O Institut Français de la Mode (IFM) apresentou um estudo que revela como o segmento do pronto-a-vestir atravessa uma fase de fragilidade em França que não se traduz apenas numa desaceleração económica. Em 2025, o setor do vestuário atingiu cerca de 35 mil milhões de euros, valor ainda inferior aos 37 mil milhões de euros registados em 2019, antes da pandemia. Esta diferença representa uma queda superior a 7% em comparação ao período pré-covid, o que demonstra que o setor não conseguiu recuperar totalmente. Ainda que a descida anual tenha sido ligeira (-1,6%), o problema persiste e não se limita apenas à redução das vendas, mas também ao valor global do mercado.
De acordo com o IFM, existe um verdadeiro risco de pauperização do setor. Este conceito refere-se à tendência de diminuição do valor económico do mercado devido à crescente predominância de segmentos de valor baixo, como o ultra fast-fashion e o consumo de moda em segunda mão. Atualmente, cerca de um quarto do mercado em volume já é dominado por estes dois segmentos: 6% pela ultra fast-fashion e 19% pela revenda de artigos usados. A expansão destes dois segmentos altera fortemente a estrutura do setor, considerando que privilegia preços baixos e margens reduzidas, vistos em plataformas como a Shein, Temu ou a AliExpress que se consolidaram com ofertas competitivas, com preços médios que rondam os 9 euros por peça. Já no mercado do vestuário em segunda mão, o líder é a plataforma Vinted, em vendas online, com um preço médio de 13 euros por artigo. Estes valores pressionam todo o mercado e são insustentáveis para os atores mais tradicionais do segmento.
A transformação do setor deve-se igualmente a uma profunda mudança no comportamento dos consumidores. Nos últimos anos, a inflação levou a uma postura mais cautelosa por parte dos franceses no que diz respeito ao consumo. Apesar da estabilização dos preços, a incerteza económica retrai o consumo não essencial, como o vestuário. Ainda que, para o típico consumidor francês, a qualidade e o historial das peças continuem a ser elementos importantes, o preço é o principal critério de decisão, principalmente entre os jovens. Para além disso, quase metade dos franceses compra atualmente em plataformas multimarcas online, como a Amazon e a Zalando. A faixa etária dos 18 aos 24 anos representa 34% das compras online de vestuário, demonstrando forte preferência pelo consumo digital e é muito sensível ao preço.
Neste sentido, o impacto para as empresas tradicionais é inevitável e tem sido significativo. Desde 2019, em França, cerca de 20% das empresas do setor desapareceram, segundo a Alliance du Commerce. Várias marcas enfrentaram processos de reestruturação ou dificuldades financeiras, como recentemente as marcas Okaidi e Oxybul do grupo francês IdKids, refletindo a incapacidade de competir num mercado focado em preços baixos e margens reduzidas. O segmento do pronto-a-vestir feminino, por exemplo, registou uma queda de 8,9% só em 2025, após já ter sofrido uma queda expressiva no ano anterior. O vestuário masculino recuou igualmente 5 % e o segmento infantil é particularmente afetado pela concorrência do mercado em segunda mão.
Apesar do cenário negativo, na sua generalidade, alguns atores conseguem resistir e até crescer, mas é necessária a adoção de estratégias claras de posicionamento em preço ou escala. No entanto, a maioria das marcas enfrenta um dilema estratégico: competir diretamente com a ultra fast-fashion, o que implicaria reduzir margens e adaptar cadeias de produção, ou apostar na diferenciação através da qualidade, da sustentabilidade e da valorização da marca, o que exige investimento em inovação, num contexto em que os recursos financeiros estão mais limitados e o retorno não é garantido.
Outro fator que poderá influenciar o futuro do setor é a eventual introdução de taxas sobre pequenos envios internacionais de baixo valor. O estudo do IFM indica que 57% dos consumidores alterariam o seu comportamento se confrontados com uma taxa adicional de apenas dois euros. Esta posição por parte do consumidor demonstra o quão sensível é o modelo atual à mínima variação de preço. Em 2025, as importações de pequenos envios representaram 2,6 mil milhões de euros, evidenciando a importância destes fluxos para o consumo de vestuário.
O alerta do Institut Français de la Mode reforça a tese que se tem vindo a discutir nos últimos anos: o setor do vestuário em França enfrenta uma transformação estrutural que ameaça a sua sustentabilidade. A combinação da pressão sobre os preços, as alterações dos hábitos de consumo, o crescimento progressivo da preferência pelo vestuário em segunda mão e o domínio crescente da ultra fast-fashion está a reduzir o valor global do mercado e a fragilizar muitas empresas do setor. É necessário implementar estratégias eficazes de adaptação, tendo em conta que o risco de pauperização poderá consolidar-se, comprometendo a sustentabilidade económica do setor a médio e longo prazo.
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Internacionalização
Tendências & Oportunidades - França
A pauperização do pronto-a-vestir em França.
AICEP França
12/03/2026