Enquanto deputados alemães e membros de federações desportivas manifestam a sua vontade de boicotar a presença no Mundial 2026 nos Estados Unidos e o ex- -presidente da FIFA Joseph Blatter avisa os adeptos para, por motivos políticos, não viajarem para esta competição, Portugal prepara-se para ser um dos anfitriões do Mundial 2030.
Estes factos levantam um paradoxo: o desporto está cada vez mais influenciado pela geopolítica internacional, mas Portugal vai receber uma competição de magnitude global sem uma estratégia nítida para capitalizar esta oportunidade. A questão não é apenas a de boicotar ou não, mas sim como aproveitar.
Ao analisar os números, conseguimos identificar o balanço negativo para Portugal: três estádios nacionais irão a colher jogos do Mundial (apenas em Lisboa e Porto), enquanto Marrocos terá seis estádios dispersos por seis cidades e Espanha ascende aos 11 estádios em nove cidades. Esta distribuição resulta em apenas dez a 18 jogos disputados em Portugal, o que perfaz à volta de 15% do total de 104 jogos.
O impacto económico do Mundial de 2030 foi também avaliado pela PwC, que estimou cerca de 400 milhões de receita fiscal para Portugal, além da entrada de 300 a 500 mil visitantes no País. A consultora refere que Portugal poderá, além disto, desenvolver a sua reputação e fomentar tanto o comércio como as relações internacionais, mas o passado não demonstra estratégias claras do governo português em situações semelhantes.
No entanto, o impacto económico oculta um desequilíbrio estratégico, com Espanha e Marrocos a dominarem a narrativa do evento e a trabalharem ativamente na sua componente diplomática. Portugal, por outro lado, arrisca-se a receber turistas sem mecanismos que permitam converter esta presença em influência internacional, e a acolher os jogos mais impactantes do futebol mundial sem tirar proveito da visibilidade para acordos a longo prazo.
Os ativos desportivos são notórios: Cristiano Ronaldo como principal porta-estandarte de Portugal para o mundo, atingindo mais de 700 milhões de seguidores nas redes sociais; tanto os clubes como os atletas portugueses chegam de forma constante a fases finais de campeonatos do mundo e europeus (inclusive uma Seleção Nacional que está presente em todos os Mundiais desde 2002); infraestrutura desportiva sólida e destacada em avaliações de competitividade internacional que já acolheu grandes eventos desportivos.
A diferença para países como Espanha, que não só demonstrou capacidade diplomática através do desporto mas também desenvolveu documentos governamentais para a diplomacia desportiva espanhola, está na visão estratégica e não no talento.
O PODER DE ATRAIR EM VEZ DE COAGIR
O termo soft power foi cunhado pelo politólogo Joseph Nye e gira em torno da capacidade de influenciar através de atração em vez de coação. Cristiano Ronaldo personifica esta ideia, não só pelas suas centenas de milhões de seguidores, mas também pelo reconhecimento global que tem e a aptidão única de mobilizar atenção.
O atleta desempenha o papel de embaixador principal da estratégia Vision 2030 para o desporto saudita, e Portugal permite que o seu maior ativo diplomático trabalhe para outros países (certamente os valores praticados para esta aliança de Ronaldo com a Arábia Saudita são inalcançáveis para a realidade portuguesa, mas claramente mais projetos realistas poderiam ser desenvolvidos pelo Governo português neste as- peto).
Quando a China quis melhorar a relação com os EUA, o basquetebolista Yao Ming atuou como ponte diplomática fundamental. Vários países pequenos coordenam atletas e governo para amplificar a sua influência internacional, mas Portugal, que tem o desportista mais reconhecido do planeta Terra, não promove uma abordagem e uma estratégia claras entre o Governo e o atleta (ou, pelo menos, pública).
Em 2019, um acordo entre a federação espanhola de futebol e o governo da Arábia Saudita permitiu que a Supertaça de Espanha se realizasse em Riad durante os dez anos seguintes, uma operação que beneficiará o futebol espanhol em aproximadamente 400 milhões de euros durante a década visada.
A presença portuguesa na Arábia Saudita é também significativa: jogadores emblemáticos como Cristiano Ronaldo e João Félix, assim como o treinador Jorge Jesus, lideram um dos candidatos ao título na liga saudita.
Outras dezenas de reputados desportistas portugueses passaram pelo país árabe, mas esta presença não se converteu em benefícios diplomáticos para Portugal, apenas em mais milhões de euros para os clubes sauditas.
Esta questão não se prende com recursos financeiros inalcançáveis ou comparações que não fazem sentido, mas sim com aproveitar oportunidades e apostar num caminho que outros países estão a percorrer.
A Austrália tornou pública em 2019 a sua estratégia Sports Diplomacy: 2030, destinada a definir que mecanismos utilizará para converter o seu ecossistema desportivo em resultados diplomáticos.
Os EUA criaram, também, uma divisão de diplomacia desportiva no seu Departamento de Estado em 2002. Em Espanha, o exemplo mais próximo, a Lei do Desporto (2022) reconhece que a representação do desporto espanhol é de interesse público. Além disto, desenvolveu um documento estratégico para diplomacia desportiva em 2019, extremamente detalhado com os objetivos nacionais e as estratégias para este progresso e aliado com os Pactos de Viana, que define o futebol como principal embaixador do desporto espanhol para o exterior.
No caso de Portugal, não se verifica esta direção. Não existe uma estrutura ministerial que sustenha coordenação entre diplomacia e desporto, o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) foca-se maioritariamente numa agenda doméstica. E a despesa pública nacional di- recionada ao desporto está muito abaixo da média europeia. Mais importante, a consciencialização governamental para a diplomacia desportiva é quase nula, visto que o termo não é utilizado em documentos oficiais e os esforços nesta direção são isolados e específicos às instituições que os praticam.
Faltam quatro anos para o Mundial 2030 e a preparação estratégica requer começar a trabalhar neste campo o mais rápido possível. França criou o cargo de embaixador para o Desporto em 2023, aliando as agendas do Ministério dos Negócios Estrangeiros com as dos clubes e federações desportivas e desenvolvendo projetos com 150 embaixadas mundiais para promover o desporto francês.
Os EUA, desde o início dos anos 2000, enviam figuras do desporto americano como Shaquille O'Neal e Michelle Kwan a diferentes regiões do mundo como representantes diplomáticos.
Em Espanha, os Pactos de Viana impõem uma obrigação à La Liga correspondente ao investimento de 16 milhões de euros por ano no crescimento do programa Team Espana Elite, que promove o desporto espanhol internacionalmente.
Portugal tem tudo para seguir o mesmo caminho, falta apenas a vontade política de criar uma estrutura institucional permanente que sirva de base para a componente diplomática do desporto português: um representante para a diplomacia desportiva, um gabinete que coordene o Ministério de Negócios Estrangeiros com o Instituto Português da Juventude e Desporto, um programa de atletas-embaixadores que representem Portugal sistematicamente nos mercados estratégicos.
Acima de tudo, Portugal precisa de uma estratégia oficial sobre a qual possa expor os objetivos, os meios para os atingir e os atores do ecossistema governamental e desportivo que estarão involucrados. Algo como um "Pacto Desportivo 2030" que una a Federação Portuguesa de Futebol, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, os principais clubes como Benfica, Sporting e FC Porto, Cristiano Ronaldo, entre outros atletas-federações-organismos desportivos, é o mínimo para que o desporto português possa progredir.
O Mundial 2030 não é apenas um objetivo, mas também um prazo para Portugal decidir se finalmente quer tirar partido do seu desporto como ferramenta diplomática e de política externa, ou persistir com o desperdício de um dos seus maiores trunfos enquanto uma grande parte dos países por todo o mundo já é consciente e trabalha ativamente naquilo que nós deixamos ao acaso.
Estes factos levantam um paradoxo: o desporto está cada vez mais influenciado pela geopolítica internacional, mas Portugal vai receber uma competição de magnitude global sem uma estratégia nítida para capitalizar esta oportunidade. A questão não é apenas a de boicotar ou não, mas sim como aproveitar.
Ao analisar os números, conseguimos identificar o balanço negativo para Portugal: três estádios nacionais irão a colher jogos do Mundial (apenas em Lisboa e Porto), enquanto Marrocos terá seis estádios dispersos por seis cidades e Espanha ascende aos 11 estádios em nove cidades. Esta distribuição resulta em apenas dez a 18 jogos disputados em Portugal, o que perfaz à volta de 15% do total de 104 jogos.
O impacto económico do Mundial de 2030 foi também avaliado pela PwC, que estimou cerca de 400 milhões de receita fiscal para Portugal, além da entrada de 300 a 500 mil visitantes no País. A consultora refere que Portugal poderá, além disto, desenvolver a sua reputação e fomentar tanto o comércio como as relações internacionais, mas o passado não demonstra estratégias claras do governo português em situações semelhantes.
No entanto, o impacto económico oculta um desequilíbrio estratégico, com Espanha e Marrocos a dominarem a narrativa do evento e a trabalharem ativamente na sua componente diplomática. Portugal, por outro lado, arrisca-se a receber turistas sem mecanismos que permitam converter esta presença em influência internacional, e a acolher os jogos mais impactantes do futebol mundial sem tirar proveito da visibilidade para acordos a longo prazo.
Os ativos desportivos são notórios: Cristiano Ronaldo como principal porta-estandarte de Portugal para o mundo, atingindo mais de 700 milhões de seguidores nas redes sociais; tanto os clubes como os atletas portugueses chegam de forma constante a fases finais de campeonatos do mundo e europeus (inclusive uma Seleção Nacional que está presente em todos os Mundiais desde 2002); infraestrutura desportiva sólida e destacada em avaliações de competitividade internacional que já acolheu grandes eventos desportivos.
A diferença para países como Espanha, que não só demonstrou capacidade diplomática através do desporto mas também desenvolveu documentos governamentais para a diplomacia desportiva espanhola, está na visão estratégica e não no talento.
O PODER DE ATRAIR EM VEZ DE COAGIR
O termo soft power foi cunhado pelo politólogo Joseph Nye e gira em torno da capacidade de influenciar através de atração em vez de coação. Cristiano Ronaldo personifica esta ideia, não só pelas suas centenas de milhões de seguidores, mas também pelo reconhecimento global que tem e a aptidão única de mobilizar atenção.
O atleta desempenha o papel de embaixador principal da estratégia Vision 2030 para o desporto saudita, e Portugal permite que o seu maior ativo diplomático trabalhe para outros países (certamente os valores praticados para esta aliança de Ronaldo com a Arábia Saudita são inalcançáveis para a realidade portuguesa, mas claramente mais projetos realistas poderiam ser desenvolvidos pelo Governo português neste as- peto).
Quando a China quis melhorar a relação com os EUA, o basquetebolista Yao Ming atuou como ponte diplomática fundamental. Vários países pequenos coordenam atletas e governo para amplificar a sua influência internacional, mas Portugal, que tem o desportista mais reconhecido do planeta Terra, não promove uma abordagem e uma estratégia claras entre o Governo e o atleta (ou, pelo menos, pública).
Em 2019, um acordo entre a federação espanhola de futebol e o governo da Arábia Saudita permitiu que a Supertaça de Espanha se realizasse em Riad durante os dez anos seguintes, uma operação que beneficiará o futebol espanhol em aproximadamente 400 milhões de euros durante a década visada.
A presença portuguesa na Arábia Saudita é também significativa: jogadores emblemáticos como Cristiano Ronaldo e João Félix, assim como o treinador Jorge Jesus, lideram um dos candidatos ao título na liga saudita.
Outras dezenas de reputados desportistas portugueses passaram pelo país árabe, mas esta presença não se converteu em benefícios diplomáticos para Portugal, apenas em mais milhões de euros para os clubes sauditas.
Esta questão não se prende com recursos financeiros inalcançáveis ou comparações que não fazem sentido, mas sim com aproveitar oportunidades e apostar num caminho que outros países estão a percorrer.
A Austrália tornou pública em 2019 a sua estratégia Sports Diplomacy: 2030, destinada a definir que mecanismos utilizará para converter o seu ecossistema desportivo em resultados diplomáticos.
Os EUA criaram, também, uma divisão de diplomacia desportiva no seu Departamento de Estado em 2002. Em Espanha, o exemplo mais próximo, a Lei do Desporto (2022) reconhece que a representação do desporto espanhol é de interesse público. Além disto, desenvolveu um documento estratégico para diplomacia desportiva em 2019, extremamente detalhado com os objetivos nacionais e as estratégias para este progresso e aliado com os Pactos de Viana, que define o futebol como principal embaixador do desporto espanhol para o exterior.
No caso de Portugal, não se verifica esta direção. Não existe uma estrutura ministerial que sustenha coordenação entre diplomacia e desporto, o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) foca-se maioritariamente numa agenda doméstica. E a despesa pública nacional di- recionada ao desporto está muito abaixo da média europeia. Mais importante, a consciencialização governamental para a diplomacia desportiva é quase nula, visto que o termo não é utilizado em documentos oficiais e os esforços nesta direção são isolados e específicos às instituições que os praticam.
Faltam quatro anos para o Mundial 2030 e a preparação estratégica requer começar a trabalhar neste campo o mais rápido possível. França criou o cargo de embaixador para o Desporto em 2023, aliando as agendas do Ministério dos Negócios Estrangeiros com as dos clubes e federações desportivas e desenvolvendo projetos com 150 embaixadas mundiais para promover o desporto francês.
Os EUA, desde o início dos anos 2000, enviam figuras do desporto americano como Shaquille O'Neal e Michelle Kwan a diferentes regiões do mundo como representantes diplomáticos.
Em Espanha, os Pactos de Viana impõem uma obrigação à La Liga correspondente ao investimento de 16 milhões de euros por ano no crescimento do programa Team Espana Elite, que promove o desporto espanhol internacionalmente.
Portugal tem tudo para seguir o mesmo caminho, falta apenas a vontade política de criar uma estrutura institucional permanente que sirva de base para a componente diplomática do desporto português: um representante para a diplomacia desportiva, um gabinete que coordene o Ministério de Negócios Estrangeiros com o Instituto Português da Juventude e Desporto, um programa de atletas-embaixadores que representem Portugal sistematicamente nos mercados estratégicos.
Acima de tudo, Portugal precisa de uma estratégia oficial sobre a qual possa expor os objetivos, os meios para os atingir e os atores do ecossistema governamental e desportivo que estarão involucrados. Algo como um "Pacto Desportivo 2030" que una a Federação Portuguesa de Futebol, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, os principais clubes como Benfica, Sporting e FC Porto, Cristiano Ronaldo, entre outros atletas-federações-organismos desportivos, é o mínimo para que o desporto português possa progredir.
O Mundial 2030 não é apenas um objetivo, mas também um prazo para Portugal decidir se finalmente quer tirar partido do seu desporto como ferramenta diplomática e de política externa, ou persistir com o desperdício de um dos seus maiores trunfos enquanto uma grande parte dos países por todo o mundo já é consciente e trabalha ativamente naquilo que nós deixamos ao acaso.