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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

21 escritores de língua portuguesa e dois chefes de cozinha participam na programação do Pavilhão de Portugal na Bienal do Livro de São Paulo. À Renascença, a curadora Isabel Lucas fala das “urgências” do Brasil e do mundo que motivam o diálogo entre autores portugueses e brasileiros.

É uma programação de “diálogo”, aquela com que Portugal, o país convidado de honra da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, se apresenta na feira que decorre de 2 a 10 de julho. No Pavilhão português vão estar 21 escritores portugueses que vão conversar com brasileiros sobre diversos temas. Entre os convidados estão José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso, Francisco José Viegas ou Valter Hugo Mãe.

 

Em entrevista à Renascença, a curadora da programação, a escritora e jornalista Isabel Lucas explica de que forma moldou a frase “É urgente viver encantado”, de Valter Hugo Mãe que serve de tema às conversas entre autores. No ano do centenário de José Saramago, será também evocada a memória do Nobel português numa exposição e o seu legado literário em alguns debates.

 

Também a obra de Agustina Bessa-Luís, desconhecida de muitos brasileiros, será debatida e lida, numa feira de grande público. Além dos autores portugueses, há dois de língua portuguesa que estão a gerar grande curiosidade entre os brasileiros, a Prémio Camões Paulina Chiziane e o timorense Luís Cardoso, revela a curadora.

 

“É urgente viver encantado” é a frase do escritor Valter Hugo Mãe que serve de mote à programação desta embaixada de escritores que participa na Bienal do Livro de São Paulo. De que forma a frase moldou a programação que pensou?

 

Essa frase, quando me convidaram para fazer a curadoria já estava selecionada. Não fui eu que a escolhi, mas deram-me liberdade para a interpretar. É uma frase que eu li em função da programação que quis fazer. À medida que ia fazendo a programação ia lhe dando uma interpretação.

 

Os 21 autores que foram escolhidos vão dar corpo a essa programação. Como foram escolhidos?

 

A seleção de escritores previa 21 escritores na comitiva, e essa seleção estava condicionada. Tinham que ser autores com livros a sair, ou publicados recentemente no Brasil, isto porque a Bienal é uma bienal de grande público, e a ideia é as pessoas que estão na feira poderem ter livros daqueles autores disponíveis. Isso condicionou obviamente a lista. Teriam de ser escritores com essas caraterísticas.

 

Estamos num mundo cheio de urgências. O Brasil vive e experiência vários tipos de urgências. É um ano de eleições, é um ano com várias preocupações a nível de pobreza. Uma estatística recente indica que 33 milhões de brasileiros estão neste momento a passar fome.

 

Os autores vão participar em debates no Pavilhão, em torno de temáticas?

 

A maneira como eu concebi a programação teve a ver com a ideia de conversa, de diálogo entre Portugal e Brasil. Cada autor vai estar a conversar nas mesas do Pavilhão de Portugal com outros autores brasileiros. Isto porque, permite ter uma conversa em que as duas literaturas se possam conhecer melhor e traz às conversas novas perspetivas de leitura de obras. É a possibilidade de trazer novas inquietações, perguntas, questões a debate.

 

Nesse sentido como trabalhou a frase de Valter Hugo Mãe para gerar essas inquietações?

 

A ideia de urgência que está na frase de Valter Hugo Mãe, é muito simbólica, não só no Brasil, mas também neste momento no mundo. Estamos num mundo cheio de urgências. O Brasil vive e experiência vários tipos de urgências. É um ano de eleições, é um ano com várias preocupações a nível de pobreza. Uma estatística recente indica que 33 milhões de brasileiros estão neste momento a passar fome. Há a questão da Amazónia, do ambiente, a questão indígena, da raça, LGBT, são tudo temas que são muito falados neste momento, e que passam para a agenda literária. A agenda política marca necessariamente a agenda literária.

 

Como é que isso pode conversar com as outras urgências mais globais? Talvez a literatura portuguesa reflita de outra maneira. Então, são estes diálogos que eu gostava que fossem possíveis, até porque, sublinhando mais uma vez, é uma bienal de grande público, as pessoas que vão estar a assistir têm de se sentir incluídas na conversa, e este lado de serem brasileiros sobretudo a fazerem mediações de quase todas as conversas, traz perguntas novas para os autores portugueses.

 

Há autores portugueses que são novidade para os brasileiros.

 

Há alguns que não vêm tanto ao Brasil, há outros que têm uma relação muito próxima com o Brasil. O Valter Hugo Mãe é um deles, e, portanto, não se pode fingir que ele não é talvez o nome mais conhecido no Brasil entre quem está na comitiva, e mesmo de quem não está na comitiva. Esta frase dele tem também esse simbolismo.

 

O mais recente livro de Valter Hugo Mãe é todo sobre o Brasil.

 

Ele acaba de lançar um livro em que fala das "Doenças do Brasil". Acaba de sair aqui, e a maneira como isso pode ser interpretado pode levar a várias visões, incluindo a noção do lugar da fala, que é uma expressão de uma escritora ativista brasileira, a Djamila Ribeiro e que pode levar a conversas, sobre precisamente até que ponto é que a literatura pode imaginar, e se pode pôr no lugar do outro. É precisamente esta ideia do outro que começa por ser o arranque da Bienal, na primeira conversa com o Valter Hugo Mãe, a Lilia Schwarcz e o Daniel Munduruk.

 

Quem são os outros autores convidados?

 

A escolha estava condicionada a esses autores que estariam a ser publicados nesta altura. Foi preciso estreitar aqui um bocadinho o número, chegar aos 21. Houve que fazer alguns ajustes por questões de agenda, alguns autores dessa lista não poderiam vir, e depois foi fazer um puzzle, sendo que o puzzle deveria também contemplar diversidade de estilos. Não vêm só ficcionistas, também vêm poetas, ensaístas, nomes ligados à banda desenhada e também à literatura infantil que é um espaço muito importante na feira que ultrapassa o pavilhão de Portugal e portanto, foi pensado também nessa perspetiva.

 

Mas há também autores de língua portuguesa que vão de fora de Portugal

 

Nos não portugueses está incluída a Paulina Chiziane, porque ganhou o Prémio Camões, e neste momento há uma grande curiosidade em relação ao trabalho dela. Trazer a Paulina Chiziane na comitiva portuguesa pareceu ao grupo de trabalho, do qual fazem parte o Instituto Camões, a FLAD, o Turismo de Portugal e o AICEP, necessário e evidente.

 

É a primeira mulher africana a ganhar o Prémio Camões. Se não fosse Portugal a trazê-la, dificilmente ela conseguiria vir agora. O mesmo acontece com o Luís Cardoso, pelo qual há uma curiosidade muito grande, por falar de um mundo muito longínquo aos leitores brasileiros. O livro dele também acaba de ser publicado cá, "O Plantador de Abóboras", ganhou o Prémio Oceanos, e também, se não fosse Portugal a trazê-lo, muito dificilmente ele viria.

 

Estão a gerar curiosidade para a Bienal?

 

Sinto aqui, e quando falo com os brasileiros, que há uma grande expetativa em relação a estes dois nomes, que são os não portugueses incluídos na comitiva. São as exceções e têm uma explicação por isso. Também a obra da Paulina, por via do Camões, está a ser reeditada, está a ser muito exposta e está disponível quase toda neste momento no Brasil.

 

Há programação paralela, e parte dela celebra o centenário do Prémio Nobel, José Saramago.

 

No espaço de Portugal na Bienal vai estar uma exposição de fotografia de José Saramago e a obra dele vai estar em discussão em pelo menos duas mesas, e aqui mais uma vez, com escritores portugueses e brasileiros de outra geração que não a dele, para tentar perceber que influências e que marcas ele deixou nas duas literaturas. Vamos ter entre os autores brasileiros escolhidos, a Socorro Acioli, e noutra mesa o Julián Fuks que ganhou o Prémio Saramago. A ideia é perceber o legado do Saramago nas duas literaturas.

 

Há outro centenário que não quis deixar passar e gostava muito que isto pudesse servir para alguma coisa, que é o centenário da Agustina Bessa-Luís. Ela faria 100 anos este ano, e ela é praticamente desconhecida no Brasil. Há um nicho muito reduzido da academia que conhece parte da obra da Agustina, mas ela é um nome muito pouco conhecido.

 

O que vão fazer para melhor dar a conhecer Agustina Bessa-Luís no Brasil?

 

Vai haver uma sessão onde vamos ler Agustina, vamos tentar perceber porque é que a Agustina não chega aqui e tentar dar a conhecer quem foi Agustina e a obra dela. Perceber as resistências, as motivações que fazem com que ela seja tão pouco lida e conhecida no Brasil.

 

O Pavilhão de Portugal vai ter uma livraria?

 

Sim, essa foi uma preocupação. É uma feira de grande público, as pessoas que vão ali ouvir os autores, podem comprar livros de todos estes autores. Há livros recentes disponíveis. Todos têm livros que podem ser comprados e lidos. Essa foi uma preocupação.

 

A comitiva é limitada, são 21 autores de literatura, mais dois chefs que fazem parte da programação de gastronomia e que tem a ver com outra curadoria da Bienal que é ligada à gastronomia. Depois cruzam conversas. Vai haver no Pavilhão de Portugal conversas com estes autores, explorando o lado de como se pode contar as histórias das gastronomias destes dois países paralelamente à história da cultura destes dois países. Isso vai estar aqui com os chefs Vitor Sobral e o André Magalhães.

 

Há aqui também uma intenção de trazer nomes que são considerados fundamentais na literatura portuguesa dos últimos 100 anos. Vão ser lidos poemas, e alguns excertos de prosa por pessoas como a Adriana Calcanhotto, a Lívia Nestrovski, o Kalaf Epalanga e a Matilde Campilho que são pessoas que estão habituadas a ler, a dar a voz a outros autores, e esta é uma das atividades que está a gerar alguma expetativa.

 

A partir de uma extensa lista que lhes foi transmitida, vamos ver ao que vão dar voz. Eles têm a liberdade para escolher aqueles com quem se identificarem mais e dar voz com sotaque a esses autores portugueses, e aos que não estão na comitiva, porque alguns já morreram.

 

O que espera depois da Bienal, o que acha que pode esta representação portuguesa trazer?

 

Espero que possa aumentar a curiosidade. Se houver uma maior curiosidade pela literatura feita em Portugal, já fico muito contente. Se houver mais editoras a quererem publicar autores portugueses, também fico mais contente. Esta ideia da conversa, gostava muito que continuasse entre as duas literaturas. Que fosse uma conversa possível!

 

Algumas destas conversas foram pensadas, porque há pessoas com posições opostas, em relação aos temas a discutir. Há mesas em que sei, à partida, que as duas pessoas que ali estão têm posições muito diferentes sobre o tema a discutir.

 

Espero que essas conversas sejam possíveis na diferença. Cada vez mais a diferença é impossível. As conversas são quase sempre para se estar de acordo, e cada vez menos para se poder estar em desacordo de uma maneira civilizada, que seja conversada e não seja boicotada, porque duas pessoas se recusam conversar sobre a diferença. É uma coisa que gostava que fosse possível.

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