimento Direto Estrangeiro da Alemanha mudou-se, de facto, para a Europa Central e do Leste, em virtude da integração das cadeias de abastecimento e da proximidade geográfica. Contudo, há sinais de novo interesse em Portugal, pois algumas empresas alemãs têm planos para expandir a sua presença.
Quais são os casos que tem em mente?
A Lufthansa Technik [reparação de peças de motores e componentes de aviões] está a construir novas instalações em Santa Maria da Feira perto do Porto e a Volkswagen vai produzir o seu novo carro elétrico [modelo ID. Every1, que significa literalmente "para todos"] exclusivamente na Autoeuropa em Palmela a partir de 2027. Com o apoio dos Fundos NextGenEU (Plano de Recuperação e Resiliência), Portugal pode atrair mais investimento alemão.
Como avalia a evolução da política orçamental em Portugal nos últimos anos, tendo reduzido substancialmente o prémio de risco face aos juros alemães?
A política orçamental portuguesa teve muito sucesso em anos recentes, com um robusto excedente orçamental em 2023 e uma redução muito significativa do nível de dívida pública desde 2020. Melhorou as balanças externas, graças às exportações e aos fundos europeus, e uma maior estabilidade financeira reforçou a confiança do mercado.
Isso poderá estar em causa?
Tensões comerciais globais, o desafio demográfico, e um eventual regresso ao défice orçamental em 2025 e 2026 sugerem que, para se manter aquele curso, é necessário continuar a disciplina orçamental e as reformas estruturais.
É necessário que Portugal continue a disciplina orçamental e as reformas estruturais
Aliás, o Fundo Monetário Internacional (FMI), na atualização de previsões no final de julho, alertou para a falta de espaço orçamental na zona euro. A sustentabilidade das dívidas públicas pode estar, de novo, em risco?
Pode. O espaço orçamental está sob pressão, incluindo na Alemanha. Ainda que económica e politicamente justificado, mais gasto público em defesa e em infraestruturas arrisca-se a abrir a porta para o financiamento de défices acima de 4% do PIB, colocando pressão adicional sobre o novo quadro de regras orçamentais aprovado em abril do ano passado. Por exemplo, o rácio da dívida alemã em relação ao PIB poderá chegar a 100% em 2034, empurrando o país para o grupo dos mais endividados na União Europeia.
O aviso do FMI faz, então, todo o sentido, mesmo para as maiores economias do euro, até há alguns anos consideradas frugais?
Com os pagamentos anuais dos juros da dívida e as transferências sociais em alta, a margem de manobra orçamental fica ainda mais apertada. Ainda que a suspensão temporária do travão da dívida [desde a pandemia e estendida face à invasão da Ucrânia] seja compreensível, corre sempre o risco de enfraquecer a disciplina orçamental na zona euro. Como o FMI avisa: sem estratégias credíveis de consolidação orçamental, a permanência de défices elevados compromete a sustentabilidade da dívida no longo prazo.
O FMI, na atualização em julho, também reviu em alta a previsão de crescimento da zona euro para 2025, nomeadamente graças a ter abandonado a perspetiva de estagnação na Alemanha. Está a ser realista?
O otimismo do FMI é cauteloso. A economia alemã no segundo trimestre ainda não reflete uma dinâmica crescente. Mas a inflação estabilizou em torno do objetivo de 2% do Banco Central Europeu (BCE) e observou-se um ligeiro aumento no consumo e no investimento no início de 2025. Essas previsões dependem da rápida implementação dos fundos especiais da Alemanha para infraestruturas e defesa, que foram estabelecidos através de uma flexibilização do 'travão da dívida' para promover a recuperação económica.
O que antecipa o vosso indicador mensal de sentimento económico?
Esse indicador do ZEW sugere um otimismo modesto, ainda que a incerteza se mantenha.
O BCE pode ainda baixar mais os juros, ou o ciclo de cortes terminou definitivamente em junho?
O BCE decidiu em julho colocar em pausa o ciclo de redução dos juros. Grandes bancos, incluindo o Deutsche Bank, corrigiram as suas expetativas, e já não antecipam mais cortes de juros este ano. Ainda que a inflação tenha estabilizado em torno do objetivo dos 2%, e trazido a taxa real de juro para praticamente zero, a política monetária está numa situação neutral, ou até um pouco expansionista. Deste ponto de vista, novos cortes de juros exigem argumentos económicos novos, como uma desaceleração económica acentuada ou o enfraquecimento das expetativas de inflação.
Volta a ser necessária máxima prudência na política monetária?
Há ainda uma grande margem de incerteza. Continua pouco claro qual o nível de impacto inflacionista por toda a zona euro que vai trazer o recente aumento do gasto em defesa e infraestruturas. Ao mesmo tempo, ainda é demasiado cedo para saber se a economia europeia está a caminho de uma recuperação forte em 2026. Neste contexto, é sensato que o BCE atue com cautela e mantenha flexibilidade. Em vez de carregar, agora, ainda mais no acelerador monetário, justifica-se uma abordagem de esperar para ver.
Há alguma possibilidade de um contágio no BCE da pressão política sobre a independência da Reserva Federal norte-americana?
Não. Pelo contrário, os acontecimentos nos Estados Unidos fazem sobressair a força relativa do quadro institucional e jurídico que protege a independência do banco central da zona euro. A autonomia do BCE está ancorada nos Tratados da União e qualquer mudança exigiria unanimidade dos Estados-membros, o que torna virtualmente impossível replicar na zona euro o tipo de pressão política direta a que estamos a assistir nos EUA.
Mas o BCE está completamente blindado a pressões?
Mantendo o que disse na resposta anterior, níveis de dívida pública crescentes por toda a zona euro, incluindo na Alemanha, poderão colocar riscos indiretos à credibilidade do BCE.
Como pode ser afetada essa credibilidade?
À medida que os desequilíbrios orçamentais se avolumem, os mercados podem começar a duvidar se o BCE consegue manter o seu compromisso com a estabilidade de preços sem acabar por se envolver no apoio ao financiamento dos governos. Esta perceção dos mercados só por si pode minar a confiança na independência do BCE, mesmo que o seu mandato institucional se mantenha intacto.
Qual é a avaliação global que faz da presidência de Christine Lagarde à frente do BCE?
Ela revelou-se como uma excelente moderadora dentro do conselho de governadores. Contudo, durante a sua presidência houve uma mudança na comunicação pública do BCE. Um estudo do ZEW revela que, com Lagarde, os discursos alargaram crescentemente os objetivos da política monetária, para além da estabilidade de preços, nomeadamente passando a incluir política climática.
Puxar a transição climática para a preocupação dos bancos centrais é negativo?
Isso arrisca diluir o mandato central do BCE. Não é só em épocas de inflação elevada que o banco central deve comunicar com clareza que o seu objetivo primordial é a estabilidade da inflação, de modo a preservar a sua credibilidade e a ancorar as expetativas.
Durante a presidência de Christine Lagarde houve uma mudança na comunicação pública do BCE, nomeadamente passando a incluir política climática. Isso arrisca diluir o mandato central do BCE
Com a imposição do novo quadro de tarifas pela Administração Trump a partir de agosto, entrámos numa nova ordem do comércio internacional, ou é temporário e reversível?
Já aprendemos que, com Trump , nunca poderemos ter uma certeza total de até que ponto ele mantém as suas próprias declarações. Esta imprevisibilidade torna difícil antecipar a duração do novo quadro de tarifas. No entanto, é cada vez mais claro para o resto do mundo que a dependência excessiva dos EUA como parceiro comercial acarreta riscos significativos. A situação atual deve servir de sinal de alerta e é uma oportunidade para criar um sistema de comércio global mais diversificado e resiliente.
É admissível a imposição por Trump na negociação das tarifas de condições extra-económicas com parceiros como o Canadá aliás, um aliado na NATO e com o Brasil?
Essa inclusão em acordos tarifários viola os princípios do direito internacional comercial. Medidas de comércio visam, normalmente, lidar com interesses económicos, não são uma forma de pressionar parceiros em assuntos internos, como a aplicação da lei ou decisões judiciais. Usar as tarifas para punir o Canadá por causa dos fluxos de fentanil ou influenciar a forma como o Brasil está a lidar com o ex-presidente Bolsonaro mina as normas da Organização Mundial do Comércio e afeta a credibilidade de um comércio internacional assente em regras.
Medidas de comércio visam, normalmente, lidar com interesses económicos, não são uma forma de pressionar parceiros em assuntos internos, como a aplicação da lei ou decisões judiciais
Olhando para o passado, a chanceler Angela Merkel cometeu o erro estratégico de criar uma dependência energética da Rússia?
Em retrospetiva, sem dúvida. O foco nos ganhos de curto prazo em matéria de custos pesou mais do que as considerações de resiliência estratégica de longo prazo. A guerra da Rússia contra a Ucrânia expôs como esta dependência tornou vulnerável a Europa.
Qual a lição que devemos tirar?
Aquela situação serve hoje de alerta sério para os riscos de uma dependência excessiva de um só fornecedor. Esta lição vai muito além da área da energia. Ela sublinha a necessidade maior de a Europa diversificar as suas cadeias de abastecimento e reduzir a sua exposição a choques geopolíticos em diversos sectores críticos.
Delegação da União Europeia, com Von der Leyen à cabeça, frente a frente com Xi JinpingPool
Que resultados obteve a União Europeia na cimeira em Pequim em julho?
Os resultados concretos foram limitados. A liderança chinesa, incluindo o presidente Xi, reconheceu publicamente os riscos internos de uma situação de sobrecapacidade produtiva e de concorrência ineficaz em sectores chave como o dos carros elétricos, da Inteligência Artificial e do aço. Contudo, ainda não se traduziu em ação concreta em relação às preocupações europeias.
A invasão de produtos chineses vai ser travada e o défice comercial com a China, que está em níveis recorde, vai baixar?
A China não atendeu às reivindicações essenciais da União, como uma maior abertura dos seus mercados às empresas europeias ou a restrição à inundação das suas exportações baratas, que têm contribuído para o desequilíbrio comercial. Em vez disso, Pequim avançou com as suas próprias exigências, incluindo o fim das tarifas europeias sobre os carros elétricos chineses. E ofereceu concessões limitadas, como um alívio nas restrições à exportação chinesa de certas matérias-primas.
O que deve fazer Bruxelas?
A estratégia europeia de reduzir o risco mantém-se fundamental. A Europa deve continuar a diversificar as suas relações comerciais e reduzir as suas dependências estratégicas, sobretudo em sectores onde a China mostrou uma clara vontade de alavancar o seu poder económico, como no caso das restrições nas terras raras.
Johanna Geron/Reuters
É realista a União Europeia conseguir uma eficaz diversificação para o Mercosul, a Índia e a ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático)?
Sim. E, mais do que isso, é necessária. Face a um parceiro norte-americano cada vez mais transacional e protecionista, a União Europeia tem de diversificar proativamente as suas relações comerciais. Por exemplo, ratificar o muito adiado acordo com o Mercosul daria um forte sinal a favor do multilateralismo. Se a atual situação global de tensões nos ensina alguma coisa é que a resiliência económica depende da diversificação.
Esse pode ser o efeito imprevisto do protecionismo de Trump?
Ironicamente, as políticas de tarifas norte-americanas podem ter esse efeito inesperado em acelerar os esforços de liberalização do comércio internacional nos outros sítios. E a União Europeia deve estar na linha da frente desse movimento.
Ironicamente, as políticas de tarifas norte-americanas podem ter o efeito inesperado de acelerar os esforços de liberalização do comércio internacional nos outros sítios. A União Europeia deve estar na linha da frente desse movimento
Pode esperar-se um colapso do dólar e a sua substituição como ativo de refúgio pelo ouro ou vários tipos de criptomoedas?
Isso é altamente improvável. No entanto, as tensões geopolíticas, as sanções, a imprevisibilidade da política comercial dos EUA e mesmo as preocupações com a sustentabilidade orçamental norte-americana reduziram a dependência do dólar. Os bancos centrais estão a diversificar para o ouro e há alguma mudança para outras divisas, particularmente o euro e o renminbi chinês. Contudo, esta alternativas permanecem limitadas. Ainda que uma mudança gradual para um sistema de divisas multipolar seja possível, a posição dominante do dólar deverá perdurar no futuro previsível.
O vice-presidente do BCE, Luis de Guindos, colocou recentemente a linha vermelha da valorização do euro no patamar de 1,2 dólares, para o qual faltam apenas três cêntimos. Quais são os riscos de ultrapassar essa linha?
Um euro mais forte reduz os custos de importação, mas prejudica as exportações e pode travar o crescimento. Afeta os lucros das empresas e o emprego e complica a política monetária se a inflação ficar abaixo do objetivo de 2%. Com as tensões comerciais globais a subir, o euro forte pode pôr em causa os esforços para manter a inflação estável e o crescimento económico e adicionar mais pressão sobre a competitividade da zona euro.
PERFIL
Achim Wambach
Nasceu em Colónia há 57 anos e licenciou-se em matemática e física na Universidade daquela cidade alemã. É, desde abril de 2016, presidente do Leibniz-Zentrum für Europäische Wirtschaftsforschun (ZEW), em Mannheim, onde também é professor de Economia na Universidade da cidade. No Reino Unido, doutorou-se em Física na Universidade de Oxford e tirou um mestrado em Economia na London School of Economics. Em 1995 iniciou uma carreira académica como professor, primeiro na Universidade Ludwig Maximilian, em Munique, depois na Universidade Friedrich-Alexander, em Erlangen-Nuremberga, e finalmente em Mannheim. Antes de presidir ao ZEW, foi diretor durante oito anos do Institut für Wirtschaftspolitik, o Instituto de Política Económica da Universidade de Colónia.
Na governação de Angela Merkel foi presidente do Conselho Consultivo Científico do ministério federal da Economia e Energia, membro e presidente da Comissão sobre os Monopólios, diretor da Plataforma Nacional para a Mobilidade Elétrica e co-presidente da Comissão para a Lei da Concorrência 4.0. Em maio do ano passado foi nomeado para o Conselho Alemão de Ética.
Nos últimos quatro anos publicou quatro livros sobre temas em que tem tido intervenção na opinião pública: Política de Ordenamento 2.0: menos concorrência, mais soberania?, O clima tem de compensar - razão económica para uma boa consciência, Renascimento da Política Industrial e, no ano passado, foi co-organizador da coletânea Compreender a Economia, moldar o futuro (nos 150 anos da Associação para a Política Social).