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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O hidrogénio foi apresentado como uma das grandes apostas nacionais na transição energética. Mas o que faz deste gás uma das esperanças para diminuir a emissão de gases com efeito de estufa e como podem os investidores ganhar com ele?

O hidrogénio é o elemento químico mais abundante do universo. Desde o século XVII, somos capazes de produzir artificialmente gás de hidrogénio (H2). Já as células de combustível, utilizadas para fazer eletricidade a partir de H2, foram inventadas no século XIX. Pode, por isso, parecer paradoxal que seja no século XXI que se depositem tantas esperanças no hidrogénio para a transição energética em curso. Isto é, a substituição das energias emissoras de gases com efeito de estufa por energias e combustíveis mais amigos do ambiente. As principais dificuldades são a produção, o armazenamento e a distribuição de hidrogénio a um custo razoável. Há, contudo, boas razões para avançar, sobretudo do ponto de vista ambiental.

 

A combustão e a produção de eletricidade apartir do hidrogénio liberta apenas vapor de água. Essa é a origem do seu nome, com raízes no grego "hidra" (água) e "gen" (gerador).

As cores do hidrogénio


O H2 na forma de combustível pode ser obtido por vários processos. Na literatura especializada é classificado por cores, consoante o tipo de produção e as emissões geradas nesse processo.


Atualmente, 95% do hidrogénio produzido ao nível mundial resulta de combustíveis fósseis. O mais comum (cerca de 70% da produção mundial) é o hidrogénio cinzento. Obtido do gás natural, é mais eficiente e gera menos emissões do que a versão preta ou castanha, produzidas a partir do carvão e da lignite, respetivamente.


O hidrogénio verde provém exclusivamente de fontes de energia renovável. Portanto, as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) geradas na sua produção são praticamente zero. No entanto, dado o custo superior das energias renováveis, é o mais caro de produzir: chega a ser dez vezes mais oneroso do que o hidrogénio cinzento. Aversão azul também é obtida a partir de gás natural, mas as tecnologias de sequestro de carbono, utilizadas para capturar os GEE, diminuem grandemente as emissões. Esta forma de hidrogénio está a ser promovida como fase intermédia, enquanto não é possível produzir hidrogénio verde em larga escala a um custo aceitável.


Aplicações possíveis


O grande atrativo do hidrogénio, enquanto combustível, é ser uma fonte de energia limpa Como referimos, a sua utilização não gera GEE, mas apenas vapor de água.


O H2 não é exclusivamente uma fonte de energia, mas pode operar também como vetor de armazenamento e transporte de energia, como as baterias. Papel a que se presta bem, pois tem elevada densidade energética. Por não exigir pesadas baterias, ser mais rápido para abastecer e não necessitar de longo tempo de carregamento, é preferível para o transporte aéreo, marítimo, ferroviário e de pesados de mercadorias. De referir ainda a versatilidade nas aplicações, podendo ser usado para diversos fins industriais.


O sucesso do hidrogénio não está, contudo, garantido. Do conjunto de obstáculos a ultrapassar, o principal é o elevado custo do hidrogénio verde, o único que é verdadeiramente "limpo". Neste momento, não é competitivo. Algo que é admitido pelos seus defensores, que esperam, no entanto, contornar o problema com a evolução das tecnologias de produção e o aumento da escala, e ainda com a contínua redução do custo das renováveis. Para isso, contam com a intervenção dos governos, afim de manter e tornar mais caras as licenças de emissão de CO2, de forma a encarecer os combustíveis fósseis.


Outro argumento, este sem grande oposição, é aquele que defende que, em vez de se produzir hidrogénio, é preferível utilizar as energias renováveis para eletrificar o consumo. Ou seja, substituir combustíveis fósseis diretamente por eletricidade. Por exemplo, ar condicionado em vez de lareiras, ou carros abateria em lugar da gasolina Até porque a produção e posterior conversão do hidrogénio em energia leva, ainda, a um considerável desperdício. A única forma de o hidrogénio verde fazer sentido, neste contexto, passa por aproveitar a produção em excesso de energias renováveis para obter hidrogénio verde. Um cenário ainda longínquo, admitamos. Mas também é verdade que há utilizações em que eletrificar é difícil, como referimos.

Plano português para o H2


Portugal traçou metas ambiciosas no capítulo das energias renováveis. De acordo com os últimos dados disponíveis, de 2018, representaram, neste ano, 30,3% do consumo final bruto de energia Somos o sexto país da União Europeia com maior quota de renováveis. A estratégia nacional prevê que o país se torne um líder também na produção de hidrogénio.


De momento, a energia usada nesta produção provém do gás natural, um combustível fóssil (hidrogénio cinzento). Contudo, o objetivo é atingir a liderança no hidrogénio verde, tentando aproveitar as boas condições nacionais para a produção de energias renováveis. Atualmente, o consumo de hidrogénio em Portugal é, sobretudo, industrial, com destaque para a refinação de petróleo em Sines. É precisamente nesta cidade alentejana que irá avançar um grande projeto para a produção de hidrogénio verde, que deve ultrapassar os 1,5 mil milhões de euros. Sines tem características interessantes, não só pela proximidade da indústria utilizadora do H2, como pelo seu porto, que facilita a exportação.


Um dos usos mais imediatos para o hidrogénio é a sua incorporação no gás natural distribuído pela rede para utilização do mestiça e industrial. Teoricamente, pode substituir até 22% do gás natural sem comprometer as características deste. Mas a meta é chegar a 10-15%, até 2030.


Investir no hidrogénio: é muito cedo ou já é tarde?


Do ponto de vista do investidor, não é fácil concretizar, neste momento, uma aposta no hidrogénio. Em termos gerais, precisa de escolher entre empresas caras, com prejuízos, ou empresas para as quais o hidrogénio não tem ainda impacto nos resultados. Não há muitas cotadas, cuja atividade principal esteja liga da ao hidrogénio, e as que existem já viram a sua cotação disparar, com os investidores a comprar tudo o que pareçam ser empresas envolvidas na transição para energias mais verdes. Basta recordar o caso da Nikola, empresa que se propunha ser a "Tesla do hidrogénio" e chegou a valer mais do que a Ford sem vender ou sequer completar o design de um único veículo. Recentemente, perdeu cerca de dois terços do seu valor, após alegações de fraude, que levaram à demissão do CEO.


Não é possível calcular a maioria dos indicadores tradicionais para estas empresas, já que todas apresentam prejuízos. Não têm lucro operacional ou sequer EBITDA positivo. Isto significa que, mesmo ignorando encargos financeiros, amortizações e previsões, as vendas não cobrem os custos das operações. Resultado: estão constantemente a necessitar de capital, emitindo dívida ou novas ações.


Se utilizarmos o indicador que relaciona o "enterprise value" (medida do valor da empresa que considera o endividamento) com as vendas, concluímos que estas empresas estão muito caras. Há, porém, uma exceção: a Bloom Energy. Ao oferecer soluções para gerar eletricidade, que podem ser, no imediato, alimentadas a gás natural, conseguiu crescer as vendas a um ritmo elevado (26% anualmente, nos últimos cinco anos) e gerar fluxos de caixa positivos das operações em vários trimestres de 2019. Uma raridade nesta seleção de ações.


Contudo, a empresa revela vários riscos: o endividamento é elevado, o que, aliado aos prejuízos constantes, que não dão sinais de diminuir, é uma combinação perigosa. Do ponto de vista tecnológico, alguns peritos questionam também a eficiência da tecnologia Não compre.


Empresas em transição


As grandes empresas energéticas procuram reorientar as suas atividades para as energias mais limpas, mas o peso dos combustíveis fósseis nos resultados é ainda colossal. Por exemplo, a Shell vai desenvolver a maior fábrica de hidrogénio verde da Europa, usando energia eólica no mar do Norte. A BP tem afirmado a vontade de se reinventar como empresa de energia sustentável e a Total está a implementar algumas iniciativas. Contudo, nos próximos anos, a evolução das respetivas cotações não conseguirá dissociar-se do preço do petróleo, que deverá continuar baixo.


Dentro deste segmento de empresas, preferimos as operadoras de gás natural, combustível que deverá ser relevante por mais tempo do que o petróleo. Por causa da pandemia, as cotações não estão a conseguir ganhar tração embolsa, mas podem ser empresas interessantes a médio prazo. Mantenha em carteira, ou debaixo de olho se ainda não tem, a francesa Air Liquide (ISIN FR0000120073),lí- der nos gases industriais e médicos e um dos maiores produtores mundiais de hidrogénio.

 

Este título faz parte da seleção da Proteste Investe. Fora da nossa seleção, a Snam captou-nos a atenção. Foi das primeiras empresas do mundo a injetar hidrogénio na rede de gás natural. Em outubro, anunciou que irá adquirir uma participação na lTM Power para tentar subir na cadeia de valor do hidrogénio, além de várias parcerias com diversas entidades para promover a sua utilização. Contudo, como o negócio da distribuição de gás é, neste momento, muito regulado, os resultados serão, porém, previsíveis. A pandemia e as dificuldades da economia italiana também pesam sobre a atividade. Não é, por isso, o momento ideal para investir.


Em suma, devido ao entusiasmo dos investidores pelas energias "limpas" e à valorização das empresas líderes no hidrogénio, investir nestas empresas pode tornar a sua carteira, tal como o hidrogénio, volátil e altamente inflamável. Para ganhar com a transição energética prefira opções mais diversificadas em termos de energias renováveis, como as francesas Engie e Schneider Eletric, ou consulte ETF dedicados no site da Proteste Investe.

A valorização das empresas líderes no hidrogénio pode tornar a sua carteira altamente inflamável. Prefira opções mais diversificadas, como a Engie e a Schneider Electric.

Para que serve o H2
O hidrogénio tem um uso potencial em praticamente todas as áreas: transportes, comércio
e indústria. Pode fornecer energia para uso em diversas aplicações, incluindo distribuição
de calor, energia auxiliar para camiões, comboios, etc. O objetivo é reduzir as emissões de carbono.

As cores do hidrogénio
O H2 é classificado por cores, consoante as emissões geradas na produção. O azul é produzido da mesma forma que o cinzento, mas o carbono gerado é capturado, reduzindo as emissões.

Quem dá cartas
As principais empresas especializadas no H2 estão muito caras, devido a anos de prejuízos e cotações inflacionadas pelo apetite "verde" dos investidores.

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