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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Há 40 anos que são diferentes e pioneiros, sustenta Daniel Traça, diretor da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), quando questionado sobre a independência desta escola face aos interesses dos privados, que doaram €50 milhões para financiar o novo campus junto ao mar, em Carcavelos.

O objetivo passa agora por captar mais alunos, portugueses e estrangeiros. Porque, num mundo que é global, já não faz sentido distinguir entre uns e outros, defende Daniel Traça. Apesar da descida no último ano nos rankings do "Financial Times", chegar ao top 10 das melhores escolas de gestão da Europa continua a ser uma meta. A recuperação não tardará, assegura.


O novo campus da Nova SBE foi inaugurado no início do ano letivo. Que impacto já sentiram com a mudança?
A experiência vivida pelos alunos é a mais visível e imediata. Não só porque é um campus maravilhoso [junto à praia de Carcavelos], mas porque lhes permite outra forma de estar, trabalhar e interagir. As instalações em Campolide já estavam sob muita pressão com o crescimento que tivemos.


Houve mais candidaturas?
Não. Registou-se uma diminuição em número, mas um aumento na qualidade dos estudantes. Para o próximo ano letivo esperamos uma subida de 20%, acima do que estimávamos. O facto de termos estado durante os últimos quatros anos muito absorvidos pela campanha de angariação de fundos para o campus, a própria construção das instalações e o desenvolvimento da parceria com as empresas privadas, não ajudou. A descida do mestrado de Gestão no ranking do "Financial Times" também teve impacto. Mas agora que a mudança está concretizada, a escola pode finalmente ocupar-se a 100% no que é o seu projeto.


Quais são as prioridades?
Esta é uma escola muito virada para o futuro e que quer ser diferente. Iremos centrar-nos nas novas competências que precisamos de dar aos alunos, na aproximação às empresas e no desenvolvimento da investigação. Esta é a segunda etapa deste processo: a do saber e o impacto na sociedade.


São uma escola mais virada para os alunos estrangeiros do que para o mercado interno?
Pensar o desenvolvimento do talento português fora de um ambiente internacional é não preparar os nossos jovens para o século XXI. Os estrangeiros que estão cá trazem valor acrescentado para Portugal: contribuem financeiramente para o país, garantem uma multiculturalidade e uma experiência que enriquece os nossos alunos e podem ainda ajudar empresas nacionais que se querem internacionalizar. A distinção entre alunos estrangeiros e portugueses não corresponde à nossa forma de ver o mundo. Um país pequeno como Portugal, num mundo 100% globalizado, só pode transformar a sua economia se for uma plataforma em que os estrangeiros chegam, passam, saem e os portugueses aprendem com isso. É essa a lógica que sempre nos orientou como quando começámos a lecionar em inglês, nos anos 90 e que temos de fortalecer.


A Nova SBE é uma escola pública, mas as propinas nos mestrados ultrapassam os €11 mil por curso. Estes valores não excluem muitos alunos portugueses?
É uma preocupação e temos vários programas de apoio aos alunos, com base no mérito e nas necessidades [económi
cas]. As propinas são uma receita importante e temos de pesar a necessidade de financiamento para garantir os melhores recursos e assegurar o acesso, independentemente da condição económica.


Foi difícil convencer as empresas a investirem no campus'!
O nosso exemplo não tem paralelo nem em Portugal nem na Europa, fora o Reino Unido. Se for falar com uma escola francesa ou italiana sobre fund raising e a entrada de empresas em processos destes vão dizer que isso não se faz. Tratando-se de uma novidade, a capacidade de as empresas reagirem é sempre menor do que aquela que gostávamos. Mas com os financiadores iniciais (Jerónimo Martins, família Soares dos Santos, Banco Santander Totta e Câmara de Cascais), que embarcaram quando o projeto era ainda um sonho no papel, e todas as outras empresas e cidadãos comuns que se seguiram, percebemos que havia muitos a acreditar no seu potencial e com disponibilidade para contribuir.


Qual é o retorno que os privados esperam obter?
O retorno maior tem que ver com o acesso ao talento português e estrangeiro que ajudamos a desenvolver. E as parcerias que se vão desenvolvendo com a escola. As empresas sabem que a competitividade advém de se relacionarem com o talento, o conhecimento e a inovação. Que é tudo o que queremos assegurar que está cá. Mas também vamos ter de repensar a escola, como acredito que todas as universidades vão ter de o fazer.


Em que sentido?
A questão das competências é fundamental, porque aquelas que serão necessárias no futuro próximo são diferentes das que eram críticas até agora. Além do domínio do digital, há as questões da criatividade, empatia, liderança de equipas, empreendedorismo, capacidade de lançar novos projetos e resiliência. Estamos a rever todos os programas de
licenciatura, já o fizemos na área dos mestrados com a inclusão de temas de data science e digital business e vamos também aumentar a oferta de formação para executivos.


A relação tão próxima com as empresas, incluindo os financiamentos para o campus, pode pôr em causa a independência científica da escola?
A relação da Nova SBE com as empresas, sendo novidade em Portugal e em quase toda a Europa, não é a nível internacional. Nos EUA, muitas escolas recebem apoios de empresas para os seus campus e atividades e isso não as inibe de estabelecer parcerias e de participar em estudos. A forma como gerimos isto segue as melhores práticas. Há a garantia da qualidade dos nossos professores e asseguramos que têm o máximo de autonomia e independência, sendo responsáveis pelas conclusões a que chegam.


A relação entre a NOVA SBE, a EDP (que doou €1,5 milhões para o campus) e o estudo que veio a produzir sobre as rendas excessivas no sector da energia motivou a intervenção do Departamento Central de Investigação e Ação Penal. Está tranquilo com essa investigação?
Perfeitamente. A EDP encomendou- -nos o estudo, que foi realizado por um dos nossos professores mais idóneos e com melhores referências, até internacionais. E é ele o responsável pelas conclusões. É assim que atuamos com as entidades que nos pedem trabalhos. Não fazia sentido para uma escola que quer ter impacto na sociedade, deixar de participar nos debates que são relevantes para a economia portuguesa.


Um artigo recente no "Le Monde", com o título "O lado sombrio do milagre económico português", questionava precisamente a abertura da faculdade às multinacionais. Sentiu que era uma visão injusta?
É uma opinião à qual as pessoas têm direito e que é motivada pelo caráter inovador do projeto. Cabe à Nova SBE continuar a demonstrar que esta parceria não põe em causa a autonomia académica e científica da escola e dos seus professores. A história tem-nos dado razão, e estou convencido de que outras escolas irão assumir o mesmo modelo.
Fixou como objetivo colocar a Nova SBE no top 10 das melhores escolas de gestão europeias no ranking do "Financial Times".

 

Mas em 2018, sofreu uma queda...
O objetivo é recuperar e subir de forma sustentada. Mas há que fazer duas ressalvas: os constrangimentos vividos em Campolide nos últimos anos condicionaram a experiência dos estudantes e houve uma alteração nos critérios do "Finacial Times" que nos prejudicou. Obviamente que a qualidade do ensino não mudou de um ano para outro. E há um aspeto que defendo: sendo os rankings importantes sabemos que é uma fonte de informação para os alunos , nenhuma escolha deve basear toda a sua estratégia olhando para esse aspeto, que tem uma componente de grande variabilidade e que a escola não controla.


As universidades têm-se atualizado ou funcionam muito num modelo do passado?
O ensino fez um enorme trabalho nos últimos anos. O aumento das competências da juventude em Portugal é absolutamente extraordinário não só no número de alunos graduados, mas também em termos do conhecimento, como demonstram os rankings de PISA [Programa Internacional de Avaliação de Alunos, da OCDE]. Mas, estamos num mundo em que sucesso no passado não é garantia de sucesso futuro.


Que adaptações são necessárias?
Temos que ouvir mais os alunos para perceber quais são as suas necessidades, as empresas sobre as competências que precisam e as organizações não governamentais para conhecermos os
problemas reais. E é preciso que a investigação tenha impacto na sociedade e na vida das pessoas.


O ministro impôs um corte de vagas em Lisboa e no Porto para reduzir a concentração de alunos nestas cidades. Que comentário lhe merece?
Não sou favorável. Se tenho alunos que querem vir para uma escola e há vagas para o receber não devemos gerir a vontade dos alunos dessa forma, impondo-lhes outros estabelecimentos. A redução de vagas nas licenciaturas é sempre um desafio, porque é fundamental termos alunos que seguem para os mestrados. Até porque não queremos ter só estudantes estrangeiros.


Em 2018, venceu as eleições para um novo mandato. Concorreu com Pedro Santa Clara, que é da sua família [são casados com duas irmãs] e que foi o responsável pelo projeto do novo campus. Mantiveram os laços intactos?
O processo eleitoral na Nova tem sido sempre muito calmo, de sucessão programada. Desta vez, o meu colega Pedro Santa Clara decidiu concorrer e, além de ser o seu direito estatutário, a sua legitimidade era mais do que absoluta pelo seu papel fundamental no projeto do novo campus, que não teria sido feito sem ele.
assantos@expresso.impresa.pt

NÚMEROS
50
milhões de euros foi quanto custou a construção do novo campus da escola, em Carcavelos. Aliás, a campanha de angariação de donativos superou este valor, ascendendo a €51,3 milhões porque inclui contribuições para outros projetos da escola como novas cadeiras para atrair professores, bolsas para alunos e o apoio à investigação. Do total obtido, €43,7 milhões vieram de mais de 50 empresas e os restantes €7,6 milhões resultaram de 1700 donativos individuais. Entre os principais financiadores estão o Santander Totta, a EDP, a Ageas, a Vodafone, a Jerónimo Martins e os CTT

3200
alunos frequentam cursos na Nova SBE, mas as novas instalações têm capacidade para acolher quase 8 mil estudantes. Um quinto vem de fora e há mais de 50 nacionalidades entre os estrangeiros. A vertente internacional da escola também tem reflexo no corpo docente que tem origem em 20 países diferentes. A Nova SBE começou a lecionar em inglês em 1995 e todos os mestrados passaram a ser na língua de Shakespeare em 2006

68%
dos mestrados têm o primeiro emprego fora de Portugal, sobretudo, no Reino Unido, Alemanha, Itália, Holanda, Espanha, Bélgica e Suíça. Este número sobe para 96%, após três meses da conclusão do curso, e para 100%, após seis meses, garante fonte oficial da escola

"A produtividade é o maior desafio da economia"
Daniel Traça não hesita em aplaudir o trabalho de gestão das contas públicas feito pelo ministro das Finanças, Mário Centeno. O défice não lhe merece preocupações, mas o mesmo não acontece quanto ao crescimento da economia, em que o fator criação de emprego está a esgotar, sem que o problema da produtividade esteja resolvido.


Há muitas pessoas que defendem que Portugal tem um problema de gestão nas empresas, de qualidade dos empresários. Concorda?
Portugal teve uma crise muito complexa nos últimos anos e saímos dela porque a atividade económica cresceu rapidamente e mais do que o esperado, aliás, toda a nossa subida no rácio de exportações sobre o PIB é testemunha disso, eram 28% antes da crise e agora estamos entre os 43% a 47%, não sei de cor qual é o último valor. Os empresários portugueses foram fantásticos nessa recuperação, arriscaram ir pelo mundo fora encontrar novos clientes que permitissem às suas empresas sobreviver. Têm uma enorme capacidade de resiliência e de sobreviver à dificuldade.


Persistem problemas na gestão.Assim que passa a pressão, os empresários ainda enfrentam algum desafio para serem mais estratégicos na abordagem dos problemas. Muitos gestores precisam de uma visão mais estratégica, de olhar mais no médio prazo, com mais investimento nos recursos humanos e em inovação.


De que forma as escolas de negócios, em particular a Nova SBE, contribuem para a excelência na gestão?
Muitos destes empresários tinham níveis de educação muito baixos, mas hoje estão a dar lugar a uma nova geração com mais formação e a gestão está a ficar mais profissional. Este processo não é de maus e bons empresários, é um processo de mudança. A produtividade é um desafio em Portugal e uma parte tem que ver com o que passa nas empresas. Além de uma visão mais estratégica, [os novos líderes] precisam também de mais talento, capacidade de inovação e meios para retreinarem o talento que já têm nas empresas. Estamos constantemente com as empresas a dar-lhes não só novo talento que sai da escola, mas a pegar nas suas pessoas e a melhorá-las. Ao mesmo tempo contribuímos com projetos de inovação, que as fazem pensar no futuro.


Este Governo foi bom para as empresas e para a economia?
Os números demonstram que estes anos foram bons para a economia portuguesa. A estabilidade política, com todas as suas vicissitudes, permitiu ao país ter uma excelente imagem para fora e isso é fundamental para qualquer pequena economia aberta, porque permite que haja, cada vez mais, empresas internacionais a verem Portugal com bons olhos e a querem investir no país. Há mais companhias que estabelecem cá centros de competências e nós temos sucessivos pedidos de em
presas para colocarem algumas das suas atividades no campus, portuguesas e estrangeiras. Mas é preciso notar que esta recuperação da economia portuguesa não se faz em quatro anos, faz- -se a 15 anos. O Estado, independentemente de qual seja o Governo, tem que ter uma visão estratégica a 10 anos.


E necessário um pacto de regime.


Sim, é fundamental.


E acha que é possível?
Não sou comentador político, mas este país já demonstrou ser capaz de fazer muitas coisas que achávamos impossíveis. É preciso vontade. As universidades são neutras politicamente e devem ser o espaço onde se faz essa reflexão. Por exemplo, temos muitos eventos a decorrerem nesta escola, como, há poucos dias, o congresso da AICEP Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal em que se debateu o futuro da exportação.


Considera exequíveis as principais projeções que o Governo faz no Programa de Estabilidade para 2019-2023 [défice de 0,2% do PIB e crescimento de 1,9%, em 2019]?
As minhas preocupações não estão no défice. O ministro Mário Centeno mostrou ser extremamente capaz na gestão das contas públicas. É um trabalho duro e desgastante e ele demonstrou uma grande capacidade de prever e de gerir politicamente a questão. A esse nível, tendo em conta o track record [histórico] dos últimos quatro anos, devemos cumprir [as previsões]. Já ao nível do crescimento da economia tenho uma preocupação que é a seguinte: se olharmos para o crescimento em Portugal, o grande desafio sempre foi a produtividade. Está a chegar ao fim o processo de expansão da economia nacional com base nas pessoas que estavam no desemprego e que, entretanto, voltaram a ter trabalho, porque a capacidade de continuarmos a crescer no emprego com um desemprego que já é baixo é muito limitada. A única forma de crescermos, agora, é com base na produtividade, mas temos um track record de 20 anos de muito pouco crescimento da produtividade.


O que é que falta?
O país tem que continuar o processo de renovação dos recursos humanos e dos gestores. Por outro lado, há que investir em novas tecnologias digitais e é necessário ter planos de crescimento internacional que nos obriguem a competir com os melhores do mundo, colocando pressão sobre as empresas portuguesas. A produtividade é o maior desafio da economia portuguesa e do qual continuamos a falar pouco. Fez-se um trabalho enorme ao nível da criação de emprego, mas o progresso vai exigir que as empresas consigam aumentar aquilo que as pessoas conseguem produzir e aquilo que conseguem vender. Este desafio exige uma visão estratégica a 10 anos, um pacto de regime sobre aquilo que são as grandes prioridades e que o entendimento sobre estas questões não esteja preso no debate político.

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