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CABEÇALHO

Euro desceu esta semana, pela primeira vez, abaixo do valor do dólar, trazendo novos desafios à economia europeia e nacional. Taxas de juro deverão subir de forma mais agressiva e Euribor poderá atingir os 2% em meados de 2023.

Durante toda a semana, o euro e o dólar dançaram na corda bamba: atingiram a paridade cambial (o mesmo valor) na passada terça-feira - como aliás já tinha acontecido em julho passado, 20 anos depois - e desde então a moeda única europeia ora está abaixo da linha ora ligeiramente acima. Certo é que, pela primeira vez em duas décadas, o euro negoceia abaixo do dólar, trazendo desafios acrescidos à economia europeia. Consequência da crise sanitária, da guerra na Ucrânia e das sansões impostas à Rússia e, sobretudo, da crise energética que daí advém, o euro tem assistido a um enfraquecimento generalizado do seu valor nos mercados mundiais, que, depois da quebra já sentida de 15% no ano passado, não apanhou de surpresa os especialistas. Um dos maiores problemas que acarreta é a importação de inflação, numa Europa que já tem uma taxa de inflação a bater os 9%.

 

Várias são as razões que estão na base desta depreciação - como a elevada inflação, receio de uma recessão, e o impacto da crise energética -, mas uma das principais prende-se com uma postura mais agressiva da Reserva Federal norte-americana (FED) no que respeita à subida das taxas de juro de referência, em comparação com o Banco Central Europeu (BCE), que iniciou esta escalada mais tarde e de forma mais lenta. "É impossível não haver aumentos das taxas de juro. Estamos a reboque das taxas de referência dos Estados Unidos e outros bancos centrais e, por isso, temos de ir atrás. Não aumentar piora ainda mais a inflação, que está muito centrada na energia, e como o preço desta é estabelecido no mercado internacional em dólares, terá mesmo de ser esse o caminho", assegura João Duque, economista e professor catedrático do ISEG. Afirma que acredita ser muito provável que as taxas subam de uma forma razoavelmente agressiva face àquilo que tem sido a atuação normal do BCE, e que se continue a escalar os 50 pontos base ou até 75 pontos base até ao final deste ano. "Acho que, se calhar, até se dará o primeiro salto de 75 pontos já em setembro. Neste momento a defesa da inflação passa também pela defesa do euro, e este só será defendido se se aumentarem as taxas de juro na União Europeia", explica. Um dos maiores problemas que o euro enfraquecido acarreta é a importação de inflação, numa Europa que já tem uma taxa a bater os 9%.

 

Certo é que os investidores têm penalizado a Europa pela resposta mais lenta do BCE, liderado por Christine Lagarde, na subida das taxas de juro, e é possível que, no curto prazo, o euro continue a depreciar face ao dólar, afirma Carlos Andrade, economista chefe do Novo Banco. "Até onde, é difícil dizer. Mas não seria estranho se recuasse para os 0,97 ou mesmo 0,95, dependendo da evolução da situação energética na Europa.

 

Uma das razões principais que explica a depreciação da moeda única face ao dólar é a maior agressividade da Reserva Federal norte-americana na subida das taxas de juro.

 

Este movimento deverá inverter-se, eventualmente, quando a FED sinalizar uma pausa na subida dos juros e quando o mercado se focar mais nos problemas da economia americana", diz este economista. "Um euro mais fraco torna ainda mais cara a energia importada, o que pressiona, em baixa, as margens das empresas e sustenta uma inflação elevada por mais tempo. Isto é negativo para o poder de compra das famílias, e pressiona o BCE a aumentar os juros de referência, mesmo com os riscos de uma recessão, o que também pode ser penalizador para a situação financeira das famílias e das empresas", explica Carlos Andrade. O economista defende que o BCE tem de equilibrar o risco de recessão com o risco de a inflação se tornar mais impregnada e permanente e acredita também que, como "o mandato do BCE pende para a estabilidade dos preços, este não deverá evitar a subida dos juros nos próximos meses".

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