Especialistas acreditam que estas são as duas grandes subtendências para 2026, ano em que a IA tornar-se-á também mais “contextual”. Haverá também novidades no campo da regulação.
Uma aliança de agentes e robôs humanóides prepara-se para dominar o panorama da inteligência artificial (IA) generativa em 2026, ano em que as valorizações das grandes tecnológicas prometem continuar a causar vertigens. Simultaneamente, os dados proprietários das empresas vão ganhar destaque, à medida que escasseiam as fontes abertas de informação aptas para especializar modelos.
Chegado um novo ano, persistem as dúvidas sobre os limites da tecnologia que mais tem dado que falar nos últimos tempos. Ainda assim, em 2025, ano em que o ChatGPT celebrou o seu terceiro aniversário, a OpenAI conseguiu continuar a inovar, adicionando novas funcionalidades de criação de imagens e de vídeo. A plataforma é agora usada por mais de 800 milhões de utilizadores por semana, ganhou o seu próprio agente e até já tem um browser, o Atlas.
Daniela Braga, uma das vozes mais escutadas em Portugal sobre esta matéria, nota que os agentes são uma clara tendência para 2026. “Ainda há muito a fazer nesta área”, considera a especialista, pelo que o conceito “ainda é mais promessa do que realidade”. Mas “está a começar a tomar forma”, aponta a fundadora e CEO da Defined.ai, um marketplace de dados para treino de IA.
“A questão dos agentes, as comunidades que vão interagir entre si, quer orquestradas por outros agentes ou com workflows bem definidos, serão tendências naturais”, concorda Arlindo Oliveira, outro especialista nacional de referência. Estes sistemas agênticos “não respondem só a uma pergunta ou instrução” — “podem planear um conjunto de operações sequenciais e executá-lo”, distingue o presidente do INESC.
Paralelamente, os robôs humanóides prometem ganhar tração neste novo ano, depois de já terem conquistado o estrelato nas redes sociais: “Está a explodir esta área e está a ir a casa do consumidor”, diz Daniela Braga. “Já havia braços mecânicos, ou cirurgias assistidas, mas agora estamos a ver a IA a ganhar corpo físico”, indica a especialista, para quem a China está a dominar nesta vertente.
Do consumidor para as empresas, Arlindo Oliveira destaca como “marcante” no novo ano o progresso na “engenharia de contexto”. “Temos cada vez mais uma componente de conceção de sistemas personalizados. Menos utilização de LLM [Large Language Models, grandes modelos de linguagem, em português] e mais no âmbito do contexto específico que é dado”, afirma.
Em causa está, por exemplo, o treino de modelos menores com dados proprietários das empresas, embora existam desafios do ponto de vista de acesso a dados. “Trabalhar no contexto, e criar sistemas dirigidos numa determinada aplicação para serem mais precisos e eficazes, será uma tendência muito forte, em particular em 2026”, diz Arlindo Oliveira.
Estas inovações são fruto dos avanços na IA dos últimos anos, assentes em milhares de milhões de dólares investidos, sempre acompanhados por fortes receios de uma nova ‘bolha’ financeira. E se a ‘bolha’ estourar? “Não tenho dúvidas de que poderá haver uma correção com algum significado, mas não será essa correção que tirará o momentum [ímpeto] à tecnologia. A bolha das dotcom não fez desaparecer a internet”, nota o também professor catedrático do Instituto Superior Técnico, referindo-se ao grande crash nos mercados no virar do milénio.
2026 também vai ser um ano relevante para Portugal em termos de adoção de IA. Aguarda-se o lançamento da versão final do Amália, resultado de um investimento de 5,5 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Este modelo de IA, adaptado à cultura portuguesa e patrocinado pelo Governo de Luís Montenegro, chegou a estar previsto para março de 2025, e prometido depois para o final de setembro, mas a versão pública continua trancada a sete chaves.
O prazo é o final de junho, esperando-se mais escrutínio deste investimento do PRR que tem feito correr muita tinta. Entretanto, está previsto o Amália vir a ser integrado nos serviços públicos e espera-se que impulsione a adoção de IA nas empresas. No próximo ano, esta intenção será igualmente posta à prova.