Ambiente gelado que se faz sentir é o normal para esta altura do ano. A paisagem, carregada de neve, sugere os graus Celsius negativos que o termómetro confirma.
O Fórum Económico Mundial, que se realiza todos os anos em Davos, na Suíça, voltou a não surpreender pelo frio, mas a sensação térmica, no centro de congressos, espelha o estado febril do novo mundo.
O evento olhou para o futuro da inteligência artificial, mas acabou a ser raptado pela presença de Donald Trump e pelo conflito comercial com a Europa.
As críticas à atuação de Trump endureceram e saíram das entrelinhas para o discurso direto. O Presidente dos EUA tem os olhos vidrados na Gronelândia e usou a sua recorrente arma (tarifas) para pressionar a Europa a ceder.
Mas, em Davos, Úrsula von der Leyen afastou qualquer negociação: "A soberania e integridade territorial da Gronelândia e da Dinamarca são inegociáveis." A presidente da Comissão Europeia quis passar uma mensagem de independência face a Washington: lembrou o acordo assinado com os 11 países do Mercosul e apontou sorridente para "a mãe de todos os tratados comerciais" com a Índia, a concretizar-se na próxima semana.
O mote deste ano era "Um Espírito de Diálogo", mas foram as divergências a sobressair no evento. Além da dureza dos discursos, a tensão vivida entre Washington e o resto do
mundo ficou espelhada em pequenos momentos isolados. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), bem como outros responsáveis europeus, abandonaram um evento privado, enquanto Howard Lutnick, secretário do comércio dos EUA discursava, segundo o "The Wall Street Journal".
O Presidente Trump, que começou o seu discurso dizendo que estava perante "alguns inimigos" na sala, garantiu não usar "a força" para tomar a posse da Gronelândia, mas exigiu "negociações imediatas". O tom hostil foi seguido por vários membros da Casa Branca, que reduziram Davos a um eco das discussões em Washington e um palco para vender o americocentrismo. É o caso do secretário do Comércio, que nesse evento menosprezou o poderio económico da Europa, ou o do Tesouro, Scott Bessent, que aproveitou o evento para voltar a acusar Jerome Powell, presidente da Reserva Federal dos EUA, de estar a politizar o banco central. Uma abordagem errada, segundo alguns especialistas.
"Em Davos, seria de esperar um tom mais conciliatório [de Trump], à medida que se apercebe de que o preço para controlar a Gronelân
dia (tensões comerciais agravadas, riscos de rutura na NATO) está a tornar-se demasiado elevado à medida que se aproximam as eleições intercalares deste ano", escreve Christoph Rieger, analista do banco Commerzbank, numa nota.
Olá, mundo novo
A meio da maior crise nas relações transatlânticas desde a II Guerra Mundial, Von der Leyen concluiu a sua intervenção dizendo que "o mundo mudou permanentemente, nós também temos de mudar". Ao mesmo tempo que planeia uma resposta conjunta à ameaça de mais tarifas dos EUA, defendeu que o acordo entre ambos, de julho, era para manter.
Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, que na semana passada fechou um acordo comercial histórico com a China, protagonizou um dos discursos mais contundentes do evento: "A velha ordem mundial já não volta." "As grandes potências começaram a usar a integração económica como arma, as tarifas como instrumento de pressão, as in- fraestruturas financeiras como meio de coerção e as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a explorar", disse.
A neutralidade histórica da Suíça poderá, no entanto, servir para uma aproximação de EUA e UE. Adam Tooze, historiador económico que esteve presente em Davos, escreve na sua newsletter que "no contexto atual, oferecer um 'local neutro' já é, por si só, uma conquista não negligenciável. Mas a relevância do Fórum é, em grande medida, apenas uma coincidência".
Lagarde discutiu que a inteligência artificial pode servir de trampolim para as economias, mas lembra que "exige redes digitais interconectadas (chips, data centers, energia barata e padrões abertos), que são vulneráveis a interrupções geopolíticas, tarifas e fragmentação das cadeias de fornecimento, tornando a difusão mais rápida e tangível, mas arriscada". Um risco, tendo em conta o ambiente geopolítico atual "mais gelado".
O Fórum tem perdido importância nos últimos anos e existem várias críticas ao facto de se ter tornado um evento demasiado elitista. Numa tentativa de o revitalizar, Larry Fink, presidente da Blackrock e copresidente interino do Fórum, fez-se valer da sua proximidade à Casa Branca para convencer Trump a estar presente, sendo a segunda vez que um Presidente norte-americano vai a Davos. O evento tirou o foco às questões sociais e ambientais, e há quem olhe para isso como um favor a Trump.
Mark Blyth, historiador económico, diz ao "The New York Times" que 2026 é a "morte de Davos" e que a presença de Trump serve apenas para o Presidente "informá-los de que, basicamente, se não se alinharem com ele, ficam riscados". A edição de 2026 foi das mais concorridas dos últimos anos. Estiveram presentes quase 850 líderes empresariais de topo, incluindo Jensen Huang, da Nvidia, a nova presidente da Meta, Dina Powell McCormick, Jamie Di- mon, do JPMorgan Chase, que regressa ao palco após vários anos, ou Satya Nadella, da Microsoft. Os líderes do Fórum estão a equacionar mudar a localização do evento, olhando para Detroit ou Dublin como potenciais substitutos, ou criar um evento intermédio noutras cidades.
CEO da Microsoft alerta Europa sobre a IA
O presidente executivo da Microsoft, Satya Nadella, deixou em Davos um aviso à Europa: na era da inteligência artificial (IA), a competitividade exige ambição económica e visão global, não apenas regras. "A competitividade europeia diz respeito à competitividade da sua produção a nível global, e não apenas na Europa", afirmou. Sobre soberania digital, sublinhou que "o local onde o centro de dados está é a parte menos importante", defendendo que o essencial é o controlo das empresas sobre o conhecimento nos seus próprios modelos.
EDP em reunião das elétricas com Bill Gates
A ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, e o CEO da EDP, Miguel Stilwell dAndrade, participaram na "cimeira secreta" que reuniu esta semana, em Madrid, o fundador da Microsoft, Bill Gates, e as maiores empresas energéticas da Península Ibérica. Em cima da mesa esteve o "estrangulamento" das redes elétricas em Portugal e Espanha, avançou o "El Mundo". Contactados pelo Expresso, Graça Carvalho e EDP não quiseram revelar mais detalhes sobre o encontro. A Microsoft já anunciou projetos de centros de dados no valor de €20 mil milhões na região.
Líder da Nvidia: IA cria mais empregos do que tira
Jensen Huang, presidente e fundador da Nvidia, a maior empresa de chips em todo o mundo, foi a Davos defender que a inteligência artificial (IA) tem estado a criar mais empregos do que a tirar. E deu o exemplo de alguns hospitais nos EUA, que estão a contratar mais radiologistas e enfermeiros, que agora se estão a dedicar mais à relação humana com o paciente. Os agentes de IA aumentam a produtividade, melhorando os resultados dos hospitais, que contrataram mais. Sobre a bolha da IA, defende que existe uma procura crescente que continua a sustentar a subida do investimento.
JP Morgan critica evento em Davos
Outro dos oradores presentes em Davos foi Jamie Dimon, presidente executivo do banco JP Morgan, que não poupou nas críticas ao Fórum Económico Mundial. Começou por dizer que vai a Davos há vários anos e não considera que a organização tenha feito "um bom trabalho para tornar o mundo num sítio melhor", apesar de concluir dizendo que acha "ótimo" que se juntem e conversem sobre o estado do mundo. O líder do banco, que tem elogiado as políticas de Trump em entrevistas recentes, travou o entusiasmo. Apesar de achar que as tarifas têm utilidade, nalguns casos, não é "defensor das tarifas"; e é contra as atuais políticas de imigração.
Economia global cresce 3,3% este ano
FMI acredita na resiliência económica este ano, mas alerta para riscos e admite uma desaceleração em 2027.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) procurou esta semana tranquilizar os investidores e empresários de todo o mundo: a economia mundial está estabilizada numa trajetória de crescimento em 3,3% desde 2024 e assim se manterá até ao final de 2026. A projeção para este ano revê em alta ligeira, de 0,2 pontos percentuais, a anterior estimativa do FMI para o crescimento económico global em 2026.
Os economistas dirigidos por Pierre-Olivier Gourinchas (economista-chefe do FMI desde 2022) deixam uma mensagem positiva: a economia mundial tem sido "resiliente" aos choques disruptivos da guerra comercial e da geopolítica. O título do documento é sugestivo da mensagem que se quer passar: "Economia global: estável no meio de forças divergentes". A persistência da guerra da Rússia com a Ucrânia e a nova política interventiva de Trump não estão a desacelerar a economia mundial. Ainda assim, o efeito poderá começar a sentir-se em 2027, com o crescimento a desacelerar ligeiramente para 3,2%.
As previsões do FMI apresentadas na segunda-feira não tomaram ainda em conta as tarifas (taxas alfandegárias) de 10% para oito economias europeias que reagiram à intenção de Donald Trump de anexar a Gronelândia. Só em abril esse efeito deverá ser considerado, quando o FMI apresentar a primeira edição anual do World Economic Outlook.
Nas previsões agora apresentadas, os EUA vão continuar este ano a crescer mais do que a zona euro e a União Europeia no seu conjunto: 2,4% face a 1,3% e 1,5%, respectivamente. Nas 30 economias analisadas (nas quais Portugal não está incluído), a Índia continua a ser o 'motor' mundial, com um crescimento acima de 6%, quase dois pontos percentuais mais do que a China (4,5%) - A seguir, o 'elefante' indiano vem: os novos 'tigres' do Pacífico: Indonésia e Filipinas deverão ter mais de 5% de crescimento anual.
A Alemanha acelera em 2026 e 2027, enquanto o Japão reentra numa trajetória de desaceleração do crescimento, abaixo de 1%. Espanha continua a destacar-se na zona euro, com crescimento acima da média, prevendo-se, no entanto, uma desaceleração de 2,9% em 2025 para 2,3% em 2026 e 1,9% em 2027. Sendo o principal mercado das exportações portuguesas, requer particular atenção. A economia de guerra russa aguenta-se: acelera ligeiramente para 0,8% este ano e chega a 1% no ano seguinte. O cenário de afundamento não é antecipado pelo FMI.
Pierre-Olivier Gourinchas, economista-chefe do FMI
O truque da resiliência mundial não é secreto. A economia global tem conseguido "driblar" os impactos negativos da guerra comercial e da agitação geopolítica graças a cinco "alavancas", que o relatório do FMI elenca. Em primeiro lugar, o boom tecnológico na inteligência artificial (IA) e na tecnologia em geral, nomeadamente por parte dos EUA, Reino Unido e França. O outro fator positivo foi uma política orçamental generosa, que foi além do que se previa, particularmente nos Estados Unidos, no Japão e na Alemanha. Também a política monetária ajudou: a taxa de juro mundial desceu em 2025 quatro décimas e perspetiva-se que os juros dos bancos centrais continuem a cair em economias importantes, como no Brasil, na China, nos EUA, no Reino Unido e na Rússia.
Agilidade e malabarismo
O FMI reconhece, ainda, a "agilidade" de adaptação das empresas. A China deu, também, um contributo importante, pois atingiu um recorde no ano passado no excedente na balança comercial, de 1,2 biliões de dólares (€1 bilião), conseguindo manter o crescimento em 5% em 2025, mas deslizando para 4,5% este ano e 4% em 2027. Finalmente, a quebra dos preços do petróleo deu uma ajuda no embaratecimento das importações e do consumo,
com uma quebra de 14,2% no ano passado e uma previsão de uma queda adicional de 8,5% este ano.
A resiliência, em que o FMI insiste, exigiu "um certo malabarismo, um jogo de equilíbrio entre forças divergentes", sublinhou o economista-chefe. Uma arte num quadro adverso em que as tarifas (taxas alfandegárias) impostas por Trump fizeram disparar a taxa efetiva média de 2,4% em 2024 para 18,5% em 2025, segundo os cálculos da equipa de Gourinchas. No entanto, os recuos de Trump nas taxas recíprocas permitiram que essa taxa efetiva descesse de um pico de 28% em abril e maio do ano passado, de acordo com a análise do The Budget Lab da Universidade de Yale.
As fragilidades
O FMI alerta, no entanto, que há riscos à espreita, avisando para "fragilidades ligadas ao nível de concentração de investimentos no sector de tecnologia, que é o mais elevado desde a bolha das dotcom". Na primeira linha de monitorização está a IA. "Os investimentos impulsionados pela IA oferecem um potencial transformador, mas também introduzem riscos financeiros e estruturais que exigem vigilância. O desafio para os decisores de políticas e para os investidores é equilibrar otimismo com prudência, garantindo que o atual boom tecnológico se traduza em crescimento sustentável e inclusivo, em vez de gerar um outro ciclo de aquecimento e de estouro", lê-se no relatório do FMI.
"Arranjos circulares de investimento e de contratos de fornecimento entre grandes atores da IA, nos quais as empresas investem umas nas outras enquanto garantem encomendas futuras, criam opacidade e risco de concentração. Essas práticas tornam ainda mais difícil avaliar estruturas de propriedade e valorizações", lê-se numa nota preparada pela equipa de Tobias Adrian, diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI.
A dívida é a outra variável sob vigilância. "Emissões volumosas e um apetite evolutivo dos investidores estão a empurrar a dívida soberana para maturidades mais curtas, remodelando a dinâmica de mercado nas principais economias. A dívida pública global deve exceder 100% do PIB até ao final da década", alerta o FMI. Um fator adicional de disrupção é o que se passa no mercado cambial com a política do dólar fraco. A desvalorização da divisa norte-americana desde o final de 2024 (fim do mandato do Presidente Biden) até hoje foi de 11% face ao euro.
Jorge Nascimento Rodrigues para o Expresso
O Fórum Económico Mundial, que se realiza todos os anos em Davos, na Suíça, voltou a não surpreender pelo frio, mas a sensação térmica, no centro de congressos, espelha o estado febril do novo mundo.
O evento olhou para o futuro da inteligência artificial, mas acabou a ser raptado pela presença de Donald Trump e pelo conflito comercial com a Europa.
As críticas à atuação de Trump endureceram e saíram das entrelinhas para o discurso direto. O Presidente dos EUA tem os olhos vidrados na Gronelândia e usou a sua recorrente arma (tarifas) para pressionar a Europa a ceder.
Mas, em Davos, Úrsula von der Leyen afastou qualquer negociação: "A soberania e integridade territorial da Gronelândia e da Dinamarca são inegociáveis." A presidente da Comissão Europeia quis passar uma mensagem de independência face a Washington: lembrou o acordo assinado com os 11 países do Mercosul e apontou sorridente para "a mãe de todos os tratados comerciais" com a Índia, a concretizar-se na próxima semana.
O mote deste ano era "Um Espírito de Diálogo", mas foram as divergências a sobressair no evento. Além da dureza dos discursos, a tensão vivida entre Washington e o resto do
mundo ficou espelhada em pequenos momentos isolados. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), bem como outros responsáveis europeus, abandonaram um evento privado, enquanto Howard Lutnick, secretário do comércio dos EUA discursava, segundo o "The Wall Street Journal".
O Presidente Trump, que começou o seu discurso dizendo que estava perante "alguns inimigos" na sala, garantiu não usar "a força" para tomar a posse da Gronelândia, mas exigiu "negociações imediatas". O tom hostil foi seguido por vários membros da Casa Branca, que reduziram Davos a um eco das discussões em Washington e um palco para vender o americocentrismo. É o caso do secretário do Comércio, que nesse evento menosprezou o poderio económico da Europa, ou o do Tesouro, Scott Bessent, que aproveitou o evento para voltar a acusar Jerome Powell, presidente da Reserva Federal dos EUA, de estar a politizar o banco central. Uma abordagem errada, segundo alguns especialistas.
"Em Davos, seria de esperar um tom mais conciliatório [de Trump], à medida que se apercebe de que o preço para controlar a Gronelân
dia (tensões comerciais agravadas, riscos de rutura na NATO) está a tornar-se demasiado elevado à medida que se aproximam as eleições intercalares deste ano", escreve Christoph Rieger, analista do banco Commerzbank, numa nota.
Olá, mundo novo
A meio da maior crise nas relações transatlânticas desde a II Guerra Mundial, Von der Leyen concluiu a sua intervenção dizendo que "o mundo mudou permanentemente, nós também temos de mudar". Ao mesmo tempo que planeia uma resposta conjunta à ameaça de mais tarifas dos EUA, defendeu que o acordo entre ambos, de julho, era para manter.
Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, que na semana passada fechou um acordo comercial histórico com a China, protagonizou um dos discursos mais contundentes do evento: "A velha ordem mundial já não volta." "As grandes potências começaram a usar a integração económica como arma, as tarifas como instrumento de pressão, as in- fraestruturas financeiras como meio de coerção e as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a explorar", disse.
A neutralidade histórica da Suíça poderá, no entanto, servir para uma aproximação de EUA e UE. Adam Tooze, historiador económico que esteve presente em Davos, escreve na sua newsletter que "no contexto atual, oferecer um 'local neutro' já é, por si só, uma conquista não negligenciável. Mas a relevância do Fórum é, em grande medida, apenas uma coincidência".
Lagarde discutiu que a inteligência artificial pode servir de trampolim para as economias, mas lembra que "exige redes digitais interconectadas (chips, data centers, energia barata e padrões abertos), que são vulneráveis a interrupções geopolíticas, tarifas e fragmentação das cadeias de fornecimento, tornando a difusão mais rápida e tangível, mas arriscada". Um risco, tendo em conta o ambiente geopolítico atual "mais gelado".
O Fórum tem perdido importância nos últimos anos e existem várias críticas ao facto de se ter tornado um evento demasiado elitista. Numa tentativa de o revitalizar, Larry Fink, presidente da Blackrock e copresidente interino do Fórum, fez-se valer da sua proximidade à Casa Branca para convencer Trump a estar presente, sendo a segunda vez que um Presidente norte-americano vai a Davos. O evento tirou o foco às questões sociais e ambientais, e há quem olhe para isso como um favor a Trump.
Mark Blyth, historiador económico, diz ao "The New York Times" que 2026 é a "morte de Davos" e que a presença de Trump serve apenas para o Presidente "informá-los de que, basicamente, se não se alinharem com ele, ficam riscados". A edição de 2026 foi das mais concorridas dos últimos anos. Estiveram presentes quase 850 líderes empresariais de topo, incluindo Jensen Huang, da Nvidia, a nova presidente da Meta, Dina Powell McCormick, Jamie Di- mon, do JPMorgan Chase, que regressa ao palco após vários anos, ou Satya Nadella, da Microsoft. Os líderes do Fórum estão a equacionar mudar a localização do evento, olhando para Detroit ou Dublin como potenciais substitutos, ou criar um evento intermédio noutras cidades.
CEO da Microsoft alerta Europa sobre a IA
O presidente executivo da Microsoft, Satya Nadella, deixou em Davos um aviso à Europa: na era da inteligência artificial (IA), a competitividade exige ambição económica e visão global, não apenas regras. "A competitividade europeia diz respeito à competitividade da sua produção a nível global, e não apenas na Europa", afirmou. Sobre soberania digital, sublinhou que "o local onde o centro de dados está é a parte menos importante", defendendo que o essencial é o controlo das empresas sobre o conhecimento nos seus próprios modelos.
EDP em reunião das elétricas com Bill Gates
A ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, e o CEO da EDP, Miguel Stilwell dAndrade, participaram na "cimeira secreta" que reuniu esta semana, em Madrid, o fundador da Microsoft, Bill Gates, e as maiores empresas energéticas da Península Ibérica. Em cima da mesa esteve o "estrangulamento" das redes elétricas em Portugal e Espanha, avançou o "El Mundo". Contactados pelo Expresso, Graça Carvalho e EDP não quiseram revelar mais detalhes sobre o encontro. A Microsoft já anunciou projetos de centros de dados no valor de €20 mil milhões na região.
Líder da Nvidia: IA cria mais empregos do que tira
Jensen Huang, presidente e fundador da Nvidia, a maior empresa de chips em todo o mundo, foi a Davos defender que a inteligência artificial (IA) tem estado a criar mais empregos do que a tirar. E deu o exemplo de alguns hospitais nos EUA, que estão a contratar mais radiologistas e enfermeiros, que agora se estão a dedicar mais à relação humana com o paciente. Os agentes de IA aumentam a produtividade, melhorando os resultados dos hospitais, que contrataram mais. Sobre a bolha da IA, defende que existe uma procura crescente que continua a sustentar a subida do investimento.
JP Morgan critica evento em Davos
Outro dos oradores presentes em Davos foi Jamie Dimon, presidente executivo do banco JP Morgan, que não poupou nas críticas ao Fórum Económico Mundial. Começou por dizer que vai a Davos há vários anos e não considera que a organização tenha feito "um bom trabalho para tornar o mundo num sítio melhor", apesar de concluir dizendo que acha "ótimo" que se juntem e conversem sobre o estado do mundo. O líder do banco, que tem elogiado as políticas de Trump em entrevistas recentes, travou o entusiasmo. Apesar de achar que as tarifas têm utilidade, nalguns casos, não é "defensor das tarifas"; e é contra as atuais políticas de imigração.
Economia global cresce 3,3% este ano
FMI acredita na resiliência económica este ano, mas alerta para riscos e admite uma desaceleração em 2027.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) procurou esta semana tranquilizar os investidores e empresários de todo o mundo: a economia mundial está estabilizada numa trajetória de crescimento em 3,3% desde 2024 e assim se manterá até ao final de 2026. A projeção para este ano revê em alta ligeira, de 0,2 pontos percentuais, a anterior estimativa do FMI para o crescimento económico global em 2026.
Os economistas dirigidos por Pierre-Olivier Gourinchas (economista-chefe do FMI desde 2022) deixam uma mensagem positiva: a economia mundial tem sido "resiliente" aos choques disruptivos da guerra comercial e da geopolítica. O título do documento é sugestivo da mensagem que se quer passar: "Economia global: estável no meio de forças divergentes". A persistência da guerra da Rússia com a Ucrânia e a nova política interventiva de Trump não estão a desacelerar a economia mundial. Ainda assim, o efeito poderá começar a sentir-se em 2027, com o crescimento a desacelerar ligeiramente para 3,2%.
As previsões do FMI apresentadas na segunda-feira não tomaram ainda em conta as tarifas (taxas alfandegárias) de 10% para oito economias europeias que reagiram à intenção de Donald Trump de anexar a Gronelândia. Só em abril esse efeito deverá ser considerado, quando o FMI apresentar a primeira edição anual do World Economic Outlook.
Nas previsões agora apresentadas, os EUA vão continuar este ano a crescer mais do que a zona euro e a União Europeia no seu conjunto: 2,4% face a 1,3% e 1,5%, respectivamente. Nas 30 economias analisadas (nas quais Portugal não está incluído), a Índia continua a ser o 'motor' mundial, com um crescimento acima de 6%, quase dois pontos percentuais mais do que a China (4,5%) - A seguir, o 'elefante' indiano vem: os novos 'tigres' do Pacífico: Indonésia e Filipinas deverão ter mais de 5% de crescimento anual.
A Alemanha acelera em 2026 e 2027, enquanto o Japão reentra numa trajetória de desaceleração do crescimento, abaixo de 1%. Espanha continua a destacar-se na zona euro, com crescimento acima da média, prevendo-se, no entanto, uma desaceleração de 2,9% em 2025 para 2,3% em 2026 e 1,9% em 2027. Sendo o principal mercado das exportações portuguesas, requer particular atenção. A economia de guerra russa aguenta-se: acelera ligeiramente para 0,8% este ano e chega a 1% no ano seguinte. O cenário de afundamento não é antecipado pelo FMI.
Pierre-Olivier Gourinchas, economista-chefe do FMI
O truque da resiliência mundial não é secreto. A economia global tem conseguido "driblar" os impactos negativos da guerra comercial e da agitação geopolítica graças a cinco "alavancas", que o relatório do FMI elenca. Em primeiro lugar, o boom tecnológico na inteligência artificial (IA) e na tecnologia em geral, nomeadamente por parte dos EUA, Reino Unido e França. O outro fator positivo foi uma política orçamental generosa, que foi além do que se previa, particularmente nos Estados Unidos, no Japão e na Alemanha. Também a política monetária ajudou: a taxa de juro mundial desceu em 2025 quatro décimas e perspetiva-se que os juros dos bancos centrais continuem a cair em economias importantes, como no Brasil, na China, nos EUA, no Reino Unido e na Rússia.
Agilidade e malabarismo
O FMI reconhece, ainda, a "agilidade" de adaptação das empresas. A China deu, também, um contributo importante, pois atingiu um recorde no ano passado no excedente na balança comercial, de 1,2 biliões de dólares (€1 bilião), conseguindo manter o crescimento em 5% em 2025, mas deslizando para 4,5% este ano e 4% em 2027. Finalmente, a quebra dos preços do petróleo deu uma ajuda no embaratecimento das importações e do consumo,
com uma quebra de 14,2% no ano passado e uma previsão de uma queda adicional de 8,5% este ano.
A resiliência, em que o FMI insiste, exigiu "um certo malabarismo, um jogo de equilíbrio entre forças divergentes", sublinhou o economista-chefe. Uma arte num quadro adverso em que as tarifas (taxas alfandegárias) impostas por Trump fizeram disparar a taxa efetiva média de 2,4% em 2024 para 18,5% em 2025, segundo os cálculos da equipa de Gourinchas. No entanto, os recuos de Trump nas taxas recíprocas permitiram que essa taxa efetiva descesse de um pico de 28% em abril e maio do ano passado, de acordo com a análise do The Budget Lab da Universidade de Yale.
As fragilidades
O FMI alerta, no entanto, que há riscos à espreita, avisando para "fragilidades ligadas ao nível de concentração de investimentos no sector de tecnologia, que é o mais elevado desde a bolha das dotcom". Na primeira linha de monitorização está a IA. "Os investimentos impulsionados pela IA oferecem um potencial transformador, mas também introduzem riscos financeiros e estruturais que exigem vigilância. O desafio para os decisores de políticas e para os investidores é equilibrar otimismo com prudência, garantindo que o atual boom tecnológico se traduza em crescimento sustentável e inclusivo, em vez de gerar um outro ciclo de aquecimento e de estouro", lê-se no relatório do FMI.
"Arranjos circulares de investimento e de contratos de fornecimento entre grandes atores da IA, nos quais as empresas investem umas nas outras enquanto garantem encomendas futuras, criam opacidade e risco de concentração. Essas práticas tornam ainda mais difícil avaliar estruturas de propriedade e valorizações", lê-se numa nota preparada pela equipa de Tobias Adrian, diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI.
A dívida é a outra variável sob vigilância. "Emissões volumosas e um apetite evolutivo dos investidores estão a empurrar a dívida soberana para maturidades mais curtas, remodelando a dinâmica de mercado nas principais economias. A dívida pública global deve exceder 100% do PIB até ao final da década", alerta o FMI. Um fator adicional de disrupção é o que se passa no mercado cambial com a política do dólar fraco. A desvalorização da divisa norte-americana desde o final de 2024 (fim do mandato do Presidente Biden) até hoje foi de 11% face ao euro.
Jorge Nascimento Rodrigues para o Expresso