E se a próxima revolução da moda não estivesse numa passerelle, mas numa fábrica portuguesa? Algodão cultivado para recuperar os solos, tecidos tingidos com microrganismos e processos industriais que gastam menos água estão a sair dos laboratórios e a entrar numa indústria que Portugal conhece bem: a têxtil.
Num setor mundial sob pressão para reduzir emissões, desperdício, consumo de água e produtos químicos, a indústria portuguesa está a apostar numa ideia simples: a sustentabilidade pode ser também uma arma de competitividade. É essa transformação que acompanha o estudo «Sustentabilidade na Moda: Inovação e Competitividade em Portugal», da Fundação Francisco Manuel dos Santos, da autoria de Céline Abecassis-Moedas, Laure Leglise e Mariana Pereira Silva.
A pressão é grande. Com um impacto ambiental relevante, a indústria global da moda é responsável por 2% a 8% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa, dependendo das estimativas. Segundo uma das estimativas analisadas no estudo, o setor têxtil e do vestuário foi responsável por mais de dois mil milhões de toneladas de gases com efeito de estufa em 2018, cerca de 4% das emissões globais. A produção de matérias-primas representou 38% das emissões e os processos húmidos, como o tingimento, 15%. Os exemplos de inovação estudados em Portugal são variados: há algodão regenerativo, produzido através de práticas agrícolas que procuram melhorar a saúde dos solos e promover a biodiversidade; poliéster reciclado com tratamento repelente; fibras de ácido polilático (PLA); liocel; tingimento com microrganismos; e acabamentos que permitem reduzir o consumo de água.
O impacto ambiental não está apenas nas emissões. Uma fábrica têxtil de média dimensão, com uma produção de cerca de 8.000 quilos de tecido por dia, pode consumir aproximadamente 1,6 milhões de litros de água diariamente. O tingimento representa, em média, 16% desse consumo e pode gerar até 20% das águas residuais da fábrica. Na produção de vestuário podem ser utilizados mais de 1.900 produtos químicos, dos quais 165 são classificados pela União Europeia como perigosos para a saúde humana ou para o ambiente.
Fonte: Jornal Económico