A conjuntura atual do ecossistema de centros de dados (data centers) em França demonstra um claro crescimento em processamento e em capacidades. O parque francês de centros de dados cresceu acentuadamente nos últimos anos, passando de cerca de 200 implantações em 2020 para cerca de 350 atualmente, e com muitos projetos adicionais anunciados.
Este tema tornou-se uma prioridade política levando o governo a reformular a sua estratégia para acelerar as instalações criando uma lei de simplificação que permitiu classificar os grandes centros de dados como projetos de “grande interesse nacional” (PINM – Projet d’Intérêt National Majeur), visando reduzir os prazos de autorização e facilitar as interligações. Esta simplificação administrativa e o estatuto PINM irão a reduzir os prazos de implementação e incentivar novos investimentos.
Também foram realizados relatórios sectoriais que propõem medidas operacionais (19 alavancas identificadas por um grupo de trabalho - France Datacenter e o Grupo Iliad) para tentar remover os obstáculos relacionados com o imobiliário, energia e logística. Adicionalmente, tem-se procedido à aceleração das ligações elétricas com a mudança para uma lógica de ligação "primeiro a chegar, primeiro a ser servido"; o alinhamento da tributação da eletricidade para os centros de dados com a dos agentes “eletro-sensíveis”; o desenvolvimento de mecanismos que promovam a conversão de áreas industriais abandonadas para escolherem novas infraestruturas digitais. Na cimeira da IA em 2025, a França anunciou 109 mil milhões de euros para a criação de novos centros de dados e desde aí foram propostos às empresas 63 sítios industriais para implantação de novos projetos.
Os investimentos são massivos e muitas vezes oriundos de participantes internacionais. Importantes financiamentos públicos e privados (planos relacionados com a IA que ascendem a dezenas de milhares de milhões) atraem hyperscalers e fundos estrangeiros. Muitos projetos são liderados ou financiados por empresas americanas, canadianas ou do Golfo.
A última edição 2026 da cimeira “Choose France” (dedicada à atração de investimento estrangeiro em França), foi marcada por impressionantes promessas de investimento para satisfazer as necessidades de infraestrutura de inteligência artificial e de computação em nuvem. O anúncio de destaque foi, sem dúvida, o do japonês Softbank, que planeia investir 75 mil milhões de euros em infraestruturas de inteligência artificial. São montantes colossais para capacidades igualmente massivas, uma vez que a primeira fase prevê a instalação de 3,1 gigawatts na região de Hauts-de-France (Dunkerque, Bosquel e Bouchain) até 2031, com um investimento de 45 mil milhões de euros.
O fundo francês Ardian, através da sua subsidiária “Verne”, planeia construir um "campus de infraestruturas digitais" com uma capacidade prevista de 500 megawatts (MW), incluindo uma parcela inicial de 250 MW até 2030.
Também o grupo holandês Nebius, novo ator no setor dos centros de dados que surgiu em pleno “boom” da inteligência artificial, destaca-se na transformação do antigo complexo industrial da Bridgestone em Béthune (Hauts-de-France) num vasto centro de computação dedicado à IA. Este grupo anunciou, em fevereiro, um projeto de 240 MW e na Choose France, a empresa revelou um novo investimento de 8 mil milhões de euros, que se somam aos muitos outros mil milhões já anunciados nos últimos meses. A expectativa é que o complexo crie aproximadamente 120 postos de trabalho.
Em termos políticos, França dá mostrar de estar de braços abertos para os centros de dados. Na cimeira “Choose France”, Emmanuel Macron anunciou, na segunda-feira, 1 de junho, no total um investimento estrangeiro recorde de 93 mil milhões de euros para os próximos anos.
A atratividade da França para este tipo de infraestruturas é dinamizada pelo facto que o país dispõe de uma importante rede de centrais nucleares que fornecem a eletricidade necessária para abastecer estas instalações que consomem muita energia. Esta é uma boa notícia para a produtora nacional EDF, que elogiou em comunicado de imprensa "a capacidade da França em acolher infraestruturas digitais em grande escala graças à eletricidade competitiva, soberana e de baixo carbono". A EDF e a operadora da rede de alta tensão RTE apresentaram, recentemente, 35 locais de implantação "prontos a usar", concebidos para alojar centros de dados dedicados à IA, incluindo cerca de dez de alta capacidade.
Mas todos estes anúncios são fontes de tensões e protestos locais. A instalação de centros de dados (por exemplo, o projeto da Google perto de Châteauroux) gera oposição local em relação aos terrenos, ao consumo de água, ao grande consumo de energia e neste caso à soberania digital. As mobilizações dos cidadãos são cada vez mais frequentes, com recursos administrativos e debates públicos. A oposição local estruturada (coletivos, ONG, autoridades eleitas) impõe uma dimensão social e informativa aos projetos: entendimento prévio, estudos de impacto e transparência tornam-se cada vez mais pré-requisitos. Também os desafios energéticos e ambientais relacionados com a forte procura de eletricidade ou a necessidade de arrefecimento dos centros de dados levam ONG e numerosos relatórios a alertar sobre a pegada carbono e a sustentabilidade dos projetos no horizonte de 2030 a 2060. As autoridades e as ONG exigem garantias de sobriedade, eficiência e compensação de carbono.
Por outro lado, esta dinâmica, cria oportunidades para empresas, fornecedores ou parceiros estrangeiros: tratando-se de sítios industriais, todos os aspetos ligados à construção, equipamento e gestão poderão ser alvo de fornecimentos exteriores; empresas de construção civil, construção de pavilhões (construção metálica), instalações elétricas e AVAC (equipamentos de arrefecimento e gestão térmica: soluções de baixo consumo de água, free‑cooling, arrefecimento líquido para GPUs, recuperação útil de calor etc.); ou fornecedores de equipamentos como inversores de alta eficiência, baterias, soluções de armazenamento de energia, racks GPU, etc., bem como empresas de serviços, por exemplo softwares de otimização, gestão de carga operacional, serviços de Green IT, cibersegurança.
A França tornou-se assim num mercado em rápida expansão para os centros de dados, impulsionado pela IA e por investimentos públicos massivos e pela disponibilidade elétrica, apesar dos desafios ambientais e sociais existentes.