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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Realizado pela primeira vez em Portugal, como porta de entrada na Europa, o evento de empreendedorismo que teve lugar em Oeiras premiou duas startups nacionais. E pela primeira vez também houve investimento numa empresa no decorrer da iniciativa.

A grande vencedora da primeira edição do Pitch at the Beach em Portugal, com apresentações de cinco minutos a investidores, que decorreu na Marina de Oeiras, de 2 a 4 de Julho, com 30 startups, 13 delas nacionais, foi a portuguesa Bandora – nome criado num site de acrónimos e que significa uma cítara indiana, mas também o nome da bruxa dos Power Rangers.

 

“Achámos piada ao significado e, como é uma palavra que, dita em inglês, também soa bem, escolhemo-la entre centenas de outras”, conta, divertida, Márcia Pereira, co-fundadora da Bandora.

 

A verdade é que esta startup portuguesa começou a semear magia assim que nasceu. Criou uma solução de software, ou seja, uma aplicação de inteligência artificial para a gestão energética dos edifícios, na medida em que consegue co-relacionar em tempo real todos os dados gerados, devolvendo o reajuste automático dos seus equipamentos. Consegue-se desta forma reduzir o consumo energético até 40%, melhorando ao mesmo tempo o conforto dos ocupantes. “Ajudamos os gestores dos edifícios a ultrapassar a complexidade dos smart buildings”, explica.

 

Esta solução de software integra-se com a IoT (Internet of Things) existente nos edifícios, recolhe dados, analisa e toma decisões pelo gestor do edifício – a cada cinco minutos verifica qual é a melhor temperatura, quando se deve aumentar ou baixar, quando ligar e desligar. “Utilizamos modelos de machine learning para prever o consumo energético do edifício e a temperatura ambiente do espaço, como se um técnico de manutenção estivesse 24 sobre 24 horas a fazer esse trabalho, mas, neste caso, não é necessária a supervisão humana, tornando o edifício autónomo”, diz.

 

A ideia de negócio da Bandora surgiu de uma conversa entre três membros da equipa em Abril de 2017. Márcia Pereira colaborava numa startup que tinha uma tecnologia de IoT para a gestão da iluminação, mas depressa viu que se poderia fazer muito mais. “Sou engenheira mecânica dos edifícios e especialista em eficiência energética, e considerei que com a inteligência artificial se poderia ir mais longe do que apenas controlar a iluminação. Então resolvi sair e investir num projecto com o Ricardo Gomes.”

 

O primeiro passo foi enviar um pitch da ideia para o UPTEC (incubação virtual). Foram aceites e logo convidados para participar no concurso de ideias Climate Launchpad. “Tivemos de criar tudo de raiz. Não tínhamos nome, nem apresentação, nem as ideias ainda sistematizadas, mas fomos uma das equipas aceites.” Esta solução 100% nacional é uma spinoff da Universidade do Porto, incorporada em 2017, e esteve quatro anos a fazer investigação e desenvolvimento.

 

Márcia Pereira e Ricardo Gomes investiram cerca de 100 mil euros do seu bolso e a CEO refere que este é um negócio que fica a peso de ouro no que toca a recursos humanos. “Estamos na vertente das deep tech – tecnologias muito dispendiosas ao nível de pessoal. São pessoas com uma elevada formação como, por exemplo, doutorados em inteligência artificial, engenheiros mecânicos, software development, entre outros, além da dificuldade de encontrar recursos nesta área.”

 

A Bandora é resiliente e tem conseguido investimento. Em Fevereiro de 2020, através do Portugal 2020, angariou 513 mil euros; depois, em 2021, teve um investimento do Portugal Ventures no âmbito do Call Inov ID, no montante de 100 mil euros. Agora ganhou o primeiro lugar no Pitch at the Beach. Não tem valor monetário, mas conseguiu dois anos gratuitos de incubação no Taguspark – no valor de 42 mil euros – e apoio à incubação no laboratório da Altice, e recebeu ainda um smartphone da Huawei.

 

Actualmente, a Bandora tem dez empregados, está localizada no pólo técnico da Universidade do Porto e já tem quatro clientes que reúnem, ao todo, 107 edifícios. Dentro desta amostra, um dos edifícios poupou 63% de energia – e só em ar condicionado. Também já internacionalizou a marca com um contrato assinado na Holanda. Agora, com a presença no Pitch at the Beach e com alguns business angels da América Latina, a porta está aberta para se expandir para essas geografias. A missão da Bandora é contribuir de forma significativa para que os países possam atingir as normas de performance energética (exemplo da norma europeia EPBD), utilizando a inteligência artificial para atingir resultados reais ao nível da eficiência energética.

 

O que procurava no Pitch at the Beach? “Tentámos angariar 1,5 milhões de euros. No final do ano passado, a facturação da Bandora rondou os oito mil euros por mês, mas as oportunidades de negócio já identificadas para este ano totalizam 900 mil euros em vendas”, contabiliza a responsável, contando que a experiência neste evento foi muito positiva e estando confiante em que poderá conseguir algum apoio financeiro dos business angels presentes no evento. “A totalidade, talvez não, mas poderá cobrir uma boa fatia do capital necessário para o nosso crescimento”, explica, adiantando que nunca esteve num evento como este.

 

“Confesso que não estava à espera deste grau de informalidade. É um evento muito mais humano, de contacto, de conhecimento. Não há distinção entre investidor e empreendedor. Todos falam com todos. Depois, aquela landscape sobre o rio Tejo... Foi incrível”, relata a vencedora do evento, dizendo que já participou em vários eventos nacionais e internacionais, em programas de aceleração – inclusivamente, a Bandora foi uma das empresas portuguesas seleccionadas pela Web Summit de 2017 como das mais promissoras e umas das três seleccionadas para fazerem uma apresentação à Secretaria de Estado da Indústria e à comissão executiva da EDP –, e este evento foi o que mais a impactou.

 

A magia deste negócio passa por incorporar duas tendências fundamentais para o futuro, a inteligência artificial e a sustentabilidade via poupança energética, mas desengane-se quem pensa que basta uma boa ideia para conseguir financiamento. Os tempos de Silicon Valley já passaram. Agora é preciso mostrar contas, resultados e possíveis clientes.

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