
Bioeconomia
Esta é uma área de grande potencial para as empresas portuguesas que, reconhecendo as transformações em curso, se deverão posicionar.
Significado e potencial
Se a ideia de uma economia circular pretende resolver ou, pelo menos, mitigar a questão da escassez/ excessiva exploração de recursos, por um lado, e do excesso de resíduos por outro; a bioeconomia pretende responder à questão da tipologia dos recursos utilizados. Neste modelo, a utilização de recursos fósseis é substituída por recursos renováveis de base biológica. Ambos os modelos confluem, no entanto, no objetivo de contribuir para o desenvolvimento económico e social dentro dos limites naturais dos ecossistemas. Para ser bem-sucedida, aliás, a bioeconomia europeia tem de ter a sustentabilidade e a circularidade no seu cerne. Todos estes elementos, que caracterizam a transição para um novo modelo económico e social, são enquadrados no European Green Deal.
A bioeconomia abrange todos os setores e sistemas que dependem dos recursos biológicos (animais, plantas, microrganismos e biomassa derivada, incluindo resíduos orgânicos), as suas funções e princípios. Inclui e interliga: os ecossistemas terrestres e marinhos e os serviços que prestam; toda a produção primária, setores que utilizam e produzem recursos biológicos (agricultura, silvicultura, pescas e aquicultura) e todos os setores económicos e industriais que utilizam recursos e processos biológicos para produzir alimentos, comida para animais, produtos de base biológica, energia e serviços. Na verdade, a bioeconomia não só detém uma posição importante para os países alcançarem os objetivos do Green Deal, como pode ter um papel relevante para encontrar soluções para alcançar uma situação de independência alimentar e energética, condições particularmente relevantes no contexto de conflitos e crises internacionais.1
O crescente investimento nesta estratégia decorre dos rápidos avanços na biologia molecular que, combinados com big data e inteligência artificial, trouxeram grandes saltos qualitativos para o entendimento sobre organismos vivos, incluindo a biomassa produzida por plantas e animais, ao nível do seu DNA. Estes desenvolvimentos têm vindo a ser acompanhados por tecnologias que permitem a cientistas e às indústrias manipular tudo, desde enzimas a bactérias, plantas e animais. Na prática, a indústria consegue hoje fazer, por exemplo, bioplásticos derivados de óleos de plantas, em detrimento de fontes fósseis. Estes bioplásticos podem ser biodegradáveis (mesmo nos oceanos) ou podem ser produzidos para serem mais duráveis, por exemplo para substituir vidro. A rapidez e as implicações decorrentes da mudança na ciência e na capacidade de produção leva inclusivamente a que alguns se refiram à bioeconomia (que usa fontes bio para tudo na economia) como sendo a Quarta Revolução Industrial.2 Para além da estratégia da UE para a Bioeconomia (apresentada em 2012 e atualizada em 2018), existem políticas setoriais europeias que complementam esta estratégia. Ao nível nacional, os Estados membros da UE também têm vindo a desenvolver estratégias específicas para esta matéria.
Fig.: O papel da biologia sintética para as soluções globais

Fonte: World Economic Forum
As potencialidades da bioeconomia são vastas. A inovação em biotecnologia já tem importância significativa e promete crescer substancialmente ao longo das próximas décadas: “Bio Revolution could have significant impact on economies and our lives, from health and agriculture to consumer goods, and energy and materials”, revela um estudo da McKinsey.3 Na verdade, os avanços tecnológicos e a descida dos custos dos processos têm contribuído para o desenvolvimento de inovações biológicas eficazes e a preços acessíveis. Estima-se que esta área poderá ter um impacto de até $4 triliões de dólares por ano nos próximos 10 a 20 anos, da mesma forma que se estima que até 60% das matérias-primas poderão ser produzidas biologicamente.4
Notas1 Ver European Commission (2022). Report COM/2022/283: Bioeconomy Strategy Progress Report – European Bioeconomy policy: stocktaking and future developments. Disponível em https://knowledge4policy.ec.europa.eu/publication/report-com2022283-eu-bioeconomy-strategy-progress-report-european-bioeconomy-policy_en.2 Ver WEF (2018). How biotechnology is evolving in the Fourth Industrial Revolution. Disponível em https://www.weforum.org/agenda/2018/05/biotechnology-evolve-fourth-industrial-revolution/. 3 Ver McKinsey & Company (2020). The Bio Revolution: Innovations transforming economies, societies, and our lives. Disponível em https://www.mckinsey.com/industries/life-sciences/our-insights/the-bio-revolution-innovations-transforming-economies-societies-and-our-lives. 4 Ver World Economic Forum (2021). Bioeconomy expected to be major source of economic growth. Disponível em https://www.weforum.org/agenda/2021/12/why-sharing-data-and-benefits-is-crucial-for-bioeconomy/. |
Bioeconomia em Portugal
“ o desenvolvimento de produtos de base biológica, tais como químicos, bioplásticos ou novas fibras, deve valorizar ao máximo a biomassa proveniente dos setores primários. Desta forma, consegue-se adicionar valor às matérias que, atualmente, não têm uso ou cujo uso é pouco valorizado. Por sua vez, esta mudança de paradigma e alteração nas cadeias de valor contribuirá para tornar as atividades do setor primário mais eficientes e competitivas. Nesse sentido, o levantamento das disponibilidades de matérias-primas primárias e secundárias e fluxos de materiais entre diferentes setores é fundamental para a criação de simbioses industriais e para uma análise das oportunidades decorrentes da utilização da biomassa de uma forma segura e economicamente viável na criação de uma indústria sustentável de base biológica”.1
Fonte: PABS, p. 28
Portugal apresenta um elevado potencial na área da Bioeconomia, decorrente do facto de deter um forte setor primário nas fileiras florestal, agrícola, das pescas e da aquicultura, setores que contribuem de forma significativa para a economia nacional. Para além disso, tem um extenso território marítimo, dotando-o de elevadas condições de biodiversidade e disponibilidade de recursos de base biológica.2
Em Portugal, a Bioeconomia representa 7% do valor acrescentado bruto (VAB), 12 mil milhões de euros acima dos 4,9% da média europeia.3 Com base nas potencialidades deste modelo enquanto coadjuvante do desenvolvimento sustentável e nas características intrínsecas do país (disponibilidade de recursos de base biológica, localização, geomorfologia e ocupação humana), Portugal apresentou em 2021, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, um Plano de Ação para a Bioeconomia Sustentável – Horizonte 2025 (PABS).4
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