A produção industrial caiu em julho, sinalizando que a economia pode entrar em recessão no terceiro trimestre.
Parte dos problemas são estruturais e crise industrial pode ter vindo para ficar.
Com a crise da indústria, sobretudo do setor automóvel, a agravar-se na Alemanha, a maior economia europeia pode entrar em recessão já neste trimestre. Os analistas esperam, na melhor das hipóteses, uma estagnação no conjunto do ano. Mas o problema é em parte estrutural.
Na semana passada, o Destatis, gabinete de estatísticas alemão, divulgou que a produção industrial caiu 2,4% em julho face ao mês anterior, muito mais do que era esperado. A queda deixou a produção industrial 2,2% abaixo do seu nível médio e 9,5% abaixo do seu pico mais recente (de fevereiro de 2023). A queda foi generalizada, mas particularmente acentuadanos dois principais setores da indústria alemã a produção automóvel e de equipamento elétrico, que diminuíram 8,1% e 7%, respetivamente.
'A grande queda na produção industrial em julho mostra que o setor está a passar por uma crise acentuada e que, depois da contração no segundo trimestre, a economia alemã pode entrar numa recessão técnica no terceiro trimestre", considera Franziska Palmas, da Capital Economics.
A somar aos indicadores de confiança fracos - que se reduziram a metade em agosto -, "o risco de outro trimestre de estagnação ou mesmo contração aumentou claramente", escreve Carsten Brzeski, analista do ING. Mais do que isso: os dados não refletem apenas "um arranque fraco do terceiro trimestre, são mais uma ilustração de que será difícil pôr a economia a crescer de forma forte e sustentada", acrescenta.
Isto porque, segundo as contas de um estudo da Bloomberg Economics divulgado em julho, a indústria alemã não vai ser capaz de recuperar totalmente o que perdeu nos últimos anos. Metade das perdas são cíclicas, mas o resto é estrutural e veio para ficar.
Carsten Brzeski resume ao Negócios: se a subida das taxas de juro e a perda de poder de compra são fatores cíclicos apesar na indústria alemã, as mudanças no papel da China - que passou de destino das exportações alemãs a concorrente direto -, a subida do preço da energia e a evolução tecnológica da própria indústria (que alguns analistas dizem que o setor não está a acompanhar) são fatores estruturais, com efeitos duradouros.
A ameaça da China
Na verdade, as fábricas alemãs têm estado a fraquejar desde 2018, mas a invasão da Ucrânia pela Rússia no início de 2022, que fez disparar os preços da energia, e a intensa concorrência dos produtores de automóveis chineses, por vezes apoiados por subsídios governamentais, atingiram fortemente o setor.
Aliás, um relatório recente do Banco Central Europeu (BCE) estimava que, entre 2019 e 2023, o custo de fazer um carro na Europa aumentou 7,5% face a uma alternativa "made in China", o que resultou numa queda de 15% na quota de mercado global dos construtores europeus.
O exemplo mais recente da crise no setor automóvel alemão vem da Volkswagen. No início de setembro, a gigante alemã admitiu estar a estudar o encerramento de fábricas na Alemanha pela primeira vez em 87 anos. E o diretor-executivo do grupo, Oliver Blume, justificava a decisão com o facto de o país "estar a perder cada vez mais terreno em termos de competitividade".
E dificuldades nas fábricas alemãs significam problemas para a economia como um todo. A indústria é muito mais importante para a Alemanha do que para muitos dos seus pares: representa quase duas vezes mais da atividade total do que avizinha França ou mesmo do que dos Estados Unidos.
É neste contexto que o instituto Kiel estima que a economia alemã recue novamente este ano, em 0,1%, depois de ter contraído 0,3% em 2023. Nas previsões de outono, reviram também em baixa as estimativas para os próximos anos (que admitem ser de baixo crescimento). "A economia alemã está a enfrentar uma crise que não é só cíclica, mas também estrutural", afirma Moritz Schularick, presidente do Kiel. "Os cortes orçamentais do governo são um fardo adicional e a redução das taxas de juro do BCE já vem tarde para a Alemanha".
Também o instituto Ifo reduz a previsão para este ano e espera agora que a economia, no máximo, fique estagnada em 2024.
E com o motor europeu com dificuldades em arrancar, "a economia europeia, já fragilizada, vai ressentir-se", afirma o ING.
Em julho, a produção no setor automóvel caiu 8,1% em termos homólogos. Setor está a ser penalizado pela concorrência da China.
Alemanha contrai, Euro quase estagna
Variação em cadeia do PIB, na Alemanha e na Zona Euro, em percentagem
Desde o arranque de 2022 (com a invasão da Ucrânia pela Rússia) que a economia alemã tem sofrido mais do que a do conjunto do euro. No segundo trimestre, o PIB alemão contraiu 0,1%, enquanto a economia da Zona Euro teve uma expansão de apenas 0,2%.
Perguntas a Gonçalo Pina, Professor de Economia Internacional na ESCP Business School (Alemanha)
"Esta crise na indústria alemã veio para ficar"
A crise na indústria alemã "veio para ficar" e isso, claro, "são más notícias" para o resto da Europa, diz Gonçalo Pina.
Porque é que a economia alemã não consegue descolar?
É uma crise transversal. Depois da covid (desde 2022), a Alemanha tem o consumo privado estagnado, investimento privado a decrescer, investimento público estagnado, e, pior que tudo, exportações a aumentar muito menos do que nos outros países europeus (1% comparado, por exemplo, com 10% na Espanha). A isto junta-se uma incapacidade de usar a política orçamental, apesar da dívida baixa, para contrariar esta tendência. A economia alemã foi mais atingida pelos choques estruturais da subida dos custos energéticos e do novo papel da China na economia mundial.
O que explica a crise do setor industrial?
Há dois fatores cruciais. Primeiro, os custos de energia, que subiram muito na Alemanha e que vão continuar elevados nos próximos anos. Isto não é só por causa da Rússia. A transição para a energia renovável (e sem energia nuclear) está a sair mais cara do que o esperado. Segundo, a China. Era o maior mercado para produtos alemães, mas agora que subiu na cadeia de valor é um concorrente direto da Alemanha. Importa menos da Alemanha e até exporta. Isto é particularmente claro na indústria automóvel, vejam-se as dificuldades recentes da Volkswagen.
Esta crise veio para ficar?
Esta crise veio para ficar, sim. O setor industrial alemão é extremamente dependente do comércio externo e o conflito com a China não vai ajudar. O peso do setor industrial na economia alemã tem vindo a diminuir desde 2018 e pode reduzir ainda mais se "clusters" industriais fecharem. A Alemanha precisa de aumentar a procura interna substancialmente, encontrar novos mercados externos, de ser mais aberta ao capital humano estrangeiro e de ter menos regulamentações para facilitar o investimento. Infelizmente, a situação política extremamente fragmentada não vai ajudar.
Que impactos pode ter na economia da Zona Euro?
É a maior economia da Zona Euro, claro que são más notícias. A estagnação da Alemanha afeta diretamente os parceiros comerciais e propaga-se para os outros países.
Infelizmente, a situação política extremamente fragmentada não vai ajudar.
Terramoto político na Alemanha ameaça reeleição de Scholz
Depois da derrota nos estados da Turíngia e na Saxónia, o chanceler alemão arrisca uma nova derrota em eleições regionais ainda este mês. Crescimento da extrema-direita fragiliza coligação e penaliza Scholz na recandidatura ao cargo.
O crescimento da extrema-direita no Leste da Alemanha, com a vitória no estado federado da Turíngia, está a colocar pressão sobre o Governo de Olaf Scholz. Apesar dos apelos a um "cordão sanitário", a Alemanha prepara -se agora para uma réplica deste terramoto político nas eleições de dia 22. Um resultado negativo pode pôr em risco o futuro político de Olaf Scholz, que luta pela reeleição nas eleições do próximo ano.
Para já a chegada da Alternativa para a Alemanha (AfD) ao poder na Turíngia parece pouco provável. O partido venceu as eleições regionais com 32,8% dos votos, mas não conseguiu maioria absoluta. Terá Por isso de negociar com outras forças políticas para formar Governo, mas, até agora, nenhuma se mostrou disponível a dar a mão ao partido liderado por Bjorn Hocke naquele estado. Ain da assim, trata-se da primeira vitória da extrema-direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o que gerou ondas de choque em toda a Europa.
Na mesma noite, a AfD conseguiu também o segundo lugar nas eleições regionais do estado federal da Saxónia. Aí, conseguiu 30,6% dos votos e ficou a apenas um ponto percentual de distância da CDU, que venceu as eleições.
Enquanto isso, o Partido Social Democrata (SPD) de Olaf Scholz e os restantes partidos da coligação governamental - Verdes e liberais do FDP - foram os grandes derrotados dessas eleições. Na Turíngia, o SPD não foi além dos 6%, enquanto os Verdes e o FD P ficaram de fora do Parlamento estadual por não terem alcançado os 5% necessários para eleger deputados. Já na Saxónia, o SPD conseguiu 7,3% e os Verdes 5,1%, enquanto os liberais ficaram de fora do Parlamento estadual.
Uma mudança mais vasta?
Embora esses resultados não possam ser extrapolados para o Par lamento nacional, a verdade é que revelam uma clara mudança política e um crescente descontentamento político dos cidadãos da antiga Alemanha de leste (RDA), que se sentem deixados para trás. "Um partido do chanceler que tem um resultado de apenas um dígito em dois estados do Leste tem de se perguntar a si próprio se ainda está afazer políticas para todas as pessoas da Alemanha", alertou o secretário-geral da CDU, Carsten Linnemann.
Acresce que as próximas eleições regionais, que vão ter lugar em Brandeburgo a 22 de setembro, também não são favoráveis a Olaf Scholz. As sondagens colocam, mais uma vez, a AfD à frente do SPD - que governa há 11 anos nesse estado da Alemanha de leste -, com 24% das intenções de voto.
Um novo resultado negativo nas eleições regionais pode comprometer a liderança de Scholz. Os analistas do ING consideram que "os próximos dias vão mostrar se estas eleições funcionaram como um alerta para políticas económicas mais poderosas" por parte da coligação governamental para dar resposta ao descontentamento dos alemães com o fraco crescimento económico e a desindustrialização do país, "ou se só se agravou o impasse político". No caso da Turíngia, teme-se uma paralisação dos trabalhos parlamentares, com a extrema-direita em maioria no Parlamento estadual.
"As eleições regionais sugerem que algumas tendências políticas recentes provavelmente vão continuar a nível nacional. Por um lado, os partidos tradicionais provavelmente vão continuar a incorporar elementos dos programas da AfD e da BSW [Aliança Sahra Wagenknecht, um partido da esquerda populista anti-imigração] nas suas próprias propostas". É o caso das políticas de imigração e da ajuda militar à Ucrânia
O cenário de eleições antecipadas parece ser pouco provável - tendo em conta que haverá eleições federais em setembro de 2025 -, mas há risco de o SPD ser forçado a escolher outro candidato para apresentar às eleições do próximo ano. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, goza de grande popularidade junto dos alemães e, segundo os analistas, pode ser uma alternativa viável caso o SPD decida avançar com uma renovação da liderança em resposta aos maus resultados eleitorais.
Preços e economia arrefecem e pressionam BCE abaixar juros
A inflação na Alemanha desceu para 2% e, com a economia a dar sinais de entrar em recessão no terceiro trimestre, pressiona o BCE a baixar juros.
A subida dos preços na Alemanha abrandou para 2% em agosto, atingindo o valor mais baixo em mais de três anos, o que os analistas viram como mais um sinal para o BCE reduzir as taxas de juro na próxima reunião, esta quinta-feira.
"A taxa de inflação em agosto tem tudo o que o Banco Central Europeu [BCE] precisa para continuar a descer as taxas de juro na reunião de setembro", afirmou, numa análise recente, Carsten Brzeski, analista do banco ING.
O valor corresponde ao objetivo de médio prazo do BCE - de 2% - e chegar a essa meta (na média da Zona Euro) tem sido o derradeiro objetivo dos governadores da autoridade monetária, desde que os preços dispararam para valores máximos após a invasão da Ucrânia pela Rússia, no arranque de 2022.
Depois de ter atingido 2,6% em julho, a subida de preços na Alemanha abrandou para 2% em agosto e atingiu o valor mais baixo desde junho de 2021, ficando também abaixo das expectativas dos analistas.
A redução da taxa de inflação na Alemanha resultou de reduções nos preços da energia e de efeitos-base favoráveis, bem como subidas de preços mais baixas na generalidade dos bens. Já os preços dos serviços continuaram perto dos 4%. A inflação subjacente, considerada mais persistente, também desceu; ao mesmo tempo, as variações mensais mostram reduções efetivas de preços nos alimentos e nos transportes. "São ótimas notícias para o BCE, porque mostra os primeiros sinais de uma tendência alargada de um processo de desinflação", acrescenta Carsten Brzeski.
Apesar de a taxa de inflação, no conjunto da Zona Euro, ter ficado ainda acima do objetivo (nos 2,2%), a economia alemã costuma ser um indicador seguido de perto para o conjunto dos países da moeda única.
Economia a cair também pressiona
O arrefecimento dos preços, a somar à possível recessão técnica no terceiro trimestre, pressiona o BCE abaixar os juros. Recorde-se que, depois da queda na produção industrial em julho, os economistas admitem um terceiro trimestre no negativo (e uma recessão técnica).
"Isso abre caminho para um corte nas taxas em setembro, mas com a inflação dos serviços ainda rígida, o ciclo de flexibilização será gradual", disse Franziska Palmas, da Capital Economics.
Já para o analista do ING, se a economia alemã ficar estagnada (ou mesmo voltar a recuar) no conjunto de 2024, essa fraqueza "pode ser outro argumento em favor de cortes mais agressivos nas taxas de juro em 2025".
Gonçalo Pina, professor de Economia Internacional da ESCP Business School de Berlim, é mais cauteloso e defende que "mesmo com uma desaceleração económica alemã 0 BCE deve continuar com uma política monetária restritiva para controlar a inflação ao nível europeu".
Recorde-se que na Alemanha há ainda outros fatores a pressionar: as expectativas dos preços de venda futuros e do crescimento dos salários ainda são razões para ser cauteloso, consideram os analistas.
Parte dos problemas são estruturais e crise industrial pode ter vindo para ficar.
Com a crise da indústria, sobretudo do setor automóvel, a agravar-se na Alemanha, a maior economia europeia pode entrar em recessão já neste trimestre. Os analistas esperam, na melhor das hipóteses, uma estagnação no conjunto do ano. Mas o problema é em parte estrutural.
Na semana passada, o Destatis, gabinete de estatísticas alemão, divulgou que a produção industrial caiu 2,4% em julho face ao mês anterior, muito mais do que era esperado. A queda deixou a produção industrial 2,2% abaixo do seu nível médio e 9,5% abaixo do seu pico mais recente (de fevereiro de 2023). A queda foi generalizada, mas particularmente acentuadanos dois principais setores da indústria alemã a produção automóvel e de equipamento elétrico, que diminuíram 8,1% e 7%, respetivamente.
'A grande queda na produção industrial em julho mostra que o setor está a passar por uma crise acentuada e que, depois da contração no segundo trimestre, a economia alemã pode entrar numa recessão técnica no terceiro trimestre", considera Franziska Palmas, da Capital Economics.
A somar aos indicadores de confiança fracos - que se reduziram a metade em agosto -, "o risco de outro trimestre de estagnação ou mesmo contração aumentou claramente", escreve Carsten Brzeski, analista do ING. Mais do que isso: os dados não refletem apenas "um arranque fraco do terceiro trimestre, são mais uma ilustração de que será difícil pôr a economia a crescer de forma forte e sustentada", acrescenta.
Isto porque, segundo as contas de um estudo da Bloomberg Economics divulgado em julho, a indústria alemã não vai ser capaz de recuperar totalmente o que perdeu nos últimos anos. Metade das perdas são cíclicas, mas o resto é estrutural e veio para ficar.
Carsten Brzeski resume ao Negócios: se a subida das taxas de juro e a perda de poder de compra são fatores cíclicos apesar na indústria alemã, as mudanças no papel da China - que passou de destino das exportações alemãs a concorrente direto -, a subida do preço da energia e a evolução tecnológica da própria indústria (que alguns analistas dizem que o setor não está a acompanhar) são fatores estruturais, com efeitos duradouros.
A ameaça da China
Na verdade, as fábricas alemãs têm estado a fraquejar desde 2018, mas a invasão da Ucrânia pela Rússia no início de 2022, que fez disparar os preços da energia, e a intensa concorrência dos produtores de automóveis chineses, por vezes apoiados por subsídios governamentais, atingiram fortemente o setor.
Aliás, um relatório recente do Banco Central Europeu (BCE) estimava que, entre 2019 e 2023, o custo de fazer um carro na Europa aumentou 7,5% face a uma alternativa "made in China", o que resultou numa queda de 15% na quota de mercado global dos construtores europeus.
O exemplo mais recente da crise no setor automóvel alemão vem da Volkswagen. No início de setembro, a gigante alemã admitiu estar a estudar o encerramento de fábricas na Alemanha pela primeira vez em 87 anos. E o diretor-executivo do grupo, Oliver Blume, justificava a decisão com o facto de o país "estar a perder cada vez mais terreno em termos de competitividade".
E dificuldades nas fábricas alemãs significam problemas para a economia como um todo. A indústria é muito mais importante para a Alemanha do que para muitos dos seus pares: representa quase duas vezes mais da atividade total do que avizinha França ou mesmo do que dos Estados Unidos.
É neste contexto que o instituto Kiel estima que a economia alemã recue novamente este ano, em 0,1%, depois de ter contraído 0,3% em 2023. Nas previsões de outono, reviram também em baixa as estimativas para os próximos anos (que admitem ser de baixo crescimento). "A economia alemã está a enfrentar uma crise que não é só cíclica, mas também estrutural", afirma Moritz Schularick, presidente do Kiel. "Os cortes orçamentais do governo são um fardo adicional e a redução das taxas de juro do BCE já vem tarde para a Alemanha".
Também o instituto Ifo reduz a previsão para este ano e espera agora que a economia, no máximo, fique estagnada em 2024.
E com o motor europeu com dificuldades em arrancar, "a economia europeia, já fragilizada, vai ressentir-se", afirma o ING.
Em julho, a produção no setor automóvel caiu 8,1% em termos homólogos. Setor está a ser penalizado pela concorrência da China.
Alemanha contrai, Euro quase estagna
Variação em cadeia do PIB, na Alemanha e na Zona Euro, em percentagem
Desde o arranque de 2022 (com a invasão da Ucrânia pela Rússia) que a economia alemã tem sofrido mais do que a do conjunto do euro. No segundo trimestre, o PIB alemão contraiu 0,1%, enquanto a economia da Zona Euro teve uma expansão de apenas 0,2%.
Perguntas a Gonçalo Pina, Professor de Economia Internacional na ESCP Business School (Alemanha)
"Esta crise na indústria alemã veio para ficar"
A crise na indústria alemã "veio para ficar" e isso, claro, "são más notícias" para o resto da Europa, diz Gonçalo Pina.
Porque é que a economia alemã não consegue descolar?
É uma crise transversal. Depois da covid (desde 2022), a Alemanha tem o consumo privado estagnado, investimento privado a decrescer, investimento público estagnado, e, pior que tudo, exportações a aumentar muito menos do que nos outros países europeus (1% comparado, por exemplo, com 10% na Espanha). A isto junta-se uma incapacidade de usar a política orçamental, apesar da dívida baixa, para contrariar esta tendência. A economia alemã foi mais atingida pelos choques estruturais da subida dos custos energéticos e do novo papel da China na economia mundial.
O que explica a crise do setor industrial?
Há dois fatores cruciais. Primeiro, os custos de energia, que subiram muito na Alemanha e que vão continuar elevados nos próximos anos. Isto não é só por causa da Rússia. A transição para a energia renovável (e sem energia nuclear) está a sair mais cara do que o esperado. Segundo, a China. Era o maior mercado para produtos alemães, mas agora que subiu na cadeia de valor é um concorrente direto da Alemanha. Importa menos da Alemanha e até exporta. Isto é particularmente claro na indústria automóvel, vejam-se as dificuldades recentes da Volkswagen.
Esta crise veio para ficar?
Esta crise veio para ficar, sim. O setor industrial alemão é extremamente dependente do comércio externo e o conflito com a China não vai ajudar. O peso do setor industrial na economia alemã tem vindo a diminuir desde 2018 e pode reduzir ainda mais se "clusters" industriais fecharem. A Alemanha precisa de aumentar a procura interna substancialmente, encontrar novos mercados externos, de ser mais aberta ao capital humano estrangeiro e de ter menos regulamentações para facilitar o investimento. Infelizmente, a situação política extremamente fragmentada não vai ajudar.
Que impactos pode ter na economia da Zona Euro?
É a maior economia da Zona Euro, claro que são más notícias. A estagnação da Alemanha afeta diretamente os parceiros comerciais e propaga-se para os outros países.
Infelizmente, a situação política extremamente fragmentada não vai ajudar.
Terramoto político na Alemanha ameaça reeleição de Scholz
Depois da derrota nos estados da Turíngia e na Saxónia, o chanceler alemão arrisca uma nova derrota em eleições regionais ainda este mês. Crescimento da extrema-direita fragiliza coligação e penaliza Scholz na recandidatura ao cargo.
O crescimento da extrema-direita no Leste da Alemanha, com a vitória no estado federado da Turíngia, está a colocar pressão sobre o Governo de Olaf Scholz. Apesar dos apelos a um "cordão sanitário", a Alemanha prepara -se agora para uma réplica deste terramoto político nas eleições de dia 22. Um resultado negativo pode pôr em risco o futuro político de Olaf Scholz, que luta pela reeleição nas eleições do próximo ano.
Para já a chegada da Alternativa para a Alemanha (AfD) ao poder na Turíngia parece pouco provável. O partido venceu as eleições regionais com 32,8% dos votos, mas não conseguiu maioria absoluta. Terá Por isso de negociar com outras forças políticas para formar Governo, mas, até agora, nenhuma se mostrou disponível a dar a mão ao partido liderado por Bjorn Hocke naquele estado. Ain da assim, trata-se da primeira vitória da extrema-direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o que gerou ondas de choque em toda a Europa.
Na mesma noite, a AfD conseguiu também o segundo lugar nas eleições regionais do estado federal da Saxónia. Aí, conseguiu 30,6% dos votos e ficou a apenas um ponto percentual de distância da CDU, que venceu as eleições.
Enquanto isso, o Partido Social Democrata (SPD) de Olaf Scholz e os restantes partidos da coligação governamental - Verdes e liberais do FDP - foram os grandes derrotados dessas eleições. Na Turíngia, o SPD não foi além dos 6%, enquanto os Verdes e o FD P ficaram de fora do Parlamento estadual por não terem alcançado os 5% necessários para eleger deputados. Já na Saxónia, o SPD conseguiu 7,3% e os Verdes 5,1%, enquanto os liberais ficaram de fora do Parlamento estadual.
Uma mudança mais vasta?
Embora esses resultados não possam ser extrapolados para o Par lamento nacional, a verdade é que revelam uma clara mudança política e um crescente descontentamento político dos cidadãos da antiga Alemanha de leste (RDA), que se sentem deixados para trás. "Um partido do chanceler que tem um resultado de apenas um dígito em dois estados do Leste tem de se perguntar a si próprio se ainda está afazer políticas para todas as pessoas da Alemanha", alertou o secretário-geral da CDU, Carsten Linnemann.
Acresce que as próximas eleições regionais, que vão ter lugar em Brandeburgo a 22 de setembro, também não são favoráveis a Olaf Scholz. As sondagens colocam, mais uma vez, a AfD à frente do SPD - que governa há 11 anos nesse estado da Alemanha de leste -, com 24% das intenções de voto.
Um novo resultado negativo nas eleições regionais pode comprometer a liderança de Scholz. Os analistas do ING consideram que "os próximos dias vão mostrar se estas eleições funcionaram como um alerta para políticas económicas mais poderosas" por parte da coligação governamental para dar resposta ao descontentamento dos alemães com o fraco crescimento económico e a desindustrialização do país, "ou se só se agravou o impasse político". No caso da Turíngia, teme-se uma paralisação dos trabalhos parlamentares, com a extrema-direita em maioria no Parlamento estadual.
"As eleições regionais sugerem que algumas tendências políticas recentes provavelmente vão continuar a nível nacional. Por um lado, os partidos tradicionais provavelmente vão continuar a incorporar elementos dos programas da AfD e da BSW [Aliança Sahra Wagenknecht, um partido da esquerda populista anti-imigração] nas suas próprias propostas". É o caso das políticas de imigração e da ajuda militar à Ucrânia
O cenário de eleições antecipadas parece ser pouco provável - tendo em conta que haverá eleições federais em setembro de 2025 -, mas há risco de o SPD ser forçado a escolher outro candidato para apresentar às eleições do próximo ano. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, goza de grande popularidade junto dos alemães e, segundo os analistas, pode ser uma alternativa viável caso o SPD decida avançar com uma renovação da liderança em resposta aos maus resultados eleitorais.
Preços e economia arrefecem e pressionam BCE abaixar juros
A inflação na Alemanha desceu para 2% e, com a economia a dar sinais de entrar em recessão no terceiro trimestre, pressiona o BCE a baixar juros.
A subida dos preços na Alemanha abrandou para 2% em agosto, atingindo o valor mais baixo em mais de três anos, o que os analistas viram como mais um sinal para o BCE reduzir as taxas de juro na próxima reunião, esta quinta-feira.
"A taxa de inflação em agosto tem tudo o que o Banco Central Europeu [BCE] precisa para continuar a descer as taxas de juro na reunião de setembro", afirmou, numa análise recente, Carsten Brzeski, analista do banco ING.
O valor corresponde ao objetivo de médio prazo do BCE - de 2% - e chegar a essa meta (na média da Zona Euro) tem sido o derradeiro objetivo dos governadores da autoridade monetária, desde que os preços dispararam para valores máximos após a invasão da Ucrânia pela Rússia, no arranque de 2022.
Depois de ter atingido 2,6% em julho, a subida de preços na Alemanha abrandou para 2% em agosto e atingiu o valor mais baixo desde junho de 2021, ficando também abaixo das expectativas dos analistas.
A redução da taxa de inflação na Alemanha resultou de reduções nos preços da energia e de efeitos-base favoráveis, bem como subidas de preços mais baixas na generalidade dos bens. Já os preços dos serviços continuaram perto dos 4%. A inflação subjacente, considerada mais persistente, também desceu; ao mesmo tempo, as variações mensais mostram reduções efetivas de preços nos alimentos e nos transportes. "São ótimas notícias para o BCE, porque mostra os primeiros sinais de uma tendência alargada de um processo de desinflação", acrescenta Carsten Brzeski.
Apesar de a taxa de inflação, no conjunto da Zona Euro, ter ficado ainda acima do objetivo (nos 2,2%), a economia alemã costuma ser um indicador seguido de perto para o conjunto dos países da moeda única.
Economia a cair também pressiona
O arrefecimento dos preços, a somar à possível recessão técnica no terceiro trimestre, pressiona o BCE abaixar os juros. Recorde-se que, depois da queda na produção industrial em julho, os economistas admitem um terceiro trimestre no negativo (e uma recessão técnica).
"Isso abre caminho para um corte nas taxas em setembro, mas com a inflação dos serviços ainda rígida, o ciclo de flexibilização será gradual", disse Franziska Palmas, da Capital Economics.
Já para o analista do ING, se a economia alemã ficar estagnada (ou mesmo voltar a recuar) no conjunto de 2024, essa fraqueza "pode ser outro argumento em favor de cortes mais agressivos nas taxas de juro em 2025".
Gonçalo Pina, professor de Economia Internacional da ESCP Business School de Berlim, é mais cauteloso e defende que "mesmo com uma desaceleração económica alemã 0 BCE deve continuar com uma política monetária restritiva para controlar a inflação ao nível europeu".
Recorde-se que na Alemanha há ainda outros fatores a pressionar: as expectativas dos preços de venda futuros e do crescimento dos salários ainda são razões para ser cauteloso, consideram os analistas.