Nos últimos anos, o conceito de dupla materialidade tem vindo a ganhar uma centralidade crescente no contexto da sustentabilidade empresarial. Saiba do que se trata.
O que é a dupla materialidade?
Na essência, este conceito reflete a interdependência entre o desempenho financeiro e as questões ambientais, sociais e de governança (ESG). A dupla materialidade reconhece que, para além da necessidade de reportar os impactos ambientais e sociais das suas atividades, as empresas devem também reconhecer como as questões ESG podem afetar o seu desempenho, inclusivamente financeiro, a longo prazo.
A dupla materialidade engloba duas vertentes complementares de análise:-
Materialidade FinanceiraEsta vertente diz respeito a como os fatores ESG podem influenciar o desempenho financeiro da empresa. Exemplos simples referem-se a questões como as mudanças climáticas, a escassez de recursos naturais ou as transformações nas expectativas dos consumidores. Estes fatores podem ter impactos financeiros significativos para as empresas, desde logo na alteração das receitas e/ou no aumento de custos, ou na imposição de novas regulamentações.
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Materialidade de ImpactoEsta análise refere-se ao impacto das atividades da empresa sobre o meio ambiente e a sociedade. Para além de avaliarem o impacto que estes elementos têm ou são suscetíveis de ter nas atividades das empresas (materialidade financeira), estas devem também avaliar como as suas operações podem afetar fatores como, por exemplo, as emissões de carbono, a biodiversidade, os direitos humanos, as condições de trabalho, entre tantos outros elementos. Estes impactos, que variarão em função do setor e tipo de atividade das empresas, podem ter consequências a longo prazo para o ambiente e para a sociedade, o que influirá, em última instância, na reputação da empresa e na sua capacidade para continuar as suas operações.
Fonte: adaptado de LSE, Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment 1
A Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) da União Europeia e os European Sustainability Reporting Standards (ESRS) são o reflexo claro de como a dupla materialidade está a ser integrada nas exigências regulatórias. Estes instrumentos exigem, de facto, que as empresas reportem não apenas os impactos das suas atividades sobre o meio ambiente e a sociedade, mas também como questões ESG podem afetar o seu desempenho financeiro e a criação de valor a longo prazo.
A CSRD impõe que as empresas divulguem informações detalhadas sobre os riscos e oportunidades associados aos fatores ESG e como estes influenciam a sua performance financeira.2 Além disso, os ESRS, desenvolvidos pelo European Financial Reporting Advisory Group (EFRAG),3 fornecem um conjunto de normas para a divulgação de informações de sustentabilidade, incluindo tanto os aspetos de impacto (impacto da empresa sobre o ambiente e a sociedade) como os fatores financeiros (como a sustentabilidade pode afetar os resultados da empresa).