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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O petróleo é o principal indicador, uma vez que mais de 80% das exportações do País são do sector petrolífero e em dólares. Pela primeira vez em 20 anos, um euro cai até atingir a paridade com o dólar. A culpa é da tensão que se verifica entre a Rússia e a Ucrânia que provocaram escassez e elevaram os preços na Europa.

A valorização do Dólar face ao Euro favorece as trocas comerciais de Angola com a Zona Euro, pelo facto de as exportações angolanas serem maioritariamente em moeda norte-americana, apontam os especialistas consultados pelo Mercado.

 

A reacção dos economistas surge em função da desvalorização do euro face ao dólar que se verificou nesta semana, quando o euro atingiu a paridade com a moeda norte-americana, ao tocar 0,9999 USD, algo que já não acontecia desde 2002.

 

Segundo o economista e pesquisador Porfírio Muacassange, esta paridade beneficia Angola, dado que as receitas do País são maioritariamente denominadas em dólares e as despesas para com o maior importador em euro.

 

“ A valorização do dólar face ao Euro favorece as trocas comerciais de Angola com a Zona Euro, e em particular com Portugal, devendo traduzir-se num efeito positivo na Balança de Pagamentos. O mesmo efeito não é esperado nas relações comerciais de Angola com outros parceiros comerciais, já que a moeda privilegiada nessas trocas é o USD”, apontou.

 

“Angola exporta maioritariamente petróleo bruto (mais de 80% do total das exportações) e pequenas quantidades de diamantes, café, sisal e peixe, sendo os principais parceiros de exportação da China (mais de 40% do total das exportações), seguida dos Estados Unidos, Índia e França. Angola importa máquinas e equipamentos eléctricos, veículos e peças sobressalentes, medicamentos, alimentos, têxteis e artigos militares. Portugal é o principal fornecedor da economia angolana (18% do total das importações) seguido da China, Estados Unidos, Brasil e África do Sul”, justifica.

 

Para Francisco Paulo, economista e investigador do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) da Universidade Católica de Angola, o País poderá aumentar o poder de importação, uma vez que o petróleo é vendido em dólar e com esta paridade poderá comprar mais bens e serviços na Europa.

 

“Como o dólar está a ganhar peso, se se mantiver no curto, médio e no longo prazo, quer dizer que Angola terá mais poder de importar, e isso só poderá aumentar o poder de importação”, afirmou o investigador do CEIC.

 

Entretanto, Francisco Paulo esclarece que Angola não pode depender somente da importação, tem de ter capacidade de produzir bens e serviços também para exportar.

 

“Tirando o petróleo, na verdade, somos deficitários no comércio internacional já que as nossas exportações não petrolíferas não cobrem as exportações não petrolíferas”, apontou.

 

Por sua vez, o economista e docente Daniel Sapateiro, diz que “expectavelmente”, as importações de países europeus serão benéficas para Angola, já que poderemos adquirir bens e serviços mais baratos pela desvalorização do Euro face ao Kwanza e ao Dólar.

 

“Face à guerra de preços da energia e ao seu acesso, devemos apostar na optimização dos custos operacionais da actividade petrolífera e de gás natural e fazer contratos de fornecimento de gás natural liquefeito para ganharmos quota de mercado face à Líbia, Senegal, Nigéria, apenas citar alguns produtores e exportadores de gás africanos”, aponta.

 

Daniel Sapateiro defende que o momento é oportuno para que o País conquiste o mercado europeu: “Aproveitemos este tempo para conquistarmos a Europa, pois a História é rotativa, e um Euro mais forte, um dia voltará”.

 

Já o economista e consultor Augusto Fernandes, aponta que os ganhos conseguidos da apreciação do kwanza em relação ao Euro, provavelmente estão todos a ser diluídos na inflação gerada na Europa.

 

“A economia Angolana que é muito dependente das exportações petrolíferas que se encontram em alta, assim como é muito dependente das importações no espaço Europeu, que tem a moeda a depreciar, além da alta da inflação que se regista nesta geografia da economia internacional. Embora por um lado, a economia angolana precisa de menos kwanzas para comprar uma unidade de Euro que pode garantir compra no espaço da zona Euro”.

 

Por outro lado, segundo o economista, “a economia angolana tem que importar a inflação da zona Euro, logo os ganhos conseguidos da apreciação do kwanzas em relação ao Euro, provavelmente estão todos a ser diluídos na inflação gerada nesta mesma geografia. O mesmo entendimento se tem quando se estuda a relação entre o kwanza e o dólar”.

 

De acordo com Augusto Fernandes, quando se analisa a taxa de câmbio deve-se ter em conta que diversos factores podem aumentar ou diminuir a taxa de uma moeda estrangeira em relação a outra, mas o principal é a oferta e procura da moeda.

 

“O dólar, por exemplo, é uma moeda forte e valorizada em relação às muitas outras pois diversas transacções comerciais entre países de todo o mundo se baseiam nela. Além disso, factores políticos e económicos podem tornar uma moeda mais forte ou mais fraca, influenciando o preço final da taxa de câmbio. As taxas de câmbio são definidas a partir desses factores e dos regimes cambiais dos países, que determinam como ela será calculada. Esses regimes podem ser de três tipos: Fixo, Flutuante e Livre”, explica.

 

O comércio internacional

 

Augusto Fernandes argumenta ainda que a economia mundial, a grosso modo, tem uma dependência muito forte ao PIB da zona Euro e do PIB dos EUA, quando o PIB destas duas economias afunda, a economia mundial se afunda por arrasto.

 

“ Os altos custos de produção sentidos na Zona Euro por conta da alta do custo com a energia, e custos do contexto em volta da operação Russa na Ucrânia, são maior que os custos de contexto que afectam a economia dos EUA, por essas razões e por outras a contracção da actividade económica na zona Euro está a desvalorizar a moeda Euro em relação ao Dólar Americano”, explica.

 

Para o economista Francisco Paulo, em termos de comércio internacional, esta paridade poderá promover mais exportações na zona euro devido a desvalorização do Euro.

 

“ O euro desvalorizou, em termos de comércio internacional e isso é bom, fomenta mais exportações e mais turismo. Vai se verificar mais americanos a visitarem a Europa porque o dólar tem mais peso na europa. Assim, poderá se traduzir em mais turismo, mais importações de bens e serviços. Isso é bom para a balança de pagamento para os países da zona euro.

Francisco Paulo apontou também que a China pode também pode se beneficiar desta paridade.

 

“A moeda chinesa tem estado desvalorizada há muito tempo, e é um dos pontos da luta comercial que existe com os Estados Unidos. Com a sua moeda desvalorizada, é bom para as exportações chinesas porque para um País organizado, uma moeda desvalorizada pode significar mais exportações de bens e serviços e as exportações promovem o crescimento económico”

Segundo Francisco Paulo, neste momento os americanos que podiam comprar bens e serviços na China, podem comprar os mesmos bens na Europa, uma vez que a moeda europeia está mais baixa e podem encontrar bens substitutos na Europa.

 

Segundo Daniel Sapateiro reforça que a China tem a vantagem de poder desvalorizar a sua moeda (Yuan) para poder exportar mais, em quantidade e valor, para combater com o bloco europeu no concerne à Europa poder exportar os seus produtos e serviços mais baratos pela queda do valor do Euro.

 

“A China pode, ainda, adquirir activos e dívidas públicas europeias quando nesta fase os investidores procuram o mesmo mas do lado norte-americano, voltando a ver o dólar como moeda de refúgio e aproveitando a aceleração do aumento da taxa de juro nos EUA”, apontou.

 

Por seu turno Porfírio Muacassange, aponta que do ponto de vista do impacto das trocas comerciais, poderá assistir-se a uma diminuição das exportações dos EUA para a Europa, na medida em que se torna agora mais caro para o europeu adquirir uma unidade de dólar.

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