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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

85% das exportações nacionais são de sapatos em pele, "a melhor matéria-prima disponível", defende a APICCAPS. Ações de promoção sobre a sustentabilidade destes artigos, produzidos com base em desperdícios da indústria alimentar, arrancam na Micam.

Será em Milão, na Micam, a maior feira internacional do calçado, que a indústria portuguesa dará início à defesa do couro juntos dos compradores e consumidores internacionais. O objetivo é "desmistificar ideias preconcebidas", contrapondo com os argumentos competitivos que "tornam o calçado em couro um produto de excelência". Mais, para a APICCAPS, liderada por Luís Onofre, a pele é "indiscutivelmente a melhor matéria-prima disponível no mercado", designadamente em termos de sustentabilidade e economia circular, e de durabilidade. Terá dois engraxadores para o recordar aos milhares de visitantes que passarão pela Micam de 18 a 21 de setembro.

 

O couro tem sido, por tradição, a matéria-prima mais usada pela indústria portuguesa, vocacionada, durante muitos anos, quase exclusivamente para o segmento de sapatos clássicos. Em 2010, o calçado de couro assegurava 91% das exportações nacionais, hoje, fica-se pelos 85%, já que o comportamento dos consumidores mudou e, nas últimas décadas, têm vindo a dar preferência ao calçado mais desportivo, muito do qual é produzido noutros materiais. Além disso, com a proliferação de vegetarianos e veganos, muitos são os consumidores que recusam a compra de artigos em pele. Para a associação do calçado, em muitos casos, a escolha é toldada por "ideias préconcebidas que não correspondem à verdade", pretendendo, por isso, centrar a sua comunicação internacional em ações de pedagogia para que o consumidor possa tomar decisões informadas. "É importante que, no limite, ninguém pense que estamos a criar vacas para produzir sapatos, o setor aproveita os desperdícios da indústria alimentar, promovendo a economia circular", sublinha o diretor de comunicação da associação.

956,9 milhões de euros foi o valor das exportações de calçado no primeiro semestre do ano, o maior de sempre. Os sapatos em couro valem 85% do total (816 M€) e os de materiais têxteis pesam 4,6% (43,7 M€)

 

E, "ao contrário do que se poderia prever", garante Paulo Gonçalves, o consumo de carne "está a aumentar e a bater recordes": cresceu 5,2% entre 2016 e 2020, a nível mundial, devendo ter aumentado cerca de 15% em 2021 para "novo máximo histórico". Só a China regista um crescimento acumulado de 41% no consumo de carne desde 2016.

 

Para avaliar a sustentabilidade do couro, a APICCAPS recorreu ao INSURE.hub, o projeto que junta a Católica Porto Business School e a Escola Superior de Biotecnologia à Planetiers New Generation, e que pretende criar um "ecossistema internacional vibrante de conhecimento transdisciplinar que promova soluções de negócio de âmbito circular, sustentável e regenerativo, potenciadas por tecnologias disruptivas". Os resultados deste trabalho vão ser divulgados, com ações no terreno, nomeadamente em certames profissionais, junto de potenciais clientes, mas igualmente com uma promoção orientada para os consumidores finais, com anúncios em revistas e vídeos nas redes sociais.

 

30,45 euros é o preço médio de exportação do calçado de couro, mais 29% do que em 2021. Os sapatos em materiais têxteis são exportados, em média, a 14,95 euros (+ 30%) e o plástico a 5,98€ (+15%).

 

"Procurámos, durante o último ano, e envolvendo entidades suecas, estudar todas as métricas que nos permitam comparar os diferentes materiais usados na indústria do calçado, procurando perceber o impacto do couro comparativamente a outros produtos, e como o podemos tornar ainda melhor", explica Paulo Gonçalves, que aponta não só a questão da promoção da economia circular, mas também outros fatores determinantes para a sustentabilidade, como a durabilidade ou a dispensa de lavagem, e consequente uso de água, na sua manutenção. "Ainda que os estudos internacionais sugiram que o período médio de vida de um par de sapatos é de um ano, os testes mostram que o calçado de couro tem uma durabilidade consideravelmente mais longa. Mais, são artigos que podem ser tratados e recuperados, fazendo com que o produto ganhe uma nova aparência. E isso agrega valor", diz a associação.

 

É verdade que o calçado de couro custa mais do dobro do produzido em materiais têxteis, mas, para a APICCAPS, a sustentabilidade está também em consumir menos. A convicção do setor é que "os sapatos portugueses serão a escolha natural de um consumidor informado, que irá preferir comprar artigos mais caros, mas que durem mais, protegendo, assim também, o planeta e o meio ambiente".

 

Recorde-se que, em 2021, foram produzidos 22 mil milhões de pares de sapatos no mundo, um número que, tirando o período de pandemia, tem crescido ano após ano. 88% são originários de países asiáticos. Em volume, mais de metade da produção é de sapatos de borracha ou plástico. Em valor, o couro lidera com uma quota mundial de 37,7%. "22 mil milhões é demasiado", diz Paulo Gonçalves, garantindo que Portugal não tem intenção de produzir mais, mas melhor.

Este ano, o couro português ganhou um selo de qualidade, com a publicação, logo no inicio de janeiro, da regulamentação da Autenticidade do Couro em Portugal.

 

Com 76 milhões de pares produzidos em 2021, Portugal é o 19º maior produtor do mundo, sendo o 9º maior exportador de calçado de couro. Refira-se, na década de 90 do século passado, Portugal chegar a produzir quais 109 milhões de pares de sapatos, mas com um valor acrescentado menor. Basta ter em conta que as exportações, à época, não iam além dos 1.300 milhões de euros; este ano, e a manter-se a trajetória do primeiro semestre, espera-se que possam bater o melhor resultado de sempre, os 1.956 milhões de 2017.

 

Mas isto não significa que o setor se vá focar em exclusivo no couro - "não podemos ser insensíveis ao mercado, temos que ter soluções para responder à procura" - ou que não haja caminho a fazer na melhoria das condições de preparação das peles. Tal como dos outros materiais. O projeto BioShoes4All, que será financiado pelo PRR, pretende, precisamente, desenvolver soluções sustentáveis para o cluster do calçado e da moda. São 70 os parceiros envolvidos, num investimento de 129,5 milhões de euros. O uso de colas de base aquosa, a redução ou eliminação do curtimento à base de crómio e a preferência a peles de gado criado em vastas pastagens são algumas das boas práticas a implementar, tal como os princípios da transparência e rastreabilidade.

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