Uma viagem a três das mais produtivas empresas do Porto
Em Portugal existem apenas 16 mil empresas com uma produtividade global elevada entre 170 mil analisadas.
A conclusão surge num estudo da Informa D&B que, em conjunto com o Negócios, desenvolveu um indicador para avaliar a competitividade das empresas.
Com base neste trabalho, fomos para o terreno conhecer as empresas que a Informa D&B classificou entre as mais produtivas. Uma viagem que começou pelo Porto e seguirá para outros distritos do país.
Nesta região escolhemos três exemplos de áreas distintas, mas que se aproximam pela circunstância de serem uma referência em termos de produtividade. A GEG - Engenharia e Estruturas, a tecnológica Appgeneration e a Livraria Lello mostram que a produtividade é transversal e pode ser alcançada em qualquer área de atividade. Como sublinha a Informa D&B, "analisar a produtividade das empresas é essencial porque revela a eficiência com que transformam recursos em riqueza, permitindo identificar fragilidades, orientar investimentos e reforçar a competitividade".
Paulo Pimenta lidera a GEG, empresa criada em 1987.
Eduardo Carqueja é o CEO da Appgeneration.
Francisca Pedro Pinto é diretora de marca da Lello.
GEG
"Um licenciamento de obra pode durar três ou quatro anos"
A GEG, empresa portuense de engenharia e estruturas, está agora representada em quase todo o mundo. Compete apenas com capitais próprios para assegurar trabalhos de grande relevo na área dos transportes, imobiliário, vias rodoviárias e ferroviárias, edifícios públicos. Está a ganhar o mercado nacional e os internacionais depois de ter ultrapassado uma fase em que "até tínhamos vergonha de aparecer". "Olhavam para nós e diziam: lá vem o FMI".
Há um conjunto amplo de aspetos que contribuem para que diversos estudantes estrangeiros de engenharia procurem fixar-se em Portugal. Existemboas universidades, que possibilitam a progressão académica, qualidade de vida vincada em todos os setores. Depois, talvez o motivo mais determinante, existem empresas dispostas a arriscar, que oferecem a possibilidade de uma carreira feita em diversos pontos do mundo. Uma dessas é a portuense GEG - Engenharia e Estruturas para a Vida. Uma empresa que hoje está consolidada no mercado nacional, mas que também tem raízes cria das em todos os continentes.
Paulo Pimenta, CEO da empresa criada no Porto em 1987, diz ao Negócios que a classifícação de que a empresa foi alvo, sendo considerada um exemplo de produtivida de, resulta de "um projeto sustentado em projetos rodoviários (autoestradas), e diScios públicos, ferrovia, transportes (Metro do Porto) e até estádios de futebol (Dragão)". "Sim, até 2002 tínhamos uma posição relevante assente nos trabalhos realizados em Portugal. Depois, porque criámos uma base sólida, avançámos para os mercados internacionais. Primeiro para Angola, onde tivemos muito trabalho até 2005, mas que agora, sobretudo depois de 2011, se reflete numa presença muito residual. Por outro lado, começámos a tornar-nos consistentes em países como a Líbia, a Arábia Saudita, o Ruanda, Gana, Nigéria, Moçambique, México, El Salvador e Panamá".
"Tivemos de lutar muito, porque ao Porto, para conquistar o seu espaço, sempre foi necessário lutar mais do que Lisboa. Para nos encontramos com os clientes tínhamos sempre de nos deslocar à capital", explica Paulo Pimenta, lembrando os tempos em que a GEG batalhava pela internacionalização.
Atualmente, diz Paulo Pimenta e também o diretor de Desenvolvimento de Negócios, John Daniel, a GEG prospera Movimenta cerca de 20 milhões de euros anuais e a tendência, referem, é para aumentar. Além disso, fruto das conquistas de mercados internacionais, tem conseguido abrir novas empresas em alguns países. É assim que possuem agora instalações e pessoal próprio a trabalhar na Arábia Saudita, Angola, Moçambique, Líbia e Dubai.
Uma eternidade para decidirem Portugal
Os responsáveis da GEG consideram que, atualmente, o mercado português "está muito interessante". Tal significa que o volume de negócios está a aumentar de um modo que tende a inverter uma tendência que se desenhou no início deste século, quando entre 60% e 80% da faturação conseguida era proveniente dos trabalhos no estrangeiro. Mas como não há bela sem senão, há também constrangimentos que se eternizam, sendo a burocracia aquele que mais entraves parece gerar.
"Há grandes investimentos em setores como os transportes, os 'data centers', e os projetos imobiliários. Mas ainda temos um conjunto de obstáculos grandes para ultrapassar. No mercado nacional os licenciamentos e os pareceres demoram sempre muito tempo. Um licenciamento em Portugal pode demorar cerca de quatro anos a ser concedido e isso faz com que muitos investidores acabem por se afastar. Penso que toda estamorosida- de se deve ao facto de os decisores serem cada vez mais visíveis e responsabilizados, acabando muitos por revelar receio de serem acusados", explicam os diretores da GEG.
Já no estrangeiro os principais constrangimentos resultam, na maior parte das vezes, de fatores políticos. Paulo Pimenta conta, por exemplo, que a empresa já teve de retirar trabalhadores de áreas problemáticas. "Aconteceu na Líbia e também no Iraque, em 2015, onde tínhamos dois engenheiros a trabalhar num estádio de futebol."
As guerras que se desenrolam à escala planetária são, igualmente, um travão ao crescimento das empresas de construção. A inflação neste setor, atinge valores muito altos e mesmo o recurso a novas tecnologias, como, por exemplo, a LA, ou a materiais mais sustentáveis (uma das apostas que GEG tem sempre presente) podem não ser suficientes para, por vezes, inverter uma tendência mais negativa "A sustentabilidade é cada vez mais importante. Existe uma efetiva preocupação em garantir a aplicação de bons materiais e, em Portugal, existem boas empresas nessa área. Por outro lado, são efetuadas com frequência auditorias para controlo de qualidade. É um caminho que é para seguir,uma vez que existe cada vez mais recrutar mão de obra", dizem os responsáveis da GEG.
"Há seis ou sete anos até nos sentíamos envergonhados"
Há vários segredos que explicam o sucesso de uma empresa como a GEG. Os seus diretores entendem que a deteção atempada de talentos é fundamental. Para isso são celebrados com frequência protocolos com as universidades de excelência "Ter o nome do país associado a grandes nomes na área da engenharia significa transmitir uma ideia de grande qualidade, e isso ajuda à progressão das empresas."
"Penso que o caminho a seguir é continuarmos a exportar engenharia como área relevante. É isso que muitos outros países fazem e é isso que procuramos fazer. Para que tal resulte é necessário, no entanto, criar condições de todo o género. Na nossa empresa, por exemplo, gastamos anualmente cerca de 15 mil euros anuais em software por cada um dos colaboradores. É fundamental termos pessoas bem preparadas porque só temos a ganhar se tivermos grandes nomes associados. Essa retenção e contração do talento representa, naturalmente, o pagamento de boas remunerações", diz Paulo Pimenta A GEG, dizem os seus diretores, tentaatual- mente recrutar todos os valores nacionais que fizeram nome no estrangeiro, porque tal representa credibilidade. "O aproveitamento da diáspora é essencial", referem.
"Sabe, há seis ou sete anos, até nos sentíamos envergonhados quando íamos a alguns eventos no estrangeiro. Chegávamos e a ideia que tínhamos é que os estrangeiros olhavam para nós e diziam lá vem o FMF. Não tínhamos credibilidade financeira Éramos o país que tinha sido intervencionado. Hoje tudo isso se alterou. Somos um país pequeno, mas que ombreia com os melhores. Só temos de ter presente quais são as nossas limitações", explica o CEO da empresa lembrando que "aGEG avança sempre com capitais próprios". "É uma situação que não se verifica com empresas estrangeiras da mesma área, onde existem fundos do próprio país que lhes permitem avançar para os mais diversos projetos sem estarem dependentes das contas que têm de fazer para pagarem seguros ou arranjar garantias bancárias."
Paulo Pimenta e John Daniel dizem que a situação da engenharia portuguesa tende a evoluir positivamente. Para além dos estágios curriculares celebrados com os melhores alunos na área da engenharia e do apoio a teses de mestrado, há também a tentativa de atrair os talentos estrangeiros. "Temos de fazer tudo para continuarmos a progredir. Os estrangeiros nos nossos quadros são cerca de 15%. As empresas nacionais de grande dimensão não serão mais do que dez, mas de grande qualidade e, por isso, grandes projetos, como o novo aeroporto ou alinha de alta velocidade, só são possíveis com o recurso à contratação no exterior. Hoje existe mais capacidade de recrutar e fazer parcerias, consórcios".
Appgeneration
À conquista do mundo, a produzir jogos e aplicações utilitárias
A Appgeneration é uma daqueles empresas onde se trabalha a pensar quase exclusivamente no mercado internacional. Dos 32 milhões de euros feitos no ano passado, menos de um por cento foram resultado de vendas em Portugal. Esta é a história de uma empresa onde o trabalho pode chegar às 12 horas diárias sem que se dê por tal.
Num passado recente a expressão "aplicações para telemóveis" assemelhava-se muito a algo extra terrestre. Era uma frase quase totalmente desconhecida Um termo relacionado com a tecnologia que, para a maior parte das pessoas do setor, pouco ou nada dizia. Foi para explorar o negócio emergente e que se afigurava como potencialmente muito vantajoso que surgiu a Appgeneration a produzir aplicações utilitárias e também para jogos. Foi há 16 anos, no Porto. Ao princípio, nos dois primeiros anos, não havia lucros e todo o investimento parecia em risco. Hoje a empresa em destaque, por ser uma das mais produtivas a nível nacional, apresenta uma faturação de 32 milhões de euros em 2025 e prepara -se, para no ano em curso, suplantar essa quantia.
"O sucesso é a inevitabilidade de quem falha mil vezes. Aqui não se penaliza quem falha, mas apenas quem não tenta Ninguém é reprimido ou repreendido por falhar, porque sabemos que são as falhas que acabam por conduzir aos bons resultados. Entendemos que quem falha mais rápido é quem mais hipóteses tem de alcançar o êxito mais depressa", explica o CEO e fundador da empresa sediada na Avenida da Boavista, Porto, Eduardo Carqueja
A ideia que tem prevalecido desde o início é a de que para se obter sucesso é necessário tentar o número de vezes necessárias e, mesmo que os desaires se acumulem, isso é visto como mais um passo para se chegar ao êxito. É assim, com essa persistência permanente, que a Appgeneration tem vindo a desenvolver uma quantidade tal de produtos que hoje já estão presentes em aparelhos espalhados por mais de 150 países de todo o mundo e que os conteúdos dos diversos jogos já tenham sido traduzidos em 32 idiomas.
Eduardo Carqueja lembra, no entanto, que nem sempre o sucesso esteve vivo como hoje. "Deixámos de ser uma empresa que trabalhava para outra e avançámos com o nosso projeto. Tínhamos 500 mil euros. Dessa quantia, per demos no primeiro ano cerca de 300 mil. No segundo ano continuámos a perder o que nos restava Falhámos até chegar ao êxito. No início criámos uma plataforma de estudos de mercado e acabávamos por pagar a quem respondia aos inquéritos", explica
"Fomos vender as nossas ideias às maiores empresas nacionais. Fomos ter com a Unicer, a Porto Editora, com todos os jornais e as grandes empresas financeiras. Toda a gente estranhava a nossa ideia de fazer aplicações úteis para telemóveis. Entendiam que bastava disponibilizar os conteúdos nos iPad Os primeiros tempos foram difíceis financeiramente, até porque tínhamos a ideia de ser uma empresa que pagava salários. Começámos com 30 funcionários".
Acertar uma vez em cada cinco já compensa
O responsável da Appgeneration diz que hoje gere um negócio à escala planetária e que os proveitos dessa atividade são consequência de projetos que, por vezes, demoram cerca de dois anos até se imporem. "Falhamos mais de metade das vezes, mas temos consciência de que, em cada cinco tentativas, se obtivermos êxito numa delas, poderemos ter lucro", diz.
Eduardo Carqueja explica que uma das bases do sucesso da empresa passa pela "grande qualidade" das pessoas que a integram. "Temos programadores, técnicos de marketing, designers, gestores de produto, especialistas nas mais diversas componentes. São equipas multidisciplinares. Por norma, cada equipa é constituída por quatro pessoas que desenvolvem, ao longo de cada ano, uma média de dez projetos. Basta que um deles seja bem-sucedido para que tenhamos lucro" explica o responsável, dizendo também que o financiamento da empresa vem, essencialmente, dos proveitos resultantes da publicidade. "Num jogo de telemóvel estão sempre a surgir anúncios. Mesmo que cada um renda um cêntimo, isso é muito relevante, porque nos mais de 150 países onde estamos há sempre muitos milhões de pessoas a jogar. Do total das nossas receitas, 95 por cento são provenientes da publicidade. Temos muitos milhões de utilizadores e isso reflete-se também no número de traduções que temos. São 32 idiomas, alguns bem surpreendentes, como o polaco, o tailandês ou o vietnamita".
Exemplos de sucesso, a My Turner Radio e os jogos de palavras cruzadas movimentam, de acordo com o empresário, qualquer coisa como dez e dois milhões de euros mensais. "São projetos que exigem uma atenção e atualização constante. É por isso que nesta empresa toda agente trabalha muitas horas diárias. Neste momento faço entre dez e doze horas por dia, mas já houve alturas em que trabalhei quinze horas. Por vezes nem damos por isso. Estamos afazer algo que nos cativa e estimula", afirma Eduardo Carqueja.
Mesmo tendo em consideração que os jogos são um fenómeno àes- cala global, o maior sucesso da Appgeneration é, no entanto, uma das chamadas app utilitárias. Trata-se da My Turner Radio, um projeto que já vai no 12.° ano de existência e que permite a qualquer utilizador ouvir a dita estação em qualquer local do mundo onde se encontre. "Tudo o que fazemos é utilizado por milhões de pessoas em todo o mundo, e isso é determinante", diz ainda o responsável da empresa portuense.
A conceção de projetos de dimensão e aceitação mundial faz, em consequência, com que a empresa tente contratar os melhores especialistas nas diversas vertentes. "Naturalmente que pagamos muito acima da média e que atribuímos bónus elevados. Mesmo não tendo uma concorrência nacional, temos de ter em conta que há multinacionais que têm sites em Portugal. Sim, já tivemos gente nossa a ser contratada para ir trabalhar noutros países, nomeadamente para os Estados Unidos da América, para Inglaterra ou Alemanha".
Mercado nacional só vale 1% das receitas
A conceção de jogos e app utilitárias por uma empresa portuguesa é uma atividade quase exclusivamente direcionada para os mercados internacionais. Os responsáveis da Appgeneration dizem que da receita apurada, apenas menos de um por cento é proveniente das vendas nacionais.
"Os grandes utilizadores dos nossos produtos são, sobretudo, os norte-americanos, com um número calculado de cerca de 25 por cento. O resto da Europa corresponde a uma percentagem ligeiramente superior à dos Estados Unidos. Depois temos muitos utilizadores do Brasil, Japão, Coreia, Taiwan. Na Europa destacam-se os ingleses e os alemães", diz Eduardo Carqueja
O empresário diz também que não teme a existência de eventuais casos de pirataria num mercado que é global. "É um mercado quase infinito, onde existem cerca de 100 mil jogos diferentes. Não existe proteção da propriedade intelectual. Nesta atividade o mais difícil é executar. O mercado está em constante mutação, mas é confiável e o sucesso de cada empresa depende da boa execução dos produtos. Não se pirateia software. Por tudo isso entendo que não há motivo para ter medo de que alguém se aproprie de uma ideia que desenvolvemos", afirma
"A tecnologia move-se à velocidade da luz. Nós já usamos pesadamente a inteligência artificial (LA) que, podendo ser uma ameaça, é também uma oportunidade. Daqui por cinco anos, por exemplo, o photoshop não existe, pois será ultrapassado pela LA", conclui o responsável da Appgeneration.
Livraria Lello
O livro é uma ferramenta económica, cultural e cívica
A Livraria Lello é uma bandeira do Porto que procura ainda atingir maior notoriedade nos mais de 200 países de onde provêem os seus visitantes. Mais do que um símbolo cinematográfico, trata-se de um espaço que conjuga as características arquitetónicas com a vontade de acrescentar valores capazes de chegar, por exemplo, a escolas, hospitais ou estabelecimentos prisionais.
Como é que se pode contar uma história de sucesso? Talvez, entre outros aspetos, com números. É esse o caso da Livraria Lello, instituição portuense, mas reconhecida em todo o mundo. Há dez anos, mesmo com um grande número de visitantes, a empresa apenas vendia um livro a cada dez pessoas. Hoje, as vendas subiram para mais de um milhão e estima-se que sete em cada dez visitantes saiam do emblemático espaço com uma obra adquirida.
"Transformámos os visitantes em leitores", sintetiza a diretora da Marca Livraria Lello Porto, Francisca Pedro Pinto, lembrando que a instituição, já com 120 anos, deixou de ser apenas um espaço museológico, capaz de atrair realizadores de filmes e documentários, para voltar a vestir a farda de agente cultural, onde os livros são novamente o ponto central de uma operação que conta, anualmente, com compradores oriundos de mais de 200 países.
Francisca Pedro Pinto, mesmo sem descurar as filas de visitantes que diariamente se formam continuamente junto à livraria, por vezes aguardando mais de meia hora até poderem visitar o espaço, releva o facto de os 60 colaboradores da empresa serem hoje parte ativa na venda dos livros. "Atualmente cerca de 70% dos visitantes saem da livraria com um livro, o que demonstra que é possível conciliar relevância cultural, sustentabilidade económica e crescimento", diz aquela responsável adiantando ainda que para o ano em curso se vai iniciar uma nova fase, com a expansão da livraria, num projeto assinado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira. Ao mesmo tempo, será apresentado o festival Babell, cidade-livro, um projeto que procura pensar as publicações escritas como ferramentas de transformação da cidade.
Sobre a distinção, que faz da Lello uma das empresas que melhor índice de produtividade atingiram no ano transato, a diretora diz que é um prémio "que valida um caminho que temos vindo a construir ao longo dos últimos anos e reforça a convicção de que é possível desenvolver modelos de negócio culturalmente relevantes e economicamente sustentáveis".
"Quando começámos a vender 'ticket-vouchers' online, em 2017, menos de cinco por cento das vendas eram digitais. A grande maioria era realizada fisicamente. Hoje, cerca de 95% das vendas são feitas online", diz Francisca Pedro Pinto, explicando assim uma das causas que mais contribuíram para o avanço da empresa na última década. "Permitiu-nos conhecer melhor os nossos visitantes, antecipar comportamentos, melhorar o planeamento da operação e aumentar a produtividade das equipas. Passámos a tomar decisões com base em dados e não apenas em perceções. Para muitos visitantes somos o primeiro contacto com Portugal e com a sua cultura e os seus autores", acrescenta
"Pensamos para além da operação diária", refere ainda a responsável da empresa, lembrando que "encaramos o livro como uma ferramenta económica, cultural e cívica. Económica, porque gera valor e sustenta uma cadeia de atividade. Cultural, porque aproxima pessoas da leitura Cívica, porque contribui para formar pensamento crítico e cidadania".
Afirmar o Porto como cidade internacional do livro
Para uma empresa como a Lello, que já faz parte do roteiro turístico do Porto e que se assume como um elo de ligação a diversos territórios culturais, a afirmação da cidade como uma das grandes cidades internacionais do livro é uma das principais ambições do futuro próximo.
"Durante muitos anos o sucesso turístico mediu-se, sobretudo, pelo número de visitantes. Agora, acreditamos que as cidades mais competitivas serão aquelas que conseguem atrair talento, criatividade, conhecimento e públicos culturalmente curiosos", refere a diretora, explicando que foi partir desse pressuposto que nasceu a ideia de realizar o Babell. "Trata-se de uma estratégia de posicionamento da cidade. Ao reunir durante uma semana algumas das vozes, mas relevantes da literatura, da ciência, da filosofia e das artes, procuramos criar razões para que as pessoas permaneçam mais tempo no Porto, descubram diferentes espaços culturais, regressem e construam uma relação mais profunda com a cidade. No fundo, o mercado que pretendemos conquistar não é apenas o dos leitores. É o das pessoas que procuram ideias, significado e experiências culturais transformadoras".
Do Porto para o mundo é uma ideia que se impõe. A competição é, no entanto, acirrada e o Negócios pretende, por exemplo, saber se existem condições para que a Lello possa competir com outras grandes empresas de maior dimensão, como as brasileiras. Francisca Pedro Pinto não tem dúvidas: "A competitividade não depende apenas da dimensão. Depende da capacidade de criar valor."
"Ao longo dos últimos anos, a Livraria Lello procurou construir uma proposta única que combina património, edição, turismo cultural, programação, design e experiência Não competimos apenas no mercado do livro. Competimos na capacidade de transformar cultura em valor económico, social e territorial", acentua "A nossa ambição não é ser maior do que os outros. E demonstrar que o livro, a cultura e o pensamento podem ser motores de competitividade económica e de desenvolvimento para uma cidade e um país".
A IA e a sustentabilidade
Os responsáveis acreditam que o recurso à inteligência artificial (LA) pode ser muito relevante em toda a cadeia de valor do livro. E por isso que a ferramenta já faz parte do quotidiano, sendo utilizada para apoiar processos de pesquisa, análise de informação, organização de conhecimento e tomada de decisão. E, dizem, um auxiliar preciso para aumentar a produtividade e libertar as equipas de tarefas mais produtivas.
A diretora da livraria refere que a LA pode ter um papel importante ao tornar a informação mais acessível, mas, ao mesmo tempo, garante que "o papel dos livreiros se tornará ainda mais relevante". "Uma inteligência artificial pode recomendar um livro. Um livreiro consegue compreender quem é a pessoa que tem à sua frente, o que procura naquele momento e de que forma a literatura pode criar uma ponte para a cidade, para a cultura portuguesa ou para uma nova forma de olhar o mundo."
Por fim, Francisca Pedro Pinto aborda a questão da sustentabilidade, apontando-a como "uma responsabilidade transversal à organização". "Está presente na forma como desenvolvemos produtos, escolhemos fornecedores, gerimos a operação e nos relacionamos com a comunidade", frisa
Para a responsável da Lello, a sustentabilidade é também uma forma de a empresa atingir uma dimensão humana especial. "Desenvolvemos iniciativas de promoção de leitura junto de públicos mais vulneráveis, através da doação regular de livros a escolas, instituições sociais, hospitais e estabelecimentos prisionais. Mantemos um clube de leitura com seniores que procura combater o isolamento social e o idadismo através dos livros e da partilha de experiências".
Em Portugal existem apenas 16 mil empresas com uma produtividade global elevada entre 170 mil analisadas.
A conclusão surge num estudo da Informa D&B que, em conjunto com o Negócios, desenvolveu um indicador para avaliar a competitividade das empresas.
Com base neste trabalho, fomos para o terreno conhecer as empresas que a Informa D&B classificou entre as mais produtivas. Uma viagem que começou pelo Porto e seguirá para outros distritos do país.
Nesta região escolhemos três exemplos de áreas distintas, mas que se aproximam pela circunstância de serem uma referência em termos de produtividade. A GEG - Engenharia e Estruturas, a tecnológica Appgeneration e a Livraria Lello mostram que a produtividade é transversal e pode ser alcançada em qualquer área de atividade. Como sublinha a Informa D&B, "analisar a produtividade das empresas é essencial porque revela a eficiência com que transformam recursos em riqueza, permitindo identificar fragilidades, orientar investimentos e reforçar a competitividade".
Paulo Pimenta lidera a GEG, empresa criada em 1987.
Eduardo Carqueja é o CEO da Appgeneration.
Francisca Pedro Pinto é diretora de marca da Lello.
GEG
"Um licenciamento de obra pode durar três ou quatro anos"
A GEG, empresa portuense de engenharia e estruturas, está agora representada em quase todo o mundo. Compete apenas com capitais próprios para assegurar trabalhos de grande relevo na área dos transportes, imobiliário, vias rodoviárias e ferroviárias, edifícios públicos. Está a ganhar o mercado nacional e os internacionais depois de ter ultrapassado uma fase em que "até tínhamos vergonha de aparecer". "Olhavam para nós e diziam: lá vem o FMI".
Há um conjunto amplo de aspetos que contribuem para que diversos estudantes estrangeiros de engenharia procurem fixar-se em Portugal. Existemboas universidades, que possibilitam a progressão académica, qualidade de vida vincada em todos os setores. Depois, talvez o motivo mais determinante, existem empresas dispostas a arriscar, que oferecem a possibilidade de uma carreira feita em diversos pontos do mundo. Uma dessas é a portuense GEG - Engenharia e Estruturas para a Vida. Uma empresa que hoje está consolidada no mercado nacional, mas que também tem raízes cria das em todos os continentes.
Paulo Pimenta, CEO da empresa criada no Porto em 1987, diz ao Negócios que a classifícação de que a empresa foi alvo, sendo considerada um exemplo de produtivida de, resulta de "um projeto sustentado em projetos rodoviários (autoestradas), e diScios públicos, ferrovia, transportes (Metro do Porto) e até estádios de futebol (Dragão)". "Sim, até 2002 tínhamos uma posição relevante assente nos trabalhos realizados em Portugal. Depois, porque criámos uma base sólida, avançámos para os mercados internacionais. Primeiro para Angola, onde tivemos muito trabalho até 2005, mas que agora, sobretudo depois de 2011, se reflete numa presença muito residual. Por outro lado, começámos a tornar-nos consistentes em países como a Líbia, a Arábia Saudita, o Ruanda, Gana, Nigéria, Moçambique, México, El Salvador e Panamá".
"Tivemos de lutar muito, porque ao Porto, para conquistar o seu espaço, sempre foi necessário lutar mais do que Lisboa. Para nos encontramos com os clientes tínhamos sempre de nos deslocar à capital", explica Paulo Pimenta, lembrando os tempos em que a GEG batalhava pela internacionalização.
Atualmente, diz Paulo Pimenta e também o diretor de Desenvolvimento de Negócios, John Daniel, a GEG prospera Movimenta cerca de 20 milhões de euros anuais e a tendência, referem, é para aumentar. Além disso, fruto das conquistas de mercados internacionais, tem conseguido abrir novas empresas em alguns países. É assim que possuem agora instalações e pessoal próprio a trabalhar na Arábia Saudita, Angola, Moçambique, Líbia e Dubai.
Uma eternidade para decidirem Portugal
Os responsáveis da GEG consideram que, atualmente, o mercado português "está muito interessante". Tal significa que o volume de negócios está a aumentar de um modo que tende a inverter uma tendência que se desenhou no início deste século, quando entre 60% e 80% da faturação conseguida era proveniente dos trabalhos no estrangeiro. Mas como não há bela sem senão, há também constrangimentos que se eternizam, sendo a burocracia aquele que mais entraves parece gerar.
"Há grandes investimentos em setores como os transportes, os 'data centers', e os projetos imobiliários. Mas ainda temos um conjunto de obstáculos grandes para ultrapassar. No mercado nacional os licenciamentos e os pareceres demoram sempre muito tempo. Um licenciamento em Portugal pode demorar cerca de quatro anos a ser concedido e isso faz com que muitos investidores acabem por se afastar. Penso que toda estamorosida- de se deve ao facto de os decisores serem cada vez mais visíveis e responsabilizados, acabando muitos por revelar receio de serem acusados", explicam os diretores da GEG.
Já no estrangeiro os principais constrangimentos resultam, na maior parte das vezes, de fatores políticos. Paulo Pimenta conta, por exemplo, que a empresa já teve de retirar trabalhadores de áreas problemáticas. "Aconteceu na Líbia e também no Iraque, em 2015, onde tínhamos dois engenheiros a trabalhar num estádio de futebol."
As guerras que se desenrolam à escala planetária são, igualmente, um travão ao crescimento das empresas de construção. A inflação neste setor, atinge valores muito altos e mesmo o recurso a novas tecnologias, como, por exemplo, a LA, ou a materiais mais sustentáveis (uma das apostas que GEG tem sempre presente) podem não ser suficientes para, por vezes, inverter uma tendência mais negativa "A sustentabilidade é cada vez mais importante. Existe uma efetiva preocupação em garantir a aplicação de bons materiais e, em Portugal, existem boas empresas nessa área. Por outro lado, são efetuadas com frequência auditorias para controlo de qualidade. É um caminho que é para seguir,uma vez que existe cada vez mais recrutar mão de obra", dizem os responsáveis da GEG.
"Há seis ou sete anos até nos sentíamos envergonhados"
Há vários segredos que explicam o sucesso de uma empresa como a GEG. Os seus diretores entendem que a deteção atempada de talentos é fundamental. Para isso são celebrados com frequência protocolos com as universidades de excelência "Ter o nome do país associado a grandes nomes na área da engenharia significa transmitir uma ideia de grande qualidade, e isso ajuda à progressão das empresas."
"Penso que o caminho a seguir é continuarmos a exportar engenharia como área relevante. É isso que muitos outros países fazem e é isso que procuramos fazer. Para que tal resulte é necessário, no entanto, criar condições de todo o género. Na nossa empresa, por exemplo, gastamos anualmente cerca de 15 mil euros anuais em software por cada um dos colaboradores. É fundamental termos pessoas bem preparadas porque só temos a ganhar se tivermos grandes nomes associados. Essa retenção e contração do talento representa, naturalmente, o pagamento de boas remunerações", diz Paulo Pimenta A GEG, dizem os seus diretores, tentaatual- mente recrutar todos os valores nacionais que fizeram nome no estrangeiro, porque tal representa credibilidade. "O aproveitamento da diáspora é essencial", referem.
"Sabe, há seis ou sete anos, até nos sentíamos envergonhados quando íamos a alguns eventos no estrangeiro. Chegávamos e a ideia que tínhamos é que os estrangeiros olhavam para nós e diziam lá vem o FMF. Não tínhamos credibilidade financeira Éramos o país que tinha sido intervencionado. Hoje tudo isso se alterou. Somos um país pequeno, mas que ombreia com os melhores. Só temos de ter presente quais são as nossas limitações", explica o CEO da empresa lembrando que "aGEG avança sempre com capitais próprios". "É uma situação que não se verifica com empresas estrangeiras da mesma área, onde existem fundos do próprio país que lhes permitem avançar para os mais diversos projetos sem estarem dependentes das contas que têm de fazer para pagarem seguros ou arranjar garantias bancárias."
Paulo Pimenta e John Daniel dizem que a situação da engenharia portuguesa tende a evoluir positivamente. Para além dos estágios curriculares celebrados com os melhores alunos na área da engenharia e do apoio a teses de mestrado, há também a tentativa de atrair os talentos estrangeiros. "Temos de fazer tudo para continuarmos a progredir. Os estrangeiros nos nossos quadros são cerca de 15%. As empresas nacionais de grande dimensão não serão mais do que dez, mas de grande qualidade e, por isso, grandes projetos, como o novo aeroporto ou alinha de alta velocidade, só são possíveis com o recurso à contratação no exterior. Hoje existe mais capacidade de recrutar e fazer parcerias, consórcios".
Appgeneration
À conquista do mundo, a produzir jogos e aplicações utilitárias
A Appgeneration é uma daqueles empresas onde se trabalha a pensar quase exclusivamente no mercado internacional. Dos 32 milhões de euros feitos no ano passado, menos de um por cento foram resultado de vendas em Portugal. Esta é a história de uma empresa onde o trabalho pode chegar às 12 horas diárias sem que se dê por tal.
Num passado recente a expressão "aplicações para telemóveis" assemelhava-se muito a algo extra terrestre. Era uma frase quase totalmente desconhecida Um termo relacionado com a tecnologia que, para a maior parte das pessoas do setor, pouco ou nada dizia. Foi para explorar o negócio emergente e que se afigurava como potencialmente muito vantajoso que surgiu a Appgeneration a produzir aplicações utilitárias e também para jogos. Foi há 16 anos, no Porto. Ao princípio, nos dois primeiros anos, não havia lucros e todo o investimento parecia em risco. Hoje a empresa em destaque, por ser uma das mais produtivas a nível nacional, apresenta uma faturação de 32 milhões de euros em 2025 e prepara -se, para no ano em curso, suplantar essa quantia.
"O sucesso é a inevitabilidade de quem falha mil vezes. Aqui não se penaliza quem falha, mas apenas quem não tenta Ninguém é reprimido ou repreendido por falhar, porque sabemos que são as falhas que acabam por conduzir aos bons resultados. Entendemos que quem falha mais rápido é quem mais hipóteses tem de alcançar o êxito mais depressa", explica o CEO e fundador da empresa sediada na Avenida da Boavista, Porto, Eduardo Carqueja
A ideia que tem prevalecido desde o início é a de que para se obter sucesso é necessário tentar o número de vezes necessárias e, mesmo que os desaires se acumulem, isso é visto como mais um passo para se chegar ao êxito. É assim, com essa persistência permanente, que a Appgeneration tem vindo a desenvolver uma quantidade tal de produtos que hoje já estão presentes em aparelhos espalhados por mais de 150 países de todo o mundo e que os conteúdos dos diversos jogos já tenham sido traduzidos em 32 idiomas.
Eduardo Carqueja lembra, no entanto, que nem sempre o sucesso esteve vivo como hoje. "Deixámos de ser uma empresa que trabalhava para outra e avançámos com o nosso projeto. Tínhamos 500 mil euros. Dessa quantia, per demos no primeiro ano cerca de 300 mil. No segundo ano continuámos a perder o que nos restava Falhámos até chegar ao êxito. No início criámos uma plataforma de estudos de mercado e acabávamos por pagar a quem respondia aos inquéritos", explica
"Fomos vender as nossas ideias às maiores empresas nacionais. Fomos ter com a Unicer, a Porto Editora, com todos os jornais e as grandes empresas financeiras. Toda a gente estranhava a nossa ideia de fazer aplicações úteis para telemóveis. Entendiam que bastava disponibilizar os conteúdos nos iPad Os primeiros tempos foram difíceis financeiramente, até porque tínhamos a ideia de ser uma empresa que pagava salários. Começámos com 30 funcionários".
Acertar uma vez em cada cinco já compensa
O responsável da Appgeneration diz que hoje gere um negócio à escala planetária e que os proveitos dessa atividade são consequência de projetos que, por vezes, demoram cerca de dois anos até se imporem. "Falhamos mais de metade das vezes, mas temos consciência de que, em cada cinco tentativas, se obtivermos êxito numa delas, poderemos ter lucro", diz.
Eduardo Carqueja explica que uma das bases do sucesso da empresa passa pela "grande qualidade" das pessoas que a integram. "Temos programadores, técnicos de marketing, designers, gestores de produto, especialistas nas mais diversas componentes. São equipas multidisciplinares. Por norma, cada equipa é constituída por quatro pessoas que desenvolvem, ao longo de cada ano, uma média de dez projetos. Basta que um deles seja bem-sucedido para que tenhamos lucro" explica o responsável, dizendo também que o financiamento da empresa vem, essencialmente, dos proveitos resultantes da publicidade. "Num jogo de telemóvel estão sempre a surgir anúncios. Mesmo que cada um renda um cêntimo, isso é muito relevante, porque nos mais de 150 países onde estamos há sempre muitos milhões de pessoas a jogar. Do total das nossas receitas, 95 por cento são provenientes da publicidade. Temos muitos milhões de utilizadores e isso reflete-se também no número de traduções que temos. São 32 idiomas, alguns bem surpreendentes, como o polaco, o tailandês ou o vietnamita".
Exemplos de sucesso, a My Turner Radio e os jogos de palavras cruzadas movimentam, de acordo com o empresário, qualquer coisa como dez e dois milhões de euros mensais. "São projetos que exigem uma atenção e atualização constante. É por isso que nesta empresa toda agente trabalha muitas horas diárias. Neste momento faço entre dez e doze horas por dia, mas já houve alturas em que trabalhei quinze horas. Por vezes nem damos por isso. Estamos afazer algo que nos cativa e estimula", afirma Eduardo Carqueja.
Mesmo tendo em consideração que os jogos são um fenómeno àes- cala global, o maior sucesso da Appgeneration é, no entanto, uma das chamadas app utilitárias. Trata-se da My Turner Radio, um projeto que já vai no 12.° ano de existência e que permite a qualquer utilizador ouvir a dita estação em qualquer local do mundo onde se encontre. "Tudo o que fazemos é utilizado por milhões de pessoas em todo o mundo, e isso é determinante", diz ainda o responsável da empresa portuense.
A conceção de projetos de dimensão e aceitação mundial faz, em consequência, com que a empresa tente contratar os melhores especialistas nas diversas vertentes. "Naturalmente que pagamos muito acima da média e que atribuímos bónus elevados. Mesmo não tendo uma concorrência nacional, temos de ter em conta que há multinacionais que têm sites em Portugal. Sim, já tivemos gente nossa a ser contratada para ir trabalhar noutros países, nomeadamente para os Estados Unidos da América, para Inglaterra ou Alemanha".
Mercado nacional só vale 1% das receitas
A conceção de jogos e app utilitárias por uma empresa portuguesa é uma atividade quase exclusivamente direcionada para os mercados internacionais. Os responsáveis da Appgeneration dizem que da receita apurada, apenas menos de um por cento é proveniente das vendas nacionais.
"Os grandes utilizadores dos nossos produtos são, sobretudo, os norte-americanos, com um número calculado de cerca de 25 por cento. O resto da Europa corresponde a uma percentagem ligeiramente superior à dos Estados Unidos. Depois temos muitos utilizadores do Brasil, Japão, Coreia, Taiwan. Na Europa destacam-se os ingleses e os alemães", diz Eduardo Carqueja
O empresário diz também que não teme a existência de eventuais casos de pirataria num mercado que é global. "É um mercado quase infinito, onde existem cerca de 100 mil jogos diferentes. Não existe proteção da propriedade intelectual. Nesta atividade o mais difícil é executar. O mercado está em constante mutação, mas é confiável e o sucesso de cada empresa depende da boa execução dos produtos. Não se pirateia software. Por tudo isso entendo que não há motivo para ter medo de que alguém se aproprie de uma ideia que desenvolvemos", afirma
"A tecnologia move-se à velocidade da luz. Nós já usamos pesadamente a inteligência artificial (LA) que, podendo ser uma ameaça, é também uma oportunidade. Daqui por cinco anos, por exemplo, o photoshop não existe, pois será ultrapassado pela LA", conclui o responsável da Appgeneration.
Livraria Lello
O livro é uma ferramenta económica, cultural e cívica
A Livraria Lello é uma bandeira do Porto que procura ainda atingir maior notoriedade nos mais de 200 países de onde provêem os seus visitantes. Mais do que um símbolo cinematográfico, trata-se de um espaço que conjuga as características arquitetónicas com a vontade de acrescentar valores capazes de chegar, por exemplo, a escolas, hospitais ou estabelecimentos prisionais.
Como é que se pode contar uma história de sucesso? Talvez, entre outros aspetos, com números. É esse o caso da Livraria Lello, instituição portuense, mas reconhecida em todo o mundo. Há dez anos, mesmo com um grande número de visitantes, a empresa apenas vendia um livro a cada dez pessoas. Hoje, as vendas subiram para mais de um milhão e estima-se que sete em cada dez visitantes saiam do emblemático espaço com uma obra adquirida.
"Transformámos os visitantes em leitores", sintetiza a diretora da Marca Livraria Lello Porto, Francisca Pedro Pinto, lembrando que a instituição, já com 120 anos, deixou de ser apenas um espaço museológico, capaz de atrair realizadores de filmes e documentários, para voltar a vestir a farda de agente cultural, onde os livros são novamente o ponto central de uma operação que conta, anualmente, com compradores oriundos de mais de 200 países.
Francisca Pedro Pinto, mesmo sem descurar as filas de visitantes que diariamente se formam continuamente junto à livraria, por vezes aguardando mais de meia hora até poderem visitar o espaço, releva o facto de os 60 colaboradores da empresa serem hoje parte ativa na venda dos livros. "Atualmente cerca de 70% dos visitantes saem da livraria com um livro, o que demonstra que é possível conciliar relevância cultural, sustentabilidade económica e crescimento", diz aquela responsável adiantando ainda que para o ano em curso se vai iniciar uma nova fase, com a expansão da livraria, num projeto assinado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira. Ao mesmo tempo, será apresentado o festival Babell, cidade-livro, um projeto que procura pensar as publicações escritas como ferramentas de transformação da cidade.
Sobre a distinção, que faz da Lello uma das empresas que melhor índice de produtividade atingiram no ano transato, a diretora diz que é um prémio "que valida um caminho que temos vindo a construir ao longo dos últimos anos e reforça a convicção de que é possível desenvolver modelos de negócio culturalmente relevantes e economicamente sustentáveis".
"Quando começámos a vender 'ticket-vouchers' online, em 2017, menos de cinco por cento das vendas eram digitais. A grande maioria era realizada fisicamente. Hoje, cerca de 95% das vendas são feitas online", diz Francisca Pedro Pinto, explicando assim uma das causas que mais contribuíram para o avanço da empresa na última década. "Permitiu-nos conhecer melhor os nossos visitantes, antecipar comportamentos, melhorar o planeamento da operação e aumentar a produtividade das equipas. Passámos a tomar decisões com base em dados e não apenas em perceções. Para muitos visitantes somos o primeiro contacto com Portugal e com a sua cultura e os seus autores", acrescenta
"Pensamos para além da operação diária", refere ainda a responsável da empresa, lembrando que "encaramos o livro como uma ferramenta económica, cultural e cívica. Económica, porque gera valor e sustenta uma cadeia de atividade. Cultural, porque aproxima pessoas da leitura Cívica, porque contribui para formar pensamento crítico e cidadania".
Afirmar o Porto como cidade internacional do livro
Para uma empresa como a Lello, que já faz parte do roteiro turístico do Porto e que se assume como um elo de ligação a diversos territórios culturais, a afirmação da cidade como uma das grandes cidades internacionais do livro é uma das principais ambições do futuro próximo.
"Durante muitos anos o sucesso turístico mediu-se, sobretudo, pelo número de visitantes. Agora, acreditamos que as cidades mais competitivas serão aquelas que conseguem atrair talento, criatividade, conhecimento e públicos culturalmente curiosos", refere a diretora, explicando que foi partir desse pressuposto que nasceu a ideia de realizar o Babell. "Trata-se de uma estratégia de posicionamento da cidade. Ao reunir durante uma semana algumas das vozes, mas relevantes da literatura, da ciência, da filosofia e das artes, procuramos criar razões para que as pessoas permaneçam mais tempo no Porto, descubram diferentes espaços culturais, regressem e construam uma relação mais profunda com a cidade. No fundo, o mercado que pretendemos conquistar não é apenas o dos leitores. É o das pessoas que procuram ideias, significado e experiências culturais transformadoras".
Do Porto para o mundo é uma ideia que se impõe. A competição é, no entanto, acirrada e o Negócios pretende, por exemplo, saber se existem condições para que a Lello possa competir com outras grandes empresas de maior dimensão, como as brasileiras. Francisca Pedro Pinto não tem dúvidas: "A competitividade não depende apenas da dimensão. Depende da capacidade de criar valor."
"Ao longo dos últimos anos, a Livraria Lello procurou construir uma proposta única que combina património, edição, turismo cultural, programação, design e experiência Não competimos apenas no mercado do livro. Competimos na capacidade de transformar cultura em valor económico, social e territorial", acentua "A nossa ambição não é ser maior do que os outros. E demonstrar que o livro, a cultura e o pensamento podem ser motores de competitividade económica e de desenvolvimento para uma cidade e um país".
A IA e a sustentabilidade
Os responsáveis acreditam que o recurso à inteligência artificial (LA) pode ser muito relevante em toda a cadeia de valor do livro. E por isso que a ferramenta já faz parte do quotidiano, sendo utilizada para apoiar processos de pesquisa, análise de informação, organização de conhecimento e tomada de decisão. E, dizem, um auxiliar preciso para aumentar a produtividade e libertar as equipas de tarefas mais produtivas.
A diretora da livraria refere que a LA pode ter um papel importante ao tornar a informação mais acessível, mas, ao mesmo tempo, garante que "o papel dos livreiros se tornará ainda mais relevante". "Uma inteligência artificial pode recomendar um livro. Um livreiro consegue compreender quem é a pessoa que tem à sua frente, o que procura naquele momento e de que forma a literatura pode criar uma ponte para a cidade, para a cultura portuguesa ou para uma nova forma de olhar o mundo."
Por fim, Francisca Pedro Pinto aborda a questão da sustentabilidade, apontando-a como "uma responsabilidade transversal à organização". "Está presente na forma como desenvolvemos produtos, escolhemos fornecedores, gerimos a operação e nos relacionamos com a comunidade", frisa
Para a responsável da Lello, a sustentabilidade é também uma forma de a empresa atingir uma dimensão humana especial. "Desenvolvemos iniciativas de promoção de leitura junto de públicos mais vulneráveis, através da doação regular de livros a escolas, instituições sociais, hospitais e estabelecimentos prisionais. Mantemos um clube de leitura com seniores que procura combater o isolamento social e o idadismo através dos livros e da partilha de experiências".