NewDetail

AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Exportações estão em alta, mas a indústria não descura as ameaças da inflação e das taxas de juro, e aposta na promoção internacional. A participação na Micam é disso exemplo.

Aindústria portuguesa do setor vive um boom enorme de procura por parte das grandes marcas internacionais. Quem o afirma é o presidente da associação do calçado APICCAPS, que, no entanto, teme pelo futuro. Para Luís Onofre, é vital que a indústria se prepare para o que aí vem.

 

"Com o abrandar da pandemia assistiu-se a uma loucura de consumo, mas temos de estar preparados para um embate brutal de uma baixa de consumo radical nos próximos tempos. Basta ver a perda de poder de compra dos consumidores europeus com a inflação a disparar e as taxas de juro a subir", alerta o gestor.

 

As declarações do empresário ao Dinheiro Vivo foram feitas no contexto da Micam, a mais relevante feira mundial do setor, que se inicia hoje em Milão, Itália, quando as exportações da atividade estão em alta.

 

A força do exterior

As empresas portuguesas exportaram, nos primeiros sete meses do ano, 48,4 milhões de pares de sapatos no valor de 1181 milhões de euros, um crescimento de 18,75% em quantidade e de 22,4% em valor. São 216 milhões de euros a mais do que no período homólogo. O preço médio cresceu 3,1% para os 24,38 euros por par. Números que o secretário de Estado da Economia, João Neves, elogia, destacando a "enorme recuperação da atividade" do setor que conseguiu "transformar este ano no melhor de sempre, ou muito perto disso".

 

Na comparação com o período pré-pandemia, esse valor representa um aumento de 8,5% face a 2019, mas fica aquém de 2018 e de 2017. É que, depois de, no primeiro semestre, terem ultrapassado o melhor ano de sempre do setor (2017, quando atingiu 1956 milhões vendidos ao exterior), as exportações de calçado abrandaram um pouco no mês de julho, ao crescer 6,6% em termos homólogos, mas abaixo de igual mês nos três anos anteriores à pandemia. A tradicional sazonalidade do setor ajuda a explicar. E a convicção é que agosto e setembro já representarão novo salto nas vendas para fora.

 

Prioridades do consumidor

Se isso chegará para ultrapassar a barreira dos 2000 milhões é a incógnita. "Acho difícil", diz, cauteloso, o diretor de comunicação da APICCAPS, Paulo Gonçalves, lembrando que as previsões de crescimento das principais economias têm vindo a ser revistas em baixa.

 

"Estamos a trabalhar para que o setor tenha um resultado muito positivo ao nível das exportações, mas reconhecemos que, dentro de mês e meio, a grande preocupação, no centro e norte da Europa, será com o frio, se vai haver gás para aquecimento e quanto é que ele vai custar. As prioridades do consumidor vão mudar completamente", sublinha Paulo Gonçalves.

 

Menos expositores portugueses

E é nesse esforço de promoção internacional que se insere a presença na Micam, a mais relevante feira mundial do setor, e que este domingo arranca em Milão, Itália. Portugal faz-se representar por 41 expositores (a que acrescem os 35 de curtumes e componentes que estarão na Lineapelle, que arranca a 21 de setembro), um número ainda tímido, face aos 96 de setembro de 2017, quando foi atingido a maior presença portuguesa neste certame, ou aos 81 de setembro de 2019.

 

Números que a APICCAPS admite que "dificilmente" se voltarão a repetir, pelo menos, no futuro mais imediato. "É uma presença mais modesta, mas há que ter em conta que, simultaneamente, tem havido um reforço do investimento em matéria de promoção digital", Paulo Gonçalves, sublinhando que "nunca tivemos tantas empresas a apostar na promoção online". São mais de 70, com um total de investimento que ultrapassa já os quatro milhões de euros no chamado Apoio à Valorização da Oferta.

 

30 milhões de euros para a internacionalizar

E o ministro da Economia, António Costa Silva, que hoje visita a Micam acompanhado pelo secretário de Estado João Neves, leva boas notícias aos empresários quanto à promoção externa. Tal como anunciou no final do Conselho de Ministros, quinta-feira, quando revelou o pacote de medidas extraordinário de apoio às empresas, o governo vai lançar, ainda em setembro, o concurso para os apoios aos projetos conjuntos de internacionalização, no valor de 30 milhões de euros.

 

Este será o primeiro, e possivelmente o único, aviso de transição entre o Portugal 2020 e o próximo quadro comunitário de apoio, o Portugal 2030, e visa dar resposta a uma "situação específica", que resulta da necessidade que as empresas têm de fazerem as marcações dos seus espaços nas feiras com muita antecedência. O que foi entendido como sendo um tema que mereceria "tratamento especial".

 

Da parte da APICCAPS, a medida foi recebida com agrado. "Trata-se do nosso ponto de vista uma medida adequada e muito oportuna. Numa altura em que começam a perfilar-se os primeiros sinais de abrandamento económico à escala internacional, com o Banco Mundial e a Comissão Europeia a reverem em baixa as previsões económicas, sentimos necessidade de um novo fôlego em matéria de promoção externa. Importa agora que esses apoios sejam rapidamente agilizados em benefício das empresas", diz Paulo Gonçalves.

 

Diversificar mercados

Quanto ao PT2030, está ainda a ser negociado em Bruxelas, com a Comissão Europeia, sendo que a perspetiva do Governo é que, até ao final do ano, a aprovação final esteja garantida. "Vamos ter, no essencial, reproduzido no PT2030 aquilo que são os instrumentos que temos no quadro atual dirigidos às empresas, mas com um enfoque mais forte, e uma dotação maior, nas questões da descarbonização, da sustentabilidade e da economia circular", explica João Neves.

 

Do lado dos apoios à internacionalização, o governo pretende "melhorar os mecanismos de eficácia" dos instrumentos, "premiando as estruturas associativas e os projetos que vêm demonstrando mais resultados, em detrimento de outros que cumprem os objetivos mas cuja eficácia, do ponto de vista da ação das próprias empresas, é mais limitado".

 

Além disso, a intenção é também reforçar a diversificação de mercados. "Não queremos perder quota na Europa, pelo contrário, queremos reforçar as nossas posições, mas precisamos de não estarmos tão dependentes de um mercado maduro como o da UE e, por isso, os instrumentos de internacionalização irão premiar o esforço de entrada ou de primeiros passos em novos mercados, sobretudo os EUA e o Canadá, mercados grandes e sofisticados onde as nossas empresas têm tudo a ganhar", defende João Neves.

 

Ausente da feira como expositor, desde a pandemia, Luís Onofre volta a marcar presença na Micam enquanto presidente da APICCAPS. "As grandes, grandes marcas que estavam na feira foram saindo aos poucos, apostando em showrooms próprios e as grandes lojas multimarca deixaram de existir. Para o meu género de calçado não se justifica ir à Micam, estamos a procurar o budget que temos para o online, com resultados muito interessantes", garante.

Partilhar